Escolha uma Página

Anacleto e o Sequestro – Parte 3

Maria Letícia abriu os olhos muito lentamente, deixando entrar aos poucos a luz da realidade em suas retinas. Despertava de um sonho estranho e esquisito, como se a agulha da sua vitrolinha tivesse saltado seu curso normal e tivesse arranhado a face do vinil com um som garranchento e feio. Sentiu, antes mesmo de abrir os olhos completamente, um odor sujo de um colchão velho e puído, de pouco estofo e bolorento. Também sentiu nas delicadas narinas o cheiro de paredes sem reboco e de telhas de amianto vazadas pela chuva, pela luz do Sol e da Lua, vazadas pelos mosquitos e ruídos. Sentiu na verdade, antes de se dar conta de onde estava, o cheiro da miséria. Não da pobreza, que ela conhecia bem das ações beneficentes organizadas pela igreja e que só tinha a mão estendida e a boca aberta para agradecer. Inspirou profundamente a penúria raivosa da fome e da falta de oportunidades que o ambiente exalava e soube que aquilo era algo que jamais havia experimentado na vida. Parou as pálpebras pela metade do caminho, temendo ver o que a luz de uma vela tremeluzindo tinha para mostrar. Quando finalmente olhou, arrependeu-se e cerrou novamente os olhos, fazendo-se como quem está dormindo.

* * *

Anacleto, Colchonete e Panela, investidos nos papéis de Reco-Reco, Bolão e Azeitona, tentavam compreender onde estavam e o que fariam para sair vivos daquela situação. Pelo menos dois deles ansiavam por isso. Haviam seguido o tal Ditão por becos e vielas labirínticas sem fim, até chegarem ao que parecia ser uma espécie de ginásio de esportes bem pequeno, plantado diante de um terrão retangular, que parecia ser um campo de futebol. Havia uma lâmpada amarela pendurada num poste em cada canto do terreno, mostrando a terra vermelha riscada aqui e ali por tinta de cal. A um comando do Ditão as crianças todas emudeceram e acompanharam os quatro até a sede da comunidade sem emitirem um som sequer. Dentro do pequeno galpão havia uma mesa retangular enorme que, provavelmente, fazia as vezes de mesa de ping-pong. O líder do bando abriu um mapa sobre a mesa e nele apontou para os rapazes onde estavam e onde ficava a casa dos bandidos. Explicou de que maneiras poderiam invadir o local, todas muito arriscadas e perigosas. Seria necessário um plano muito bem arquitetado para levar a empreitada ao êxito. Ele havia conseguido uma série de informações através da sua rede de garotos. Cada um trazia um relato: quando alugaram o casebre, quantos eram, quando acordavam, quando dormiam, cada mínimo movimento era acompanhado pelos moleques maltrapilhos e descalços que passavam despercebidos pela paisagem barrenta e poeirenta. Desse modo sabiam que eram três sujeitos, usavam um Fusca bege sem estepe, tinham quatro revólveres, 8 caixas de munição e dois facões. FBI perde! Haviam chegado no sábado anterior e feito pouco movimento até o dia de hoje, quando dois comparsas saíram no meio da tarde e voltaram no início da noite. Um deles ficou na casa, de guarda, e só saiu quando os outros chegaram, retirando um corpo, desmaiado ou sem vida, de dentro do veículo. O comparsa jogou um grande cobertor sobre o corpo e entraram rapidamente, batendo a porta atrás de si.

Anacleto fez várias perguntas sobre a estrutura da casa, quantas portas e janelas? Perguntou se havia um cão para dar alarme ou qualquer outro mecanismo para dificultar uma possível invasão? Queria saber se eles possuíam armas de fogo, além dos estilingues? Nada. A coisa mais perigosa ali era um canivete para descascar laranja. Quanto mais perguntava, mais Colchonete e Panela concluíam que deviam ir embora e, no máximo, passar numa delegacia. Verdade seja dita, o posto policial mais próximo estava a mais de 15 quilômetros dali e seria muito egoísmo partir sem prestar socorro para a vítima, se é que existia realmente uma vítima. Decidiram averiguar enviando dois guris para pesquisar a situação. Dois Palmos e Meio Quilo foram caminhando lentamente até a casa, como quem está passando fome e necessidade e bate na porta para pedir comida. Faziam bem esse papel, que aliás era a própria realidade deles e dos demais garotos da comunidade. O objetivo da missão era xeretar o que acontecia lá dentro e, para isso, enquanto Dois Palmos batia na porta e conversava com quem abrisse, Meio Quilo esticaria o pescoço para ver o que se passava lá dentro. O menino nem chegou a terminar a primeira frase. Com um safanão brutal o sujeito afastou-o da porta entreaberta, fazendo-o rolar sobre o parceiro que estava agachado atrás. Depois de meia dúzia de xingamentos, a porta foi batida com um estrondo. Os dois moleques fugiram em disparada, tomando o cuidado de fazer um caminho que não desse pista da verdadeira direção que tomariam e chegaram bufando, sem fôlego no galpão. 

Dois Palmos começou o relato, deixando todos decepcionados, à medida que avançava, com o resultado da “missão”, até que Meio Quilo falou com a voz firme:

– Tem uma moça!

Contou o que sucedeu para confirmar o que viu. Quando chegaram na porta da casa, agachou-se atrás de Dois Palmos e ficou olhando fixamente para a junção da porta com o batente. Nos segundos que a porta ficou aberta, com o homem entre eles, viu um pequeno catre e nele deitada com a barriga pra cima, estava uma moça, muito branca, com os cabelos castanhos escorridos sobre os ombros. Pôde perceber que ela respirava, até que o amigo tinha rolado sobre ele e os dois saíram correndo em disparada.

