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Anacleto Descobre o Amor

Há um momento único na vida de cada menino, muito sútil e delicado, onde acontece o rito de passagem, a transformação na forma de ser e ver, para muitos imperceptível e irrelevante, mas para os mais sensíveis uma machadada brutal, lâmina grossa e cega, não amolada, bem no meio do peito. Anacleto, distraído com suas questões pós-vida, recebeu o golpe sem nem saber de onde veio. Abatido em pleno vôo, despencou com toda velocidade em direção ao chão duro e áspero da realidade. Quebrou dentes, ralou peles, partiu ossos e pintou de vermelho sangue o asfalto que o recebia. Seu nome era Eva, que significa cheia de vida, e seus caminhos se cruzaram como se cruzam os caminhos de todos: num determinado momento.

Anacleto era uma espécie de celebridade na escola. O salvamento do professor, o caso da falsa terapeuta e outros tantos pequenos casos envolvendo tramas e engenhocas criadas por ele mesmo para tirar a própria vida, faziam dele um assunto recorrente nas rodinhas de alunos e alunas, funcionários e professores. De certa forma quase todos o conheciam e muitos o cumprimentavam sem que ele soubesse quem eram. Então, era muito comum ele reconhecer quase todo mundo, já que todos, vez ou outra, se colocavam diante dele com algum gesto de amizade, uma pergunta despretensiosa ou um elogio. Assim que, quando o momento determinado de Eva e Anacleto ocorreu, não foi tátil, físico, nem mesmo sensorial, como uma troca de olhares. Nada de encontrão com livros e cadernos esparramados pelo chão ou aventais trocados na aula de ciências. Foi muito mais místico, muito mais zen. Foi um pensamento, ou melhor, dois pensamentos!

Ele pensou num lugar tranquilo e isolado para pôr em prática seu mais novo plano suicida. Ela pensou num lugar isolado e tranquilo para chorar suas dores e agonias. Chegaram ao mesmo tempo no galpão abandonado da rua Oscar Horta, abrigo de ratos e pombas, testemunhas do encontro inusitado entre os dois adolescentes. Examinaram-se surpresos, correndo os olhares de cima a baixo, reconhecendo os uniformes da escola um no outro. Ele de calça cinza, camisa branca com o distintivo do colégio bordado no bolso, meias brancas e sapatos pretos. Nela as calças eram trocadas por uma saia encurtada pela dobra do cós. No silêncio constrangido, ambos pensavam em formas de se safar daquela situação. Quando resolveram falar, foi ao mesmo tempo:

– Vim me matar!

Eva era uma menina normal, com a beleza que toda garota de 12 anos tem. Mas Anacleto, ao ouvir o que ela disse, viu diante de si uma deusa juvenil de beleza encantadora. Ele a percebeu loira, com os fios dos cabelos retos e brilhantes na altura dos ombros. O tom era dourado entremeado por mechas castanho claro. Um feixe de luz vazava de um dos muitos furos nas telhas de amianto da cobertura, refletindo sobre seus cabelos e criando uma aura flutuante pontilhada por pontos luminosos de poeira. Os olhos eram verdes, da cor da folha da bananeira, vítreos. O tom da pele aveludada era café com leite, bem clara, levemente avermelhada. Vermelha mesmo era sua boca, foco de atenção dele desde o primeiro segundo. Assim ele a via, não exatamente o que de fato diante de si havia.

Seja pelo inusitado da situação, seja pelo nervosismo e necessidade de descontração, seja porque leve e cheia de sonhos é para os jovens a vida, ambos caíram numa sonora gargalhada e quanto mais riam, mais riam, até que os músculos da barriga começaram a doer de tanto que gargalhavam. Pouco a pouco foram retomando o fôlego, mas a cumplicidade já havia tomado o lugar da desconfiança e a proximidade e intimidade se instalaram naturalmente. Começaram a conversar como se conhecessem há muito, os nomes encaixados no meio da conversa, como quem troca cartões de visita. Suas histórias, curtas até aqui mas borbulhantes de detalhes e vivacidade, eram narradas e absorvidas ansiosamente, ora por ele ora por ela. Eva tinha uma razão simples e objetiva para não mais apreciar a vida, ao contrário de Anacleto cujas razões eram estranhas e complexas, místicas e filosóficas.

