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17/04/21
CaMaSa

Anacleto e o Purgatório

Numa palavra, Anacleto era suicida. Isso não se podia negar. Era, no entanto, um suicida bem peculiar, porque temia a dor tanto quanto desejava a morte. Injeção, nem pensar, gritava como um bezerro só de ouvir falar. Tomar vacina era um desespero, necessário 4 ou 5 pessoas para segurar. Cortes, com faca ou machado, qualquer instrumento cortante, estava fora de cogitação. Certa vez desmaiou ao ver o sangue de um corte em seu dedo, feito por uma folha de papel. Despencar das alturas não era possível, tinha vertigem! E medo também, não de morrer, mas da queda. Imaginava seu corpo batendo com força na superfície dura e áspera, os ossos partindo, mas continuando vivo, cheio de dores. Um atropelamento, frente a um ônibus ou trem, teria o mesmo efeito. Enfim, ele queria o salto mas não o tombo. 

Ana e Cleto, seus pais, viviam atormentados pela possibilidade que ele encontrasse alguma forma de realizar seu objetivo. Acompanhavam seus passos, sempre vigilantes, na esperança de se antecipar a algum movimento mais perigoso. Ele havia terminado o ginásio, iria para o colegial, novas tensões pairavam no horizonte e ele era extremamente sensível. Quando aquela coleguinha da escola mudou-se para longe foi um verdadeiro drama. Foram dias de jejum, nem pão nem água, que só eram interrompidos quando ele se dava conta que na verdade estava se fortalecendo física, mental e espiritualmente. Não que ele tivesse uma noção clara disso, já que seus pais não o forçavam a seguir uma ou outra religião, dando apenas noções básicas. Isso porque, como todos sabiam o caso de Anacleto desde que nasceu, viviam surgindo pessoas oferecendo serviços e soluções espirituais para curá-lo. Havia mais religiões no mundo do que se podia imaginar, cada uma com seu deus próprio, mais ou menos poderoso que os demais.

Ana não fechava as portas para nenhuma esperança, tinha um enorme coração de mãe batendo dentro do peito e acreditava um pouco em cada sugestão. Cleto já era mais cético, prático. Separava os bem-intencionados dos aproveitadores e mantinha estes últimos a uma boa distância. Uma das vizinhas, a Dona Tinha, vivia convidando-os para seu culto, onde ela tocava violão para os louvores. Dizia ela que o pastor era muito franco e poderoso, tendo dado inúmeras provas do seu poder sobre as forças do Mal expulsando, dos necessitados, demônios pavorosos que batiam em retirada para nunca mais molestarem aquelas pessoas. 

– Só vendo para acreditar! 

Os dois, descrentes em princípio, pouco a pouco foram avaliando a possibilidade de uma tentativa, em parte pela insistência de Dona Tinha, em parte pelo comportamento de Anacleto que ultimamente andava um pouco mais estranho, acima do normal. Na verdade estava bem acima do normal. Ele se trancava no quarto por horas e horas, pouco conversava e comia o mínimo necessário. O pouco que vinha comendo era chocolate em pó. Ana, percebendo o interesse alimentar do filho, comprava vários pacotes do Chocolate do Padre e ficava feliz ao ver que o pó de cacau acabava rapidamente. 

Anacleto fazia pouco uso nutritivo do chocolate. Ele estava naquela idade em que os hormônios e desejos estão incontroláveis e urgentes, o corpo vibra e pulsa em lugares inusitados e secretos. É preciso espaço e solidão, coisa que as mães não entendem. Some-se a isso as características pessoais pouco comuns dele, para resultados bem mais estranhos. Anacleto estava mergulhado até o pescoço na Alquimia, buscando e pesquisando sem parar métodos milenares para criação de poções venenosas que não causavam dor nem sofrimento. Chegara à conclusão que o cacau, usado nas cerimônias Incas e Astecas, das regiões mesoamericanas, tinha um papel muito importante para suavizar o sabor dos venenos. Usava nos testes quantidades volumosas do pó, ora com líquidos, ora com outros pós, entre os quais diversos comprimidos comuns macerados num pequeno pilão de pedra. A maioria desses comprimidos eram comprados para uma tia quase centenária do seu pai que sofria de uma terrível prisão de ventre há anos.

