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Se Você

Se Você

 

Se você não está em paz

respeite os que lutam por ela

 

Se você não sente o amor

respeite os que cantam por ele

 

Se você não agradece a vida

respeite os que entendem a morte 

 

Se você não aceita a derrota 

respeite os que partilham a vitória 

 

Se você não enxerga a luz 

respeite os que acendem a vela

 

Se você não ouve a melodia 

respeite os que dançam de alegria

 

Se você não conhece a si mesmo

respeite os que mergulham dentro

CaMaSa

O Sol do Interior

O Sol quebrava forte na roça, encharcando a terra de suor e trabalho, deixando-a mais roxa. A lida tinha início muito antes da noite terminar e só tinha fim quando o negrume do céu imperava. Ele era o oitavo filho dos catorze que a mãe trouxera ao mundo, por enquanto. Viviam amontoados no barraco de madeira, entre pais e filhos, em média dez pessoas, porque os mais velhos caíam no mundo e eram substituídos pelos que nasciam. Não havia dor na partida nem alegria no nascimento. Eram fatos comuns, como o Sol escondendo a Lua e as estrelas ou o feijão brotando do chão. Chamava-se Oitávio, era mais novo que o irmão Sétimo e mais velho que a irmã Nonia e começou a cavar o sustento aos cinco anos de idade. Da vida só conhecia o que as orelhas escutavam e os olhos enxergavam.

Ninguém saberia dizer há quanto tempo a família vivia naquelas bandas, provavelmente seus antepassados chegaram com os primeiros navios negreiros e foram adquiridos pelos grandes fazendeiros da região noroeste do Paraná. Quando os ares da libertação chegaram à região, alguns ex-escravos permaneceram por ali e herdaram, pelo uso contínuo e abandono dos proprietários, pequenos pedaços de terra onde plantavam a subsistência. Permaneceram isolados do mundo até a fundação do município de Santa Isabel do Ivaí, que teve sua fundação devida, sobretudo, aos diversos fluxos demográficos provenientes do Ciclo Cafeeiro do início do século XX no Estado do Paraná.

Entre 1948 e 1950, um grupo de desbravadores resolveu constituir uma companhia territorial com a finalidade de lotear e povoar a ‘Gleba 19’ da então ‘Colônia de Paranavaí’, justamente aproveitando o fluxo migratório provocado pela recente fundação desta. A empresa recebeu a denominação de “Companhia Imobiliária e Colonizadora Santa Isabel do Ivaí” por intermédio de um de seus gerentes ‘Alberico Marques Ferreira’, pois sua mãe se chamava Isabel e havia falecido naquele ano. O loteamento seguiu um plano técnico previamente traçado, iniciando-se com a venda das datas, acarretando no território um grande fluxo de migrantes tanto no perímetro urbano como na zona rural. Criado através da ‘Lei Estadual n° 253 de 26 de novembro de 1954’, o município foi instalado em 22 de novembro de 1955, desmembrado-se então de Paranavaí.

Alheio à história da nova cidade, Oitávio seguia a rotina familiar de sobrevivência nas zonas rurais apartadas do mundo urbano, arando, plantando e cultivando com as mãos cada vez mais calejadas o feijão, o milho e as raízes que o estômago pudesse digerir. Não tinha contato com ninguém além dos pais e irmãos, vivendo por conta dos parcos recursos, um severo código disciplinar de obediência. Uma das poucas diversões era a caça de passarinhos. Fazer armadilhas nas horas vagas, com varas de bambu atadas com fibras vegetais para pegar algum tiziu, era seu passatempo predileto. A mãe ralhava com ele, prevendo perigo.

Certa vez, não dando ouvidos à mãe, embrenhou-se no mato alto para caçar. Armou a arapuca no pé de uma árvore baixa e trepou num galho para aguardar uma presa. O dia ainda estava a uma hora de distância e logo a excitação transformou-se em cansaço. Cochilou por um breve instante, o suficiente para pender de lado e despencar de cima do galho. Caiu de cara na própria armadilha, rasgando a bochecha direita numa lasca de bambu. O corte largo abriu uma segunda boca ao lado da sua, jorrando sangue como das galinhas que sua mãe abatia com um golpe certeiro no pescoço. Correu para os pais, chorando e gritando apavorado, certo de que ia morrer. O pai o pegou no colo com um lençol enrolado na cabeça da criança e correu em disparada com o velho pangaré e o filho a tiracolo na direção do posto de saúde da cidade recém-criada.