Ela sentou ao lado dele e começou a contar sobre sua família e a harmonia que existia entre seu pai, sua mãe, ela e sua irmã mais nova, Ritinha, como eram felizes na rotina familiar e no dia a dia. O pai trabalhava numa loja de departamentos, a Mesbla, aquele prédio enorme de tijolos, do outro lado do rio, na Avenida do Estado. A mãe cuidava da casa e das filhas, preparava o almoço e a janta, fazia bolos e doces perfumosos para o lanche da tarde. Aos fins de semana, o pai sempre inventava um passeio surpresa, um parque, um cinema ou teatro infantil. Em datas especiais pegavam a estrada e iam passar o dia na praia, em Santos ou São Vicente, eventualmente uma aventura mais emocionante indo até a praia das Tartarugas, no Guarujá. Era um tempo simples, de fuscas e peruas kombis, rádio de pilha e televisão em preto e branco. A felicidade chovia aos borbotões e os problemas eram do tamanho do salário. Mas tudo estava por terminar. O pai havia recebido uma promoção que envolvia uma transferência para outro estado, no Nordeste, mas a mãe não queria se mudar. As discussões entre os pais começaram ponderadas e educadas, passaram a ser irritadas e agressivas, desembocando numa torrente de acusações e pedidos de separação.

Anacleto ouviu todo relato pacientemente, sem emitir um pio. Na verdade ficaria ali por dias e dias ouvindo aquela melodia suave e doce que saia daquela boca. Ele não via no relato dela motivo algum para se tirar a própria vida, antes era só um mal estar passageiro, chato mas de fácil solução. Assim que, para parecer adulto e compreensivo, pôs-se a explicar como via a situação, apontando aqui e ali os pontos positivos da situação e as diversas soluções para as partes complicadas. E de tal modo construiu uma narrativa de positividade e otimismo, que ambos sentiram que era real e verdadeira a possibilidade de tudo se acertar e as coisas não só voltarem a ser boas como eram mas muito melhor. E cheios de esperança e um sentimento não identificado no peito, saíram do galpão abandonado em direção à suas casas. Ele disse que ia acompanhá-la até sua casa. Ela morava do outro lado da Avenida Radial Leste, na Rua Wandenkolk. Andaram lado a lado, ela de vez em quando pegava em seu braço, falando de amenidades e coisas da escola. Quando chegaram na porta do prédio se despediram e, antes que ele se virasse, ela o beijou levemente nos lábios. Virou-se e correu rapidamente para dentro.

Anacleto nunca soube como chegou em casa, ou melhor, tinha certeza que chegou em casa flutuando, deitado em nuvens de algodão branquinhas e fofinhas. Lembrava vagamente de buzinadas, freadas e xingamentos durante algumas partes do percurso, mas sentia que não eram para ele. Eram rotinas terrenas distantes, coisas minúsculas e insignificantes, incapazes de atingi-lo. Seja como for, chegou em casa sem um arranhão e nem mesmo a porta de entrada que tentou atravessar sem abrir o incomodou ou foi suficiente para fazê-lo despertar do sonho. Sua mãe, acostumada com os devaneios malucos do filho, nem deu muita atenção, concentrada que estava preparando o jantar, mas o pai, esse não deixou passar despercebido o olhar abobalhado do garoto, vez que ele mesmo já havia experimentado esse sentimento de abestalhamento na juventude. Seu filho podia estar apaixonado e isso só poderia ser uma boa notícia. Não comentou nada, respeitou o espaço do menino e o deixou sonhando acordado em seu quarto, deitado na cama e olhando fixamente para o teto, vendo um futuro cor de rosa real e verdadeiro como promessa de político em campanha.