Não havia dúvidas. Estavam diante de um sequestro e lidando com pessoas muito perigosas. Começaram uma discussão sobre o que podiam e deveriam fazer, chegando à conclusão que podiam muito pouco e deviam acima de tudo garantir a segurança da moça sequestrada. Anacleto sugeriu que os amigos saíssem de lá até um lugar mais movimentado e tentassem encontrar um táxi que os levasse até uma delegacia. Colchonete insistiu que Panela fosse sozinho e ele ficaria com Anacleto dando uma retaguarda. Ditão escalou dois rapazes mais encorpados para acompanhar Panela em segurança até que encontrasse um táxi, o que era considerado um milagre naquele lugar e àquela hora. Panela seguiu pelos becos escuros ladeado pelos “seguranças” e, antes de quebrar a primeira esquina, virou-se para trás e viu os amigos diante do galpão, com uma estranha sensação de que algo muito ruim estava para acontecer com eles.

Mais confiantes pela possibilidade de terem socorro policial em algum momento, Anacleto e Colchonete puseram em andamento, com as sugestões de Ditão, um plano de resgate. O casebre tinha duas portas e quatro janelas, duas maiores e duas menores. A única chance que tinham era atrair os bandidos para fora e invadir a casa para libertar a refém. A comunidade tinha uma boa quantidade de rojões de São João que podiam ser usados para confundir os marginais, fazendo-os pensar que eram tiros de revólver de uma batida policial. Na região havia muitas casas de marimbondos e eles jogariam duas ou três dessas casas, colhidas num saco, para dentro do casebre. Ditão falaria pelo megafone usado nos jogos de futebol, simulando uma ordem de prisão. A ação teria que ser relâmpago para surpreender e não dar tempo de entender o que realmente estava acontecendo. O problema é que para dar certo, seria necessário um movimento inicial para ganhar alguns minutos da atenção dos marginais, enquanto um grupo de garotos plantaria os rojões em volta da casa. Alguém teria que bater na porta de entrada, conseguir atrair a atenção dos marginais por algum tempo e sair de lá sem levar um tiro. Anacleto venceu a eleição sem concorrência e, depois de calcularem o tempo necessário para cada ação, seguiu calmamente para a casinha agourenta e escura.

Dentro da casa Maria Letícia começava a entender a situação. Pelo jeito aqueles três homens não eram nada bons e, a menos que seu corretor ortográfico mental estivesse enganado, ela estava numa situação bem ruinzinha. Tentou um diálogo, mas, sinceramente, começou a achar que eles falavam outra língua ou, pelo menos, um dialeto do português desconhecido na cidade de São Paulo. Para satisfazer sua curiosidade se pôs a fazer uma série de perguntas complexas, deixando os três homens, em pouco tempo, exaustos mentalmente. Ameaçaram, mandaram calar a boca, gritaram e até pediram com educação, mas nada parava aquela matraca, uma invasão sem fim de palavras complicadas, difíceis de entender. Em defesa dos três marginais, diga-se de passagem, ninguém entenderia o que aquela moça falava, mas naquela situação, era muito benéfico o processo de atrapalhação mental a que estavam submetidos. Benéfico para ela, claro, pois a essa altura os sequestradores já estavam arrependidos de ter se envolvido nessa desventura. Para complicar, bateram à porta:

– Boa noite, alguém na casa tem interesse em discutir as vantagens e desvantagens do suicídio?

Seja pela dor de cabeça de tanto ouvir Maria Letícia, seja pelo profundo e alucinado golpe mental da pergunta, ou ainda pela aparência cadavérica de Anacleto no meio daquela noite sem pé nem cabeça, o Bandido nº 1, ao invés de por o rapaz pra correr, puxou-o para dentro, inserindo um convidado no sequestro e pondo em risco o plano de resgate arquitetado. Colchonete era o encarregado de dar o sinal de partida para a ação, mas ficou todo confuso com o amigo entrando na casa. Na dúvida, aguardou alguns minutos e abaixou a bandeira amarela, o sinal combinado. Na confusão que se seguiu, impossível de relatar na totalidade, tiros de rojão pipocaram imitando uma metralhadora, maria-ritas ensandecidas voaram distribuindo ferroadas a torto e a direito, Anacleto pegou Maria Letícia pela mão e saiu correndo fechando a porta atrás de si; os bandidos nº 2 e nº 3 para abrir a porta de entrada, enquanto o nº 1 descobria que haviam colocado pesos atrás da porta dos fundos. Viram-se os três bandidos aprisionados naquela arapuca e não tiveram outra saída do que jogarem-se pelas janelas, estilhaçando vidros pelo chão. Quando enfim conseguiram se ver livres, rolaram pelo chão gemendo de dor por causa das picadas. Ditão retumbava sua voz de prisão pelo megafone, enquanto Panela chegava orgulhoso com três rádio-patrulhas preto e laranja, da cor da vitrolinha caída ao lado da cama do sequestro.

Os três amigos mais Maria Letícia chegaram no bairro pela manhã, levados por um cortejo de viaturas policiais. O prefeito desta vez ficou atrás do governador, que exaltou a coragem e o altruísmo dos rapazes, exemplo a ser seguido. Anacleto, decepcionado com o resultado da aventura, avaliava o que podia ter dado errado e nem percebeu quando o governador espetou uma medalha em seu peito. A picada trouxe-o para a realidade e nela o governante conversava com a mocinha:

– E você, minha linda jovem, gostaria de declarar algo?

– Sim. Quero saber quem ficou com a minha vitrolinha laranja?

CaMaSa

Anacleto e o Sequestro – Parte 2

Há situações na vida, arriscadas e perigosas, nas quais tudo que queremos é ter ao nosso lado a companhia ideal. Alguém seguro e experiente que saiba o caminho das pedras, o segredo do cadeado, voar sem asas ou pelo menos que diga as palavras certas na hora do aperto. Quando o calafrio na espinha atingiu o ponto mais baixo das colunas vertebrais de Colchonete e Panela, eles tinham certeza absoluta que Anacleto não era essa pessoa. Não só ele não estava tremendo de medo diante do estranho mal encarado olhando para eles, como também tinha no rosto um sorriso de paz e tranquilidade de quem havia encontrado seu finalmente. No silêncio tétrico que se seguiu à pergunta do sujeito nada amigável, só se ouvia os dentes do Panela batendo e a barriga do Colchonete se revirando, prenúncio de coisa muito ruim se materializando. Anacleto deu o tom da conversa respondendo com uma pergunta:

– E você, quem é?