Era a primeira vez que ele deixava sua casa e via outras construções, outras pessoas. Não foi a melhor maneira de conhecer outros seres humanos. Chorando e gemendo, assustado e envergonhado, submeteu-se aos procedimentos de urgência que os atendentes aplicavam com todas as dificuldades que os recursos mínimos do local criavam. Desinfetaram o local e costuraram o rasgo de 14 pontos da melhor forma possível, deixando uma cicatriz bem evidente e uma lição inesquecível. Na volta para casa, sob efeito dos anestésicos, pôde observar a cidade com suas casas e armazéns, praças e jardins bem cuidados. A topografia plana mostrava a construção mais alta do lugar, uma igreja e sua torre com não mais de quatro andares de altura, encimada por uma cruz. Chegou em casa temeroso da sova da mãe mas foi recebido por um abraço carinhoso. No dia seguinte retomou a rotina de trabalho, mas agora, sempre que podia, fugia para a cidade em busca de amizade e aprendizado, seguindo assim até os 17 anos, quando seu irmão mais velho, Segundio voltou para casa.

Era a primeira vez que um dos irmãos voltava para ver a família e este voltou falante e cheio de novidades. Trouxe lembranças simples para todos e até uma pequena quantidade de dinheiro para os pais. Contou que havia conhecido muitos lugares e estava estabelecido numa região próspera e montanhosa em São Paulo, nas proximidades de Minas Gerais. Deixou todos muito encantados, mas especialmente Oitávio, quando disse que lá se podia trabalhar debaixo da sombra servindo comida para as pessoas! 

Oitávio pediu permissão para os pais, despediu-se de todos e seguiu viagem com o irmão em direção a esse local encantado que tinha muitas possibilidades e um negócio chamado Hotel, que ele não fazia a menor ideia do que seria. Chegaram numa região aprazível e fresca, com muita água, de altos e baixos, muito diferente do perfil plano e achatado de sua terra natal. O tal Hotel era um prédio alto de 10 andares, cercado por várias construções incríveis e lagos de água azul, sem peixes, onde pessoas seminuas nadavam alegremente. Seu irmão o apresentou a diversos colegas e ao chefe, que o contratou como aprendiz, lavando pratos e panelas que vinham do imenso e movimentado restaurante. Aos poucos entendeu o funcionamento de tudo e passou a trabalhar como garçom, servindo comida e bebidas aos hóspedes, na sombra!

Conheceu muitas pessoas que vinham de todas as regiões do Brasil e do mundo, aprendendo sempre com cada um deles. Certa vez o escalaram para atender um cliente especial, que nunca fazia as refeições fora do quarto. Levou os pratos especialmente preparados sem carne e água mineral ao número da habitação indicada, tocou a campainha e aguardou. A porta foi aberta por um homem de estatura baixa, forte, de pele morena e traços orientais, lembrando um japonês. Soube depois que era da Índia, distante e místico país do outro lado do mundo. O hóspede, no entanto, falava inglês e Oitávio, com o que havia aprendido nos últimos anos atendendo estrangeiros, conseguiu comunicar-se com ele que, aliás, falava em letras de forma. Sentiu-se tão à vontade na presença de pessoa tão singular que não percebeu que já estava no quarto a mais tempo que devia. Isso não pareceu perturbar o hóspede que aparentemente estava lisonjeado com a situação e, para confirmar essa impressão, convidou-o para ver um quadro que estava pintando numa tela sobre um cavalete de madeira. Ele ficou surpreso com a beleza dos traços e cores do que parecia ser uma flor branca flutuando num fundo azulado.