No dia seguinte Anacleto saiu de casa sem tomar o café, enquanto seus pais ainda dormiam. Foi o primeiro a chegar na escola, com os portões ainda fechados. Esperou pacientemente o dia preguiçoso assumir seus afazeres, desde as primeiras luzes do Sol quebrando a madrugada escura. Viu o leiteiro, o jornaleiro e todos trabalhadores madrugadores iniciarem suas lidas. O caseiro da escola abriu a porta e deu de cara com ele, mas não permitiu sua entrada. Chegaram as primeiras serventes e faxineiras, professores e diretores. Os alunos foram despencando às dúzias, os menores acompanhados de suas mães ou pais. A algazarra aumentava cada vez mais, mas nada de Eva. Ele começou a ficar ansioso, postado diante do portão e conferindo um a um para ter certeza que a veria. Pouco a pouco todos foram entrando, a gritaria foi silenciando, até que só restou ele e um silêncio fúnebre do lado de fora do colégio.

Mais tarde naquele dia, Anacleto soube, através de amigas das amigas de Eva, que ela havia partido com seus pais para uma nova vida em Fortaleza, no distante Ceará. Soube também que o motivo das brigas entre seus pais era ela, que não queria ir embora e deixar a escola para trás; que a mãe compreendia o sentimento da filha e por isso optava por ficar também, a ponto de discutir com o marido que era irredutível quanto a aceitar o novo emprego numa nova cidade. Era tão conflituosa a situação que estavam a ponto de se separar. Alguém muito próximo da família disse ainda que ontem havia acontecido um milagre. Ao voltar para casa, Eva estava alegre e radiante, dizendo que havia mudado de ideia e não via a hora de conhecer a nova casa, da nova cidade. Ninguém, nem ela mesma, conseguia explicar o que havia acontecido. Ele ouvia tudo como alguém que não escuta, vendo tudo como quem não enxerga, atento somente ao ribombar do vazio do seu coração.

CaMaSa

Anacleto e a Terapeuta

Anacleto não era uma criança normal, todos já haviam percebido. Seus interesses eram, digamos, sutilmente tortos e arriscados. Os pais que já são naturalmente preocupados com a segurança dos filhos, no caso dele eram alucinadamente aflitos e viviam angustiados. Verdade seja dita, fora essa tendência autocida, o menino era um doce, tranquilo e sossegado, estudioso e responsável, com notas muito acima da média. Se relacionava bem também com os colegas de escola e professores, ainda que invariavelmente os temas de suas conversas versavam sobre a morte em algum momento. Para ele a morte não tinha a conotação fúnebre e dolorosa que os mais adultos tinham, ele era uma criança caminhando para seus 10 anos de idade. Era muito mais uma aguçada curiosidade mórbida resultado de experiências sensoriais e emocionais vividas no período gestacional e do parto. Ou tinha um parafuso solto mesmo!

Pelo sim pelo não, a escola aconselhou Ana e Cleto a procurarem acompanhamento psicológico. Indicaram a Dra. Marta Gouveia, renomada profissional com mestrado na Stanford University (Estados Unidos), número 1 do ranking em psicologia, é considerada pela THE a 4ª melhor universidade do mundo. Localizada no coração do Vale do Silício, na Califórnia, a universidade tem um dos maiores campus dos Estados Unidos, com 18 institutos de pesquisa e 7 faculdades, onde estudam mais de 16 mil estudantes vindos dos 50 estados americanos e de mais de 90 países. Com a ajuda do colégio e uma vaquinha dos vizinhos, conseguiram marcar uma consulta para dentro de dois meses, numa tarde de quarta-feira, às 15hs. Os pais passaram essas oito semanas num misto de esperança e agonia que, pouco a pouco, foi se transformando em choro e ranger de dentes de tanta expectativa e ansiedade.