Os dentes do Panela bateram uma última vez. Cerraram tão fortemente que pareciam ter nascidas grudadas as arcadas superior e inferior. Terror era pouco! De ambos os lados do homem surgiam pouco a pouco pares de olhos brilhantes, injetados de sangue. A matilha era enorme! Colchonete afrouxou a musculatura e emitiu um sonoro “Valha me Deus”, simulando o escapamento do DKW 3 cilindros que os largara naquela roubada. Pelo cheiro, podia-se dizer que ele já estava morto, fazendo jus à expressão: Morto de Medo. Anacleto, entre os dois, mantinha a atitude serena e desafiadora, braços cruzados na altura do peito, queixo erguido à frente, por sua vez corroborando a expressão: Morreu Feliz! O grupo foi saindo das sombras, aproximando-se da luz amarelada do poste, único aliás num raio de 200 metros. Eram crianças e adolescentes maltrapilhos que, pela aparência, não viam banho e sabão há algum tempo. O homem se chamava Ditão, era líder da comunidade próxima e, naquele momento, fazia a ronda noturna de segurança. Os três amigos, um pouco mais calmos, hesitaram um pouco mas acabaram revelando o motivo de estarem ali. O homem disse então que realmente havia percebido algo fora do comum naquela casinha mais adiante, mas achava que deveriam ser homens perigosos, que não era conveniente enfrentá-los de peito aberto. Os olhos de Anacleto brilharam de prazer…

* * *

Maria Letícia era um doce de menina. A pele clara, os cabelos escuros, como os olhos, duas jaboticabas. A adolescência a fizera mais bonita, encorpara um pouco, não muito, na medida certa que exige esse período de transição entre moleca e moça, não muito magra, nem gorda. A vivacidade estava um pouco mais contida, mas a curiosidade expandira grandemente. Não de modo inadequado. Ela carregava nas atitudes e comportamento as marcas claras de sua posição. Nascera em família abastada da emergente Mooca, não a tradicional, dos cortiços e fábricas poluentes, mas a nova, moderna, que se espalhava pela Avenida Paes de Barros pelos altos da Mooca, passando pelo ponto mais alto na caixa d’água, até atirar-se como água de uma cascata até a Vila Prudente e suas favelas miseráveis. No seu reino familiar ela era a princesa com direito a estudar no colégio Dante Alighieri e frequentar, aos domingos, às 11hs, as missas dos jovens da Igreja São Rafael. Ali teve contato com rapazes e moças diferentes, vindos de extratos diversos, com visões de mundo e aspirações muito mais simples, práticas e acessíveis que as suas. Ela desejava um Príncipe e, se entre as novas amizades seu coração escolheu alguém para o papel, manteve o segredo bem guardado em seu coração, sem que alguém soubesse ter ela dado um inocente beijo em alguém do bairro.

Os encontros dominicais serviam para criar um vínculo espiritual com a igreja e comentar os bailinhos do sábado e as domingueiras de logo mais à noite. Nesses momentos o brilho nos olhos de Maria Letícia diminuía um pouco. Queria saber dos encontros, das danças de rosto colado e dos beijos à meia luz. Os namoricos que pipocavam entre as meninas e meninos do grupo, a inocência que ia se perdendo lenta e gradualmente, irreversivelmente. Vivia através das histórias contadas em detalhes o que não podia viver por si mesma. As paqueras, os olhares, toques de mão, os abraços mais ou menos apertados, os beijos, na testa, no rosto, nos lábios, de língua… A temperatura só aumentava, em pleno inverno, e fazia nascer nela uma vontade, um desejo, uma sede que água alguma saciava. Era muito melhor que as fotonovelas…

Os pedidos aos pais para ir a um bailinho, uma domingueira, eram constantes, mas não insistentes. Não ao ponto de faltar com o respeito, incomodar ou interromper o fluxo harmonioso do lar. Mesmo assim, era bem evidente que a filha estava crescendo, deixando de ser menina, e seria necessário, além de um acompanhamento mais intenso e rigoroso, mostrar, através de símbolos próprios do status que pertenciam, a direção correta que ela deveria seguir. Num sábado à noite, Maria Letícia rabiscava queixas e lamentações em seu diário, imaginando o que faziam naquele momento seus amigos no bailinho da Mirtes, famosa, entre outras coisas, pelos bailinhos na garagem de sua casa. Todos foram convidados, ela também, mas desta vez nem chegou a pedir para sua mãe deixar ela ir. Trancou-se no quarto e ficou pensando como seria chegar ali e ser tirada para dançar. Ele estaria lá. Diria não a todos os outros até que ele chegasse nela. E se abraçariam, quem sabe um beijo. De repente seu devaneio foi interrompido por batidas na porta. Pulou da cama e abriu a porta correndo. Viu seus pais sorridentes, ela não entendeu nada até reparar que seu pai tinha algo em suas mãos. Ela quase caiu de costas quando viu o que era. Uma vitrolinha laranja portátil!

Transferência é o ato ou efeito de transferir. Transferem-se direitos, propriedades, valores ou dados. Transferem-se objetos e ensinamentos, talvez o amor e carinho de alguém para outro. Na infância e juventude talvez seja possível transferir desejo e vontade para um objeto. Pelo menos por algum tempo. Maria Letícia transferiu toda frustração por sonhos juvenis não realizados para aquele objeto altamente tecnológico e inovador. Esqueceu bailinhos, amizades e príncipes. Ligou animada a vitrolinha na tomada e pôs-se a tocar um long play atrás do outro, dançando sem parar ao ritmo das músicas que eram sucesso na época. Era mágico observar o vinil preto girando sobre aquele objeto brilhante, laranja, a agulha flutuando sobre os sulcos, tirando os acordes dos instrumentos, as vozes dos cantores e o chiado inconfundível de uma época que seria enterrada pelo rio do tempo, que viveria somente na memória daqueles que ouviram.