De repente percebeu que sua hora já havia dado e despediu-se reverente, tocando a mão do outro com respeito e delicadeza. Comentou com os colegas sobre o homem que conhecera, mas ninguém o tinha visto ainda. Perguntando aos demais hóspedes, soube que ele faria uma palestra na cidade, em outro hotel, nessa mesma noite. Informaram também que o acesso era gratuito, que haveria tradução para o português, bastando somente se apresentar no local com antecedência para retirar os fones de ouvido. Curioso, pediu a um colega que o substituísse à noite, e seguiu para o local do evento de banho tomado e coração aberto.

No enorme salão, quase mil pessoas, a grande maioria hóspedes atendidos por ele no hotel, acomodavam-se nas cadeiras num rumor de expectativa agradável. Quando as luzes apagaram fez-se um grande silêncio, quebrado por uma explosão de aplausos quando o palestrante apareceu no palco. Humildemente ele pediu a todos que se sentassem e começou a falar de uma maneira incrivelmente simples sobre coisas complexas como a Vida, a Paz e o Autoconhecimento. Era tão claro que Oitávio tinha a impressão que nem precisaria usar o equipamento de tradução! Nas pausas de suas falas, o silêncio era total, numa atitude de muito respeito e admiração da plateia. Ao final, o orador despediu-se alegremente, deixando a todos com o coração leve e repleto de esperança.

O evento deixou Oitávio com um profundo sentimento de compreensão, uma luz solar interior a qual ele jamais tentou explicar para alguém ou para si mesmo. Entendeu a mensagem, aceitou o presente e guardou-o no coração como um tesouro muito valioso e único, só seu, mas que é expresso no tratamento que dispensa aos hóspedes, sempre amável e gentil.

CaMaSa

Viagem

Viagem

 

Nesta viagem sou passageiro

nela não dirijo, sou conduzido 

visto uma roupagem sofisticada

de carne e osso, sangue e pele.

 

Esta viagem inicia na eternidade 

juntando células de maternidade 

rasgando o véu da materialidade 

com muita fé e força de vontade.

 

Nesta viagem uso cada sentido

ouço vejo cheiro lambo até sinto

sons cores aromas sabores dores

raiva culpa paixão ódio e amores.

 

Esta viagem tem esse software 

seguramente instalado na cabeça

gerenciando até o fim o hardware

até que só o coração permaneça.

CaMaSa

Confiar & Agradecer

Confiar & Agradecer

 

Confiar é nascimento início projeto

sonhos imaginários de ouro e prata

ou somente a fé de ter abrigo e teto

 

Agradecer é fim conclusão resultado

além do bem e do mal das escolhas

seja qual for o fato está consumado

 

Confiar é inalar esperar e inspiração

semente e raiz caule galhos e folhas

no rumo do céu desde o pó do chão

 

Agradecer é exalar afirmar expiração

a certeza do imutável e do eterno fim

saber que esta passagem é só ilusão

CaMaSa

Século

Ele acordou com o som do despertador do celular indicando as 7h31m do dia 27 de abril de 2058. Há décadas se propusera esse horário para pular da cama, mas geralmente acordava antes. Não nesse dia. Foi o beep-beep intermitente do aparelho eletrônico que o tirou do mundo dos sonhos. Completava 100 anos de idade, um século! Mesmo então, era privilégio para poucos. Havia aqueles que possuíam uma constituição naturalmente resistente para suportar a passagem do tempo, e havia os que eram mantidos pela biotecnologia disponível a um custo muito alto. Esse era seu caso. Fisicamente saudável à beira da perfeição, vinha perdendo aceleradamente nos últimos tempos, no entanto, a ferramenta mais importante de todas: a memória.

Ainda morava na cobertura do seu prédio de 52 andares da Avenida Paulista. De lá, tinha uma vista panorâmica de 360º de toda São Paulo, a capital do seu império particular que se estendia para além dos limites da cidade, do país e do mundo. Nas duas últimas décadas porém, tudo isso tinha perdido a pujança, mostrando sinais de decadência por toda parte. O edifício, antes servido por um conjunto de 12 elevadores super-rápidos, agora tinha somente o seu, particular, atendendo sua moradia. Nenhum dos andares estava ocupado por escritórios de representação das empresas multinacionais mais poderosas do mundo, mas por viciados e sem-teto marginalizados pela sociedade. Tudo era decrépito, com paredes descascadas e sujas, lixo acumulado por todo lugar e um malcheiroso odor que somente os seres humanos são capazes de produzir. Não havia água nem eletricidade no prédio todo, exceto para sua cobertura que se mantinha limpa e conservada graças aos seus últimos serviçais.