Na data marcada, os dois acordaram às 4 horas da manhã, apesar de terem ido dormir às 2 horas! Temiam a reação de Anacleto, temiam o veredito da terapeuta. Temiam o dia, temiam a noite. Temiam Deus e o Diabo. Ter um filho como o deles era padecer no inferno mesmo. Quanto maior era o amor por ele, maior era a preocupação que ele se fizesse algum mal. Chegaram ao consultório 50 minutos antes da hora marcada e foram atendidos 2 horas depois. Sentaram-se Ana e o menino, Cleto postou-se atrás dos dois, ofegante. A psicóloga, imponente, rodeada de diplomas, pôs-se a enumerar seus inúmeros cursos e mestrados, teses e livros lançados em diversos idiomas. Falou sobre a origem da psicanálise, Freud, Jung e outros tantos doutores dos meandros mentais, essa parte fundamental para compreensão humana. Cleto já não mais ofegava, adormecia em pé, embalado pela verborragia sem fim da mulher à sua frente. Ana virava-se para trás e discretamente cutucava o marido para que acordasse. Já o menino ouvia tudo atentamente interessado, quase sem piscar, quase sem respirar.

De repente, cessou o blá-blá-blá. A Doutora pediu que os pais se retirassem, pois teria que conversar a sós com o menino. Somente assim ela poderia exercer todo seu conhecimento e perícia para elucidar as razões primeiras que levavam essa criança tão bonita e dócil pensar em atos contra a própria vida. Saíram da sala entre aliviados e esperançosos, sendo recepcionados por uma funcionária ágil e eficiente na elaboração do recibo de pagamento. Cleto tirou sem jeito as notas amarfanhadas coletadas entre os parentes e amigos, espalhando tudo sobre o balcão de vidro limpíssimo, vendo a moça recolher tudo numa expressão de nojo e desaprovação. Certamente ela estava acostumada aos cheques bem preenchidos e perfumados dos clientes endinheirados que por ali passavam para desfilar suas insatisfações pessoais que só o luxo e a riqueza são capazes de proporcionar. Sentaram-se e esperaram e esperaram… Ana não se movia e tentava acalmar o marido que levantava e sentava sem parar. E esperaram… Muito! Até ela já estava agoniada. Que será que está acontecendo, meu Deus? Perguntaram para a recepcionista quando essa pegou suas coisas e saia para a porta sem nem mesmo se despedir:

– Moça, é normal ficar tanto tempo assim com alguém?

– Olha, respondeu emburrada, eu já vi de tudo aqui. Por isso quando dá meu horário pego minhas coisas e vou embora.

O obrigado de Ana morreu na garganta porque a moça bateu a porta atrás de si antes mesmo que ela falasse. Sentaram-se novamente e esperaram e esperaram. Cleto roncava como uma motocicleta quando Ana o chamou:

– Cleto, eu vou entrar lá.

Ele levou alguns instantes até entender que não estava sonhando com uma plantação de tomates que gerava morangos, e dirigiu-se com a esposa para a porta onde estava seu filho. Nem bateram, giraram a maçaneta dourada polida e invadiram o recinto. Surpresos, viram Anacleto sentando na cadeira da terapeuta, brincado de girar alegremente, com os pés suspensos no ar! Procuram por todo canto, no banheiro, nos armários, embaixo da escrivaninha, nem sinal da doutora. Notaram a janela aberta e uma leve brisa balançando a cortina de voal imaculadamente branco. Entreolharam-se preocupados, gelados e petrificados, e perguntaram ao filho o que tinha acontecido?