Para interromper o idílio musical, seu irmão mais novo veio chamá-la para a janta. Muito a contragosto ela desceu e encontrou os pais impacientes sentados à mesa. Sábado à noite era tradição naquela casa a pizza da São Pedro, na época um local pequeno e familiar, que fazia uma redonda artesanal à mão. O próprio Seo Rafael vinha entregar a encomenda, eventualmente acompanhado do filho Cacau, para que este aprendesse quem eram as famílias respeitáveis do bairro. A de mussarela e a de calabresa já descansavam fumegantes acompanhadas de um tinto da casa. Nesses dias o pai deixava provar um golinho, para aprender o vinho e não se deixar fazer de boba. Ela comia rapidamente, ansiosa para voltar ao quarto e à sua vitrola de plástico cheirando à novidade. Mal podia esperar para contar a novidade a todos. Com certeza tinha quem iria morder o próprio cotovelo. Seus pensamentos foram interrompidos pelo anúncio do seu pai:

– Hoje à noite, depois de comer, iremos todos à casa do tio Benevides!

Não sei se porque ela estava com a boca cheia de pizza, ou por causa da alegria e gritaria que se seguiu, ou porque não valia à pena tentar argumentar com seu pai, mas Maria Letícia se viu como um autômato seguindo seus irmãos, mãe e pai na direção da garagem, onde o Aero Willys, o primeiro carro brasileiro de luxo, que só era utilizado nos passeios familiares, aguardava já de motor ligado. Portas fechadas, seu pai manobrou até a calçada e quando voltava para o assento do motorista após fechar o portão, ela lembrou que havia deixado a vitrolinha ligada, com um disco girando sobre ela. Pulou do carro e disse aos pais que iria desligar o aparelho e voltava voando. Ia num pé e voltava no outro. O pai, muito bravo, permitiu que ela fosse rapidamente. Ela atravessou a garagem e entrou pelo quintal lateral pela porta dos fundos, onde ficava a cozinha. Entrou, atravessou a sala, subiu as escadas e entrou no quarto. Olhou para o local onde até pouco tempo atrás a música girava de um disco e não viu nada. Olhou ao lado da cama, sobre o criado, imaginou que o irmão estava pregando alguma peça, quando sentiu atrás de si um corpo. Duas mãos a fizeram girar 180 graus bruscamente e uma voz dura e fria deu uma ordem: 

– Não dá um pio.

Não era necessário. Ela desmaiou antes do pio.

CaMaSa

Anacleto e o Sequestro – Parte 1

Para o bem ou para o mal, a fama de Anacleto crescia sem parar. Muitos o consideravam alguém especial, com dons e poderes superiores, uma espécie de enviado dos deuses. Já outros viam nele somente predicados negativos, portador do azar e más influências, o próprio filho do coisa ruim. Dona Tinha mesmo era uma que sempre se benzia três vezes quando passava na porta da casa “deles”, como agora se referia aos vizinhos, com uma aguda lembrança dolorida no estômago. Os três seguiam sua rotina, indiferentes aos comentários maliciosos. Cleto saia cedo para o trabalho, tomando um café apressado e dando o infalível beijo de despedida em sua amada Ana. Ela preparava o lanche do filho e, depois que ele ia para a escola, cuidava da casa ouvindo as notícias através da Rádio Nacional. Divertia-se com os shows de variedades e músicas, mas ficava muito preocupada com as ocorrências policiais, cada vez mais assustadoras. 

Anacleto por sua vez havia aceitado bem a transição para o colegial. Na realidade a maioria da classe eram seus velhos conhecidos, todos cientes das suas esquisitices. As novidades eram 2 ou 3 alunos vindos de outros colégios. Entre eles um rapazola magrelo, de cabelos compridos e cara de quem não dormia há alguns dias. Seu nome era José Ricardo, mas trouxe consigo o apelido de Colchonete, por motivos óbvios. Ele e Anacleto tornaram-se amigos de imediato, não por afinidade ou algum interesse comum, mas pela falta de entrosamento com os demais. Colchonete ficou admirado quando soube que Anacleto era nome, não apelido. Também ficou espantado com as tendências do novo amigo e contou que não conseguia dormir antes das 3 horas da manhã, e que por isso estava sempre com sono. Foram trocando informações como quem narra detalhes da vitória do seu time de futebol na última rodada e, de repente, eram amigos!

Juntou-se à dupla outro rapaz, Pedro de Assis, vulgo Panela. Sabe-se que quando ele tinha 5 anos de idade, meteu na cabeça uma panela de ferro para brincar de soldado. Colocou a danada depois de muito corre-corre e disparos imaginários, tiros pela boca e mortes de faz-de-conta. A cabeça suada e os cabelos escorridos grudados no crânio facilitaram o encaixe, mas depois, sabe-se lá se os cabelos secaram e engrossaram ou era mesmo o momento do crescimento, o que aconteceu foi que a caçarola se prendeu de tal maneira naquela cachola que parecia ter nascido ali. De nada adiantou o choro, os gritos, as pragas e lamentos. Passou-se sabão, sabonete, óleo de cozinha e de caminhão. Tentou-se com manteiga, banha de porco, sebo, pasta de dente, shampoo e condicionador. Sugeriram estrume de vaca, mais choro e grito. Alguém conhecia um ótimo ferreiro que poderia cortar o metal, mas o risco de ferir a criança era muito grande. Exaustos, foram todos dormir, na esperança que o amanhecer trouxesse uma solução. Pedrinho deitou na cama sem travesseiro, mal acomodado, a cabeça doendo pelas tentativas de puxar a vasilha. Adormeceu vencido pelo cansaço e sonhou que cavalgava um cavalo branco por pastos verdejantes, com um céu totalmente azul manchado pela bola amarela do Sol. 