Eram decorridos pelo menos 12 anos desde que havia recebido sua última visita social. A partir de então, não mais recebeu ninguém nem saiu de casa, tendo uma relação com seus multibilionários interesses no mundo, de forma totalmente virtual. Quando percebeu que a memória começou a dar as primeiras falhadas, consultou os maiores especialistas e instituições, recebendo de todos o mesmo diagnóstico: a perda era irreversível e era uma questão de tempo para se dar a amnésia total. Ele compreendeu que seria uma baleia ferida no mundo das transações bilionárias no oceano financeiro infestado de tubarões, ávidos por sangue. Tratou de concentrar toda sua riqueza em fundos de investimento suíços, absolutamente seguros, confiáveis e de total liquidez, caso necessário. Retirou de circulação da economia mundial o equivalente a 12% dos ativos, da noite para o dia, provocando crises catastróficas até nos países mais ricos e estruturados economicamente, gerando falências em massa e hordas numericamente inimagináveis de gente faminta. A decadência que o cercava era consequência direta disso.

A data de hoje, no entanto, era especial. Tinha planejado com antecedência e dado ordens específicas ao mordomo que organizou tudo com perfeição. Os monitores dos computadores reluziam o número cem, havia cartazes espalhados por todo apartamento estampando o aviso de aniversário de 100 anos, de todos os tamanhos e cores, para recordá-lo da importância desse momento e dos compromissos e promessas que havia feito a si mesmo para realizar nesse dia. Tomou um café da manhã frugal preparado pela equipe de cozinheiros e, logo após, sentou-se diante do seu computador pessoal, que já o aguardava ligado com a tela de login esperando por sua senha. Refletiu por alguns instantes sem saber o que fazer e, antes que entrasse em desespero, seu secretário particular surgiu ao seu lado e pegou sua mão direita, numa espécie de cumprimento formal. Na junção de seus indicadores surgiu uma sequência de caracteres tatuados formando a palavra-passe para iniciar o aparelho. Nele encontrou instruções para o “Aniversário de 100 anos”, com orientações para imprimir o documento chamado “Liberdade” e o endereço do colégio Firmino de Proença, na Rua da Mooca.

Ele trocou o pijama por um terno de bom caimento e demorou alguns minutos para escolher uma das milhares de gravatas à disposição. Não tinha mais o vigor mental, mas sua aparência física era de alguém na casa dos 50 anos de idade. Assustou a criadagem quando se encaminhou para o elevador e os deteve com um enérgico gesto de mão. Ficaram boquiabertos quando a porta se abriu e ele apertou o botão do térreo, descendo impassível para o mundo completamente mudado que o aguardava lá embaixo. Chegou ao lobby e não prestou atenção ao estado lastimável em que este se encontrava, indo direto para a calçada. Chamou um táxi e rumou para seu objetivo.

Chegou ao número 363 da Rua da Mooca e imediatamente as lembranças invadiram seu cérebro. Deu-se conta que muito havia mudado mas a essência estava lá. O ano letivo estava em andamento mas felizmente era sábado e a reunião com o diretor do colégio tinha sido agendada previamente. Uma jovem e bonita assistente veio ao portão para recebê-lo. Ele perguntou se podia dar uma volta pelo colégio antes da reunião e ela respondeu que ficasse completamente à vontade, deixando-o sozinho. Estava na entrada principal e lembrou das fotos coletivas, quando a professora organizava a classe inteira na grande escadaria, dispondo os alunos uniformizados nos degraus da escada, uns ao lado dos outros. Lembrou-se da foto do segundo ano primário em que, para estragar a imagem, escondeu-se atrás de um dos colegas no exato momento em que o fotógrafo disparou a máquina. De toda classe, ele era o único aparecendo na foto com um olho, meio nariz e meia boca.