Diante do comportamento cada vez mais estranho do filho, Ana e Cleto resolveram aceitar o convite da vizinha Tinha para conhecer o pastor milagroso e seu culto. Ana pensou que não seria simpático chegar de mão abanando e resolveu preparar algum docinho para levar. Decidiu preparar brigadeiros e abriu as latas de leite condensado para misturar ao chocolate. Quando abriu o armário da despensa, viu-se sem nada do cacau. Pensou em comprar, mas não daria tempo, e lembrou do filho. Quem sabe ele teria algum? Anacleto havia saído com o pai para cortar o cabelo e chegar com boa aparência no culto. Ana entrou no quarto e ficou muito feliz quando viu dois potes enormes de vidro com pó de chocolate sobre a escrivaninha. Foi para a cozinha com os potes e preparou caprichosamente os brigadeiros. Quando Cleto tocou a buzina do carro, ela saiu com duas bandejas de doces, com pelo menos uma centena cada.

Chegaram ao local uns 15 minutos antes da hora marcada e foram recebidos com entusiasmo por Dona Tinha. Mais entusiasmado ficou o pastor quando viu as bandejas de brigadeiros. O sujeito, roliço e atarracado, serviu-se logo de 3, 4 bolotas, apresentando-se com a boca cheia da massa marrom escura. 

– Vocês vieram no lugar certo. Vamos dar um jeito nas maluquices desse garoto!

Anacleto baixou os olhos, sem graça, e sentiu no ar o desconforto dos pais. Pensou em sair correndo, mas uma força maior mantinha seus pés no chão, como se estivessem presos a uma bacia de concreto. Ana tentou incentivar pai e filho, mas o mal já estava irremediavelmente feito, ao menos para Anacleto. Cleto, por sua vez, havia colocado o homem no lado ruim da sua lista, mas por amor à mulher e ao seu filho, seguiu resignado para o assento reservado para eles. Calculou que havia umas 70 a 80 pessoas no recinto, e que Ana devia estar contente por ter feito uma quantidade suficiente de brigadeiros. Os doces foram colocados junto a outros petiscos e bebidas, bem na porta de entrada. Provavelmente eram para o final do encontro, mas o perfume dos brigadeiros era tão inebriante que terminaram antes do início da cerimônia. 

O início foi bem curto. Tocaram um hino introdutório, Dona Tinha com violão em punho, e rapidamente o pastor tomou a palavra e o microfone. Pôs-se a falar uma cantilena interminável de qualidades que ele possuía, muitas vezes comparadas às da Bíblia. Recitou todos os tipos de pecados e punições que existiam e como ele se mantinha distante do mal, vivendo uma vida casta e irretocável. Disse que por conta disso era capaz de expulsar satanás daqueles que ofendiam a Deus, de quem era muito amigo. Que os custos da manutenção desses serviços era muito alto e por isso os valorosos auxiliares corriam as sacolas de arrecadação. E, que para provar que tudo que falava era verdade, hoje expulsaria o inimigo do corpo de um jovem ali presente.

Num movimento sincronizado e rápido, dois brutamontes pegaram Anacleto pelos braços e, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, estava diante do pastor. O homem olhou para ele e gritou:

– Meu Deussssssssss…

O “S” saiu bem fininho, como gaz escapando de um furinho minúsculo do botijão. Seus olhos ficaram completamente esbugalhados, sem entender o que estava acontecendo. Pela primeira vez ele sentia que era possível tirar o diabo do corpo, mas desta vez era do corpo dele. Cada bolota de brigadeiro descia pela garganta até o estômago como ferro em brasa cortando manteiga. Quando chegava lá embaixo não tinha remédio, nem Deus segurava. O pior é que se corresse o bicho pegava, deixando atrás de si um rastro de gaz pastoso e, se ficasse, tinha que ser imóvel, concentrando todos os esforços na travação do anel e fazendo cara de quem está entrando no céu pelas portas dos fundos do purgatório. O local virou uma Pompeia moderna, com as pessoas petrificadas em suas posições. Todos, sem exceção, acometidos pela mais implacável dor de barriga. O local tinha três banheiros masculinos e três femininos. Três mulheres e três homens abençoados realizaram em vida o significado de “conhecer o céu na Terra”, sentados em seus tronos de louça branca. Dona Tinha foi uma das que tentou correr, mas acabou enchendo o violão. Era questão de tempo para que todos se aliviassem ali mesmo, expulsando pra valer todo mal que possuíam.

Ana, Cleto e Anacleto, que não haviam provado do brigadeiro por educação, chegaram à conclusão que aquele culto era realmente muito esquisito e deixaram o local, empesteado e malcheiroso, com um bruta má impressão. Ficaram sabendo depois, que levaram uma semana para limpar o local e que, nas investigações sobre o caso, descobriram que o pastor e seus asseclas eram na verdade um bando de facínoras procurados por todo país. Mas desta vez ninguém conseguiu relacionar Anacleto ao caso.

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