Acordou com uma baita dor de cabeça! Resolveram levá-lo ao hospital. Passou por uma junta de recepcionistas, depois por uma junta de enfermeiras e, finalmente, por uma junta médica. Todos eram unânimes: era urgente tirar a panela da cabeça do menino para que a dor cessasse. Comunicaram aos pais que a situação era muito grave, pois o crescimento da criança causaria uma pressão cada vez maior, podendo até levar a óbito. Teriam que fazer uma operação delicadíssima, cortando todo o perímetro do crânio logo abaixo da boca da panela; ergueriam a mesma com a tampa da cabeça dentro dela enquanto manteriam o cérebro exposto protegido por uma concha acrílica especial; com sorte tirariam a parte do crânio de dentro do recipiente de metal e a grampeariam na cabeça do menino. Os pais se entreolharam e na mesma hora decidiram que até que não era tão ruim assim o filho ter essa proteção extra na cabeça. Voltaram para casa firmes e decididos a usar outra panela para cozinhar o feijão. Se preciso fosse, até comprariam uma nova. Pedro ficou ainda mais três semanas com o artefato colado ao cocuruto, até que numa tarde fria de julho, sem mais nem menos a panela pulou para fora de sua cabeça. Mas o mal já estava feito, ele seria irremediavelmente o Panela para o resto de sua vida. 

Assim chegou Anacleto, com dois amigos, àquela fase da vida onde as coisas deixam de ser completamente inocentes, quando há dúvidas na hora de escolher calças curtas ou longas, quando a saudade das curtas se intensifica mas o instinto pelas longas é mais forte. Nesse período as meninas deixam de ser amigos, não jogam mais bola ou queimada, delas vem uma fragrância, um perfume tão especial que inebria e entontece, a língua tropeça nas palavras e os pés no chão. Sem saber o que se quer encontrar, os meninos experimentam coisas novas, algumas proibidas, para criar coragem e crescer alguns centímetros no conceito, na avaliação das garotas. Anacleto, Colchonete e Panela tomaram uma dose cada um de um conhaque barato no boteco do Seo Ferreira e foram gargalhando e cambaleando para o bailinho da Mirtes, famosa pelas festas que dava na garagem da sua casa. Chegaram com cara de quem tinha aprontado alguma, os dois empurrando Anacleto à frente, sem saber o que fazer. Johnny Rivers cantava suave na vitrola e, para surpresa dos três amigos, só tinha meninas no salão improvisado. Puderam escolher quem tirar para dançar e, depois de algumas tábuas, ocuparam o centro a meia luz da garagem numa tão obstinada quanto desastrada tentativa de dança.

Alguns pisões e pedidos de desculpas depois, mais rapazes foram chegando, a concorrência aumentando e, de uma hora pra outra, estavam os três jogados num canto da garagem/salão de baile. Se viram os mais novos ali. Os outros eram rapazes do 2º e 3º anos, além de muitos outros bem mais avançados, barba e bigode grosso. Uns eram reconhecíveis mas muitos outros eram forasteiros, de bairros ou até mesmo cidades distantes. Havia passado o efeito do álcool e com ele o sonho de um bailinho só para eles. Sem saber o que fazer, zanzaram pelo salão como quem não quer nada. Separaram-se para diminuir a humilhação e pescaram aqui e acolá conversas muito importantes que não faziam parte de suas realidades. “…Ingressos para o show da Nara Leão…”, “…Comprei um Opala vermelho…”, “…Então ela ficou nuazinha na minha frente…”, “…Agora é só receber o resgate…”! Anacleto sentiu um sobressalto no peito. Será que entendeu bem? Buscou os amigos com os olhos aflitos. Juntou os dois e cochichou:

– Ouvi dois caras falando sobre um sequestro!

– Eram dois caras altos, um de camisa verde e outro de camisa listrada, cinza e rosa? Perguntou o Panela.

– Esses mesmo, por que? Você também percebeu alguma coisa?

– Passei por eles e o camisa verde disse, “Ela já está com a gente, bem trancada”.

– Nossa, e agora? O que vamos fazer? Perguntou Colchonete. Vamos falar pra polícia?

– Não, respondeu Anacleto. Ninguém vai acreditar na gente. Vamos conseguir provas, ver se descobrimos alguma coisa. Vamos ficar de olho até a hora que eles saírem e daí vamos atrás deles.

– Mas Anacleto, eles provavelmente estão de carro, como vamos fazer? Perguntou Colchonete.

– Quanto vocês têm nos bolsos? Vamos juntar tudo. Pagamos o taxi até onde o dinheiro alcançar, depois voltamos de ônibus. Disse Anacleto, já antevendo na aventura riscos e flertes com a morte.

E assim fizeram. Anacleto ficou vigiando dentro da garagem, Colchonete ficou na porta e Panela na calçada. Quando os dois sujeitos deram sinais que sairiam, Anacleto avisou o amigo que assobiou para o outro no meio fio. Deram sorte! O DKW vinha batendo os cilindros lentamente em sua direção. Subiram rapidamente e pediram para o motorista seguir o Fusca bege do seu primo que arrancava logo ali adiante. O condutor seguiu o outro carro com má vontade, subindo a Rua Dom Bosco e virando à direita na Barão de Jaguara. Atravessaram a ponte e viraram na Avenida do Estado à esquerda, sem sair dela por um longo tempo. Dobraram com o rio à direita, em direção a São Caetano, Santo André, até a divisa com Mauá. O dinheiro já estava no limite e o pavor dos três era visível. O Fusca saiu da avenida e enveredou por ruelas escuras até que parou diante de uma pequena casa. Eles saltaram do táxi uma quadra antes e fingiram ser moradores do local entrando em sua casa. Viram quando a porta da casinha se abriu, deixando vazar a luz para a calçada e a sombra de um homem muito grande. Nisso, uma voz trovejante explodiu atrás dos amigos:

– Quem são vocês?

CaMaSa

Anacleto e o Purgatório

Numa palavra, Anacleto era suicida. Isso não se podia negar. Era, no entanto, um suicida bem peculiar, porque temia a dor tanto quanto desejava a morte. Injeção, nem pensar, gritava como um bezerro só de ouvir falar. Tomar vacina era um desespero, necessário 4 ou 5 pessoas para segurar. Cortes, com faca ou machado, qualquer instrumento cortante, estava fora de cogitação. Certa vez desmaiou ao ver o sangue de um corte em seu dedo, feito por uma folha de papel. Despencar das alturas não era possível, tinha vertigem! E medo também, não de morrer, mas da queda. Imaginava seu corpo batendo com força na superfície dura e áspera, os ossos partindo, mas continuando vivo, cheio de dores. Um atropelamento, frente a um ônibus ou trem, teria o mesmo efeito. Enfim, ele queria o salto mas não o tombo. 