Caminhou pelos corredores até chegar ao portão interno que dava para o pátio. Recordou das manhãs nas quais todos os alunos do colégio cantavam perfilados o Hino Nacional. Refletiu que a disciplina da época nunca permitiu que ao final os alunos explodissem em palmas e gritos. Estes eram permitidos durante os recreios, onde grupinhos de várias idades formavam-se para trocar ideias e combinar atividades extracurriculares. Nas salas de aula aprendia-se português, matemática, história, geografia, biologia, química, física, artes, desenho, música, inglês, francês, filosofia e moral e cívica. Nas quadras externas, professores de educação física estimulavam as atividades esportivas. Tudo gratuito, num colégio estadual! 

Chegou à biblioteca que lhe pareceu tão pequena agora. O quadro com a representação gráfica da fauna e flora brasileiras ainda estava no mesmo lugar, logo à esquerda da entrada, desbotado pelo tempo. Dele saíram vários apelidos: Tucano, Jiboia, Rato, Gazela… Lembrou-se de um livro sobre psiquiatria que o impressionara muito. Era um estudo de caso, todo documentado e fotografado, contando a história real de uma moça que dava entrada numa instituição e, após uma longa e penosa série de tratamentos variados, saia de lá com algum documento comprovando sua cura, mas com os olhos sem brilho e sem vida, como de alguém que tivesse perdido a alma.

Quando se aproximou da sala da diretoria, notou a porta entreaberta e entrou sem avisar. O diretor e sua assistente surpreenderam-se com a intromissão, quase pegos no flagrante amoroso. Ele preferiu ignorar e ir direto ao assunto que lhe trazia ao colégio. Tirou do bolso do paletó um pequeno envelope pardo que continha uma única folha, dobrada duas vezes. Desdobrou-a lentamente mas não expôs o conteúdo ao diretor. Olhou para o casal avaliando se deveria pedir privacidade para a moça. Ela deveria ter pouco mais que vinte anos, contrastando sua juventude com os mais de quarenta do amante. Achou que não faria diferença alguma, já que o diretor tinha no dedo anelar da mão esquerda somente a marca de pele mais clara da aliança.

Contou rapidamente como havia conquistado sua imensa fortuna, à custa de muito esforço e influência. Estivera sempre à sombra do poder, mas era peça pivotante da política do país. Expandiu-se por todo o mundo sem que não mais do que meia dúzia de pessoas soubessem quem ele realmente era. Fora causador do crack de 2046, apenas retirando de circulação sua fortuna pessoal. Olhou para o documento em suas mãos e explicou que aquilo transferia de modo irreversível todo aquele incrivelmente absurdo montante de dinheiro para o seu portador. E ele havia decidido que tal pessoa seria o dirigente da escola em que ele havia estudado os cursos elementares de sua formação. Perdeu o fio do pensamento por alguns instantes e quando retomou teve que se esforçar para entender onde estava. Quando recobrou a consciência explicou ao diretor que tais recursos deveriam ser aplicados integralmente na reestruturação do colégio, assim como na ampliação do mesmo e na expansão do benefício a todo o sistema educacional brasileiro.

Terminada a explanação, assinou o documento, levantou-se e foi embora deixando para trás o casal atônito e sem entender o que havia acontecido, se aquilo era real ou somente o delírio de um louco. Quando chegou na rua já não tinha a mínima noção de onde estava, para onde deveria ir e quem era. Virou à direita, em direção à Praça da Sé, e lá estabeleceu sua residência a céu aberto, sem jamais recuperar a memória.

***

O casal apaixonado desfrutava a garrafa mais cara da carta de vinhos do Le Jules Verne, restaurante de alta gastronomia que fica no 2º andar da Torre Eiffel, em Paris. Ele achou que era a coisa mais romântica que podia oferecer a ela nessa primeira viagem internacional de ambos. Teve tempo de deixar a mulher e os quatro filhos, surpreendentemente ricos de uma hora para outra, com uma conta poupança de 100 milhões de reais. Uma ninharia diante do que possuía agora. Nem a ex-esposa, nem ninguém no Brasil, sabia do paradeiro do ex-diretor do colégio estadual Antônio Firmino de Proença.

CaMaSa