Ana e Cleto, seus pais, viviam atormentados pela possibilidade que ele encontrasse alguma forma de realizar seu objetivo. Acompanhavam seus passos, sempre vigilantes, na esperança de se antecipar a algum movimento mais perigoso. Ele havia terminado o ginásio, iria para o colegial, novas tensões pairavam no horizonte e ele era extremamente sensível. Quando aquela coleguinha da escola mudou-se para longe foi um verdadeiro drama. Foram dias de jejum, nem pão nem água, que só eram interrompidos quando ele se dava conta que na verdade estava se fortalecendo física, mental e espiritualmente. Não que ele tivesse uma noção clara disso, já que seus pais não o forçavam a seguir uma ou outra religião, dando apenas noções básicas. Isso porque, como todos sabiam o caso de Anacleto desde que nasceu, viviam surgindo pessoas oferecendo serviços e soluções espirituais para curá-lo. Havia mais religiões no mundo do que se podia imaginar, cada uma com seu deus próprio, mais ou menos poderoso que os demais.

Ana não fechava as portas para nenhuma esperança, tinha um enorme coração de mãe batendo dentro do peito e acreditava um pouco em cada sugestão. Cleto já era mais cético, prático. Separava os bem-intencionados dos aproveitadores e mantinha estes últimos a uma boa distância. Uma das vizinhas, a Dona Tinha, vivia convidando-os para seu culto, onde ela tocava violão para os louvores. Dizia ela que o pastor era muito franco e poderoso, tendo dado inúmeras provas do seu poder sobre as forças do Mal expulsando, dos necessitados, demônios pavorosos que batiam em retirada para nunca mais molestarem aquelas pessoas. 

– Só vendo para acreditar! 

Os dois, descrentes em princípio, pouco a pouco foram avaliando a possibilidade de uma tentativa, em parte pela insistência de Dona Tinha, em parte pelo comportamento de Anacleto que ultimamente andava um pouco mais estranho, acima do normal. Na verdade estava bem acima do normal. Ele se trancava no quarto por horas e horas, pouco conversava e comia o mínimo necessário. O pouco que vinha comendo era chocolate em pó. Ana, percebendo o interesse alimentar do filho, comprava vários pacotes do Chocolate do Padre e ficava feliz ao ver que o pó de cacau acabava rapidamente. 

Anacleto fazia pouco uso nutritivo do chocolate. Ele estava naquela idade em que os hormônios e desejos estão incontroláveis e urgentes, o corpo vibra e pulsa em lugares inusitados e secretos. É preciso espaço e solidão, coisa que as mães não entendem. Some-se a isso as características pessoais pouco comuns dele, para resultados bem mais estranhos. Anacleto estava mergulhado até o pescoço na Alquimia, buscando e pesquisando sem parar métodos milenares para criação de poções venenosas que não causavam dor nem sofrimento. Chegara à conclusão que o cacau, usado nas cerimônias Incas e Astecas, das regiões mesoamericanas, tinha um papel muito importante para suavizar o sabor dos venenos. Usava nos testes quantidades volumosas do pó, ora com líquidos, ora com outros pós, entre os quais diversos comprimidos comuns macerados num pequeno pilão de pedra. A maioria desses comprimidos eram comprados para uma tia quase centenária do seu pai que sofria de uma terrível prisão de ventre há anos.

Diante do comportamento cada vez mais estranho do filho, Ana e Cleto resolveram aceitar o convite da vizinha Tinha para conhecer o pastor milagroso e seu culto. Ana pensou que não seria simpático chegar de mão abanando e resolveu preparar algum docinho para levar. Decidiu preparar brigadeiros e abriu as latas de leite condensado para misturar ao chocolate. Quando abriu o armário da despensa, viu-se sem nada do cacau. Pensou em comprar, mas não daria tempo, e lembrou do filho. Quem sabe ele teria algum? Anacleto havia saído com o pai para cortar o cabelo e chegar com boa aparência no culto. Ana entrou no quarto e ficou muito feliz quando viu dois potes enormes de vidro com pó de chocolate sobre a escrivaninha. Foi para a cozinha com os potes e preparou caprichosamente os brigadeiros. Quando Cleto tocou a buzina do carro, ela saiu com duas bandejas de doces, com pelo menos uma centena cada.

Chegaram ao local uns 15 minutos antes da hora marcada e foram recebidos com entusiasmo por Dona Tinha. Mais entusiasmado ficou o pastor quando viu as bandejas de brigadeiros. O sujeito, roliço e atarracado, serviu-se logo de 3, 4 bolotas, apresentando-se com a boca cheia da massa marrom escura. 

– Vocês vieram no lugar certo. Vamos dar um jeito nas maluquices desse garoto!

Anacleto baixou os olhos, sem graça, e sentiu no ar o desconforto dos pais. Pensou em sair correndo, mas uma força maior mantinha seus pés no chão, como se estivessem presos a uma bacia de concreto. Ana tentou incentivar pai e filho, mas o mal já estava irremediavelmente feito, ao menos para Anacleto. Cleto, por sua vez, havia colocado o homem no lado ruim da sua lista, mas por amor à mulher e ao seu filho, seguiu resignado para o assento reservado para eles. Calculou que havia umas 70 a 80 pessoas no recinto, e que Ana devia estar contente por ter feito uma quantidade suficiente de brigadeiros. Os doces foram colocados junto a outros petiscos e bebidas, bem na porta de entrada. Provavelmente eram para o final do encontro, mas o perfume dos brigadeiros era tão inebriante que terminaram antes do início da cerimônia. 

O início foi bem curto. Tocaram um hino introdutório, Dona Tinha com violão em punho, e rapidamente o pastor tomou a palavra e o microfone. Pôs-se a falar uma cantilena interminável de qualidades que ele possuía, muitas vezes comparadas às da Bíblia. Recitou todos os tipos de pecados e punições que existiam e como ele se mantinha distante do mal, vivendo uma vida casta e irretocável. Disse que por conta disso era capaz de expulsar satanás daqueles que ofendiam a Deus, de quem era muito amigo. Que os custos da manutenção desses serviços era muito alto e por isso os valorosos auxiliares corriam as sacolas de arrecadação. E, que para provar que tudo que falava era verdade, hoje expulsaria o inimigo do corpo de um jovem ali presente.

Num movimento sincronizado e rápido, dois brutamontes pegaram Anacleto pelos braços e, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, estava diante do pastor. O homem olhou para ele e gritou:

– Meu Deussssssssss…

O “S” saiu bem fininho, como gaz escapando de um furinho minúsculo do botijão. Seus olhos ficaram completamente esbugalhados, sem entender o que estava acontecendo. Pela primeira vez ele sentia que era possível tirar o diabo do corpo, mas desta vez era do corpo dele. Cada bolota de brigadeiro descia pela garganta até o estômago como ferro em brasa cortando manteiga. Quando chegava lá embaixo não tinha remédio, nem Deus segurava. O pior é que se corresse o bicho pegava, deixando atrás de si um rastro de gaz pastoso e, se ficasse, tinha que ser imóvel, concentrando todos os esforços na travação do anel e fazendo cara de quem está entrando no céu pelas portas dos fundos do purgatório. O local virou uma Pompeia moderna, com as pessoas petrificadas em suas posições. Todos, sem exceção, acometidos pela mais implacável dor de barriga. O local tinha três banheiros masculinos e três femininos. Três mulheres e três homens abençoados realizaram em vida o significado de “conhecer o céu na Terra”, sentados em seus tronos de louça branca. Dona Tinha foi uma das que tentou correr, mas acabou enchendo o violão. Era questão de tempo para que todos se aliviassem ali mesmo, expulsando pra valer todo mal que possuíam.

Ana, Cleto e Anacleto, que não haviam provado do brigadeiro por educação, chegaram à conclusão que aquele culto era realmente muito esquisito e deixaram o local, empesteado e malcheiroso, com um bruta má impressão. Ficaram sabendo depois, que levaram uma semana para limpar o local e que, nas investigações sobre o caso, descobriram que o pastor e seus asseclas eram na verdade um bando de facínoras procurados por todo país. Mas desta vez ninguém conseguiu relacionar Anacleto ao caso.

CaMaSa

Anacleto Descobre o Amor

Há um momento único na vida de cada menino, muito sútil e delicado, onde acontece o rito de passagem, a transformação na forma de ser e ver, para muitos imperceptível e irrelevante, mas para os mais sensíveis uma machadada brutal, lâmina grossa e cega, não amolada, bem no meio do peito. Anacleto, distraído com suas questões pós-vida, recebeu o golpe sem nem saber de onde veio. Abatido em pleno vôo, despencou com toda velocidade em direção ao chão duro e áspero da realidade. Quebrou dentes, ralou peles, partiu ossos e pintou de vermelho sangue o asfalto que o recebia. Seu nome era Eva, que significa cheia de vida, e seus caminhos se cruzaram como se cruzam os caminhos de todos: num determinado momento.

Anacleto era uma espécie de celebridade na escola. O salvamento do professor, o caso da falsa terapeuta e outros tantos pequenos casos envolvendo tramas e engenhocas criadas por ele mesmo para tirar a própria vida, faziam dele um assunto recorrente nas rodinhas de alunos e alunas, funcionários e professores. De certa forma quase todos o conheciam e muitos o cumprimentavam sem que ele soubesse quem eram. Então, era muito comum ele reconhecer quase todo mundo, já que todos, vez ou outra, se colocavam diante dele com algum gesto de amizade, uma pergunta despretensiosa ou um elogio. Assim que, quando o momento determinado de Eva e Anacleto ocorreu, não foi tátil, físico, nem mesmo sensorial, como uma troca de olhares. Nada de encontrão com livros e cadernos esparramados pelo chão ou aventais trocados na aula de ciências. Foi muito mais místico, muito mais zen. Foi um pensamento, ou melhor, dois pensamentos!

Ele pensou num lugar tranquilo e isolado para pôr em prática seu mais novo plano suicida. Ela pensou num lugar isolado e tranquilo para chorar suas dores e agonias. Chegaram ao mesmo tempo no galpão abandonado da rua Oscar Horta, abrigo de ratos e pombas, testemunhas do encontro inusitado entre os dois adolescentes. Examinaram-se surpresos, correndo os olhares de cima a baixo, reconhecendo os uniformes da escola um no outro. Ele de calça cinza, camisa branca com o distintivo do colégio bordado no bolso, meias brancas e sapatos pretos. Nela as calças eram trocadas por uma saia encurtada pela dobra do cós. No silêncio constrangido, ambos pensavam em formas de se safar daquela situação. Quando resolveram falar, foi ao mesmo tempo:

– Vim me matar!

Eva era uma menina normal, com a beleza que toda garota de 12 anos tem. Mas Anacleto, ao ouvir o que ela disse, viu diante de si uma deusa juvenil de beleza encantadora. Ele a percebeu loira, com os fios dos cabelos retos e brilhantes na altura dos ombros. O tom era dourado entremeado por mechas castanho claro. Um feixe de luz vazava de um dos muitos furos nas telhas de amianto da cobertura, refletindo sobre seus cabelos e criando uma aura flutuante pontilhada por pontos luminosos de poeira. Os olhos eram verdes, da cor da folha da bananeira, vítreos. O tom da pele aveludada era café com leite, bem clara, levemente avermelhada. Vermelha mesmo era sua boca, foco de atenção dele desde o primeiro segundo. Assim ele a via, não exatamente o que de fato diante de si havia.

Seja pelo inusitado da situação, seja pelo nervosismo e necessidade de descontração, seja porque leve e cheia de sonhos é para os jovens a vida, ambos caíram numa sonora gargalhada e quanto mais riam, mais riam, até que os músculos da barriga começaram a doer de tanto que gargalhavam. Pouco a pouco foram retomando o fôlego, mas a cumplicidade já havia tomado o lugar da desconfiança e a proximidade e intimidade se instalaram naturalmente. Começaram a conversar como se conhecessem há muito, os nomes encaixados no meio da conversa, como quem troca cartões de visita. Suas histórias, curtas até aqui mas borbulhantes de detalhes e vivacidade, eram narradas e absorvidas ansiosamente, ora por ele ora por ela. Eva tinha uma razão simples e objetiva para não mais apreciar a vida, ao contrário de Anacleto cujas razões eram estranhas e complexas, místicas e filosóficas.

Ela sentou ao lado dele e começou a contar sobre sua família e a harmonia que existia entre seu pai, sua mãe, ela e sua irmã mais nova, Ritinha, como eram felizes na rotina familiar e no dia a dia. O pai trabalhava numa loja de departamentos, a Mesbla, aquele prédio enorme de tijolos, do outro lado do rio, na Avenida do Estado. A mãe cuidava da casa e das filhas, preparava o almoço e a janta, fazia bolos e doces perfumosos para o lanche da tarde. Aos fins de semana, o pai sempre inventava um passeio surpresa, um parque, um cinema ou teatro infantil. Em datas especiais pegavam a estrada e iam passar o dia na praia, em Santos ou São Vicente, eventualmente uma aventura mais emocionante indo até a praia das Tartarugas, no Guarujá. Era um tempo simples, de fuscas e peruas kombis, rádio de pilha e televisão em preto e branco. A felicidade chovia aos borbotões e os problemas eram do tamanho do salário. Mas tudo estava por terminar. O pai havia recebido uma promoção que envolvia uma transferência para outro estado, no Nordeste, mas a mãe não queria se mudar. As discussões entre os pais começaram ponderadas e educadas, passaram a ser irritadas e agressivas, desembocando numa torrente de acusações e pedidos de separação.

Anacleto ouviu todo relato pacientemente, sem emitir um pio. Na verdade ficaria ali por dias e dias ouvindo aquela melodia suave e doce que saia daquela boca. Ele não via no relato dela motivo algum para se tirar a própria vida, antes era só um mal estar passageiro, chato mas de fácil solução. Assim que, para parecer adulto e compreensivo, pôs-se a explicar como via a situação, apontando aqui e ali os pontos positivos da situação e as diversas soluções para as partes complicadas. E de tal modo construiu uma narrativa de positividade e otimismo, que ambos sentiram que era real e verdadeira a possibilidade de tudo se acertar e as coisas não só voltarem a ser boas como eram mas muito melhor. E cheios de esperança e um sentimento não identificado no peito, saíram do galpão abandonado em direção à suas casas. Ele disse que ia acompanhá-la até sua casa. Ela morava do outro lado da Avenida Radial Leste, na Rua Wandenkolk. Andaram lado a lado, ela de vez em quando pegava em seu braço, falando de amenidades e coisas da escola. Quando chegaram na porta do prédio se despediram e, antes que ele se virasse, ela o beijou levemente nos lábios. Virou-se e correu rapidamente para dentro.

Anacleto nunca soube como chegou em casa, ou melhor, tinha certeza que chegou em casa flutuando, deitado em nuvens de algodão branquinhas e fofinhas. Lembrava vagamente de buzinadas, freadas e xingamentos durante algumas partes do percurso, mas sentia que não eram para ele. Eram rotinas terrenas distantes, coisas minúsculas e insignificantes, incapazes de atingi-lo. Seja como for, chegou em casa sem um arranhão e nem mesmo a porta de entrada que tentou atravessar sem abrir o incomodou ou foi suficiente para fazê-lo despertar do sonho. Sua mãe, acostumada com os devaneios malucos do filho, nem deu muita atenção, concentrada que estava preparando o jantar, mas o pai, esse não deixou passar despercebido o olhar abobalhado do garoto, vez que ele mesmo já havia experimentado esse sentimento de abestalhamento na juventude. Seu filho podia estar apaixonado e isso só poderia ser uma boa notícia. Não comentou nada, respeitou o espaço do menino e o deixou sonhando acordado em seu quarto, deitado na cama e olhando fixamente para o teto, vendo um futuro cor de rosa real e verdadeiro como promessa de político em campanha.

No dia seguinte Anacleto saiu de casa sem tomar o café, enquanto seus pais ainda dormiam. Foi o primeiro a chegar na escola, com os portões ainda fechados. Esperou pacientemente o dia preguiçoso assumir seus afazeres, desde as primeiras luzes do Sol quebrando a madrugada escura. Viu o leiteiro, o jornaleiro e todos trabalhadores madrugadores iniciarem suas lidas. O caseiro da escola abriu a porta e deu de cara com ele, mas não permitiu sua entrada. Chegaram as primeiras serventes e faxineiras, professores e diretores. Os alunos foram despencando às dúzias, os menores acompanhados de suas mães ou pais. A algazarra aumentava cada vez mais, mas nada de Eva. Ele começou a ficar ansioso, postado diante do portão e conferindo um a um para ter certeza que a veria. Pouco a pouco todos foram entrando, a gritaria foi silenciando, até que só restou ele e um silêncio fúnebre do lado de fora do colégio.

Mais tarde naquele dia, Anacleto soube, através de amigas das amigas de Eva, que ela havia partido com seus pais para uma nova vida em Fortaleza, no distante Ceará. Soube também que o motivo das brigas entre seus pais era ela, que não queria ir embora e deixar a escola para trás; que a mãe compreendia o sentimento da filha e por isso optava por ficar também, a ponto de discutir com o marido que era irredutível quanto a aceitar o novo emprego numa nova cidade. Era tão conflituosa a situação que estavam a ponto de se separar. Alguém muito próximo da família disse ainda que ontem havia acontecido um milagre. Ao voltar para casa, Eva estava alegre e radiante, dizendo que havia mudado de ideia e não via a hora de conhecer a nova casa, da nova cidade. Ninguém, nem ela mesma, conseguia explicar o que havia acontecido. Ele ouvia tudo como alguém que não escuta, vendo tudo como quem não enxerga, atento somente ao ribombar do vazio do seu coração.

CaMaSa