Anacleto disse que estavam conversando animadamente, a tia era muito legal, falava de pessoas que tinham esse ou aquele transtorno, que era algum tipo de dificuldade que a pessoa tinha para agir de uma certa maneira numa determinada situação e que tinha um velhinho que tinha entendido como a cabeça da gente funciona e tal. Depois que ela falou um monte de coisas imitando voz de criança, apesar de ser bem velha e não combinar nada nada aquela voz com ela, perguntou se eu tinha alguma dúvida muito profunda, quer dizer, escondida bem dentro da cabeça da gente, e se eu queria que ela me ajudasse a encontrar as respostas? Eu perguntei de onde eu vim, quem eu sou e para onde eu vou? E como ela começou a gaguejar e se enrolar sem saber se estava falando ou cacarejando, eu comecei a falar pra ela das coisas que eu lembrava, que eu sentia e sabia. Falei o que pode falar uma criança de 10 anos, com toda inocência e sinceridade, a mais pura veracidade, plena de certeza e honestidade. Num dado momento a mulher se pôs a chorar feito um bebê, dos olhos saiam lágrimas como de uma torneira. E quanto mais eu falava mais ela chorava e não havia em nenhum de nós o desejo que aquilo acabasse. E tanto falei que ficou claro que o meu desejo não era doença mas uma sina que todos nós um dia seremos, em verdade.

– Então, pai, mãe, a mulher, tão boazinha, coitada, se levantou da cadeira, me olhou e abriu a janela, dando uma bela cafungada no ar fresco que entrava. Deu um sorriso meio de lado e se jogou lá embaixo!

– Valha-me Deus! Gritaram os dois desesperados, sem lembrar que o consultório ficava numa casa térrea do Jardim Europa. Os dois correram para a janela e só então, ao verem a grama verdinha a um metro de distância, exalaram o ar preso nos pulmões. Pegaram o menino e saíram de lá sem olhar para trás.

Naquele domingo pela manhã, Cleto folheava o jornal calmamente enquanto saboreava o café quentinho passado pelo coador. Chamou sua atenção uma manchete em letras garrafais sobre uma falsária que havia se entregado espontaneamente à polícia. A matéria dizia que a tal se fazia passar por terapeuta nos Jardins, tendo entre sua clientela a fina nata da elite paulistana, entre empresários, políticos e até um bispo. Dizia-se que ela fora levada por uma crise muito grande de consciência depois de ter atendido um jovem cliente. Arrependeu-se do mal que havia feito a centenas de pessoas, iludindo-as com falsas ilusões.

Cleto olhou o filho brincando distraidamente no chão com carrinhos e bonequinhos, simulando uma via de trânsito. Sentiu uma alegria tão grande que quase agradeceu pela dádiva que a vida lhe dera, mas gelou quando viu Anacleto pegar um carrinho e atropelar um dos bonequinhos.

CaMaSa

Anacleto e a Coxinha

Anacleto crescia… melhor dizendo avançava no tempo ocupando o mínimo espaço. Os pais procuravam oferecer todo tipo de alimento, dos mais doces aos mais salgados, dos mais insossos aos mais amargos, coloridos, perfumados ou inodoros, quentes ou frios. A todos o menino reagia da mesma maneira, uma ou duas colheradas e só. Mamadeiras, mingaus, purês, bananas, maçãs, pêras, mamões e morangos, sucos de laranja, uva e pêssego. Iogurtes, queijos, dos mais caseiros aos mais malcheirosos. Feijão com arroz, macarrão com molho de tomate, com queijo, lavado com manteiga. Sorvetes, pudins, balas e chocolates. A tudo exclamava um: – Bléé!

Eventualmente inventava de só querer uma mistura esquisita de giló com tamarindo, limão com beterraba e lentilha, bacon com pipoca doce e baunilha… Mulher grávida perde de longe! Eram dias, semanas e meses na mesma toada, comendo só um tantinho da gororoba que era toda jogada fora. Quem ia comer aquilo? Se um dos ingredientes faltasse, fosse fora de estação, toca correr atrás por toda cidade, em toda feira, mercado, quitandinha ou sítio dos arredores da cidade. Não fazia por mal. Nada lhe apetecia e mesmo essas misturas esquisitas não lhe abriam o apetite verdadeiramente. Mas era o que lhe dava sustento, algum viço e força pra seguir a vida.

Assim que, aos barrancos e trancos, chuchus e abobrinhas, chegou Anacleto aos seis anos de idade, quase apto a ingressar na escola primária, para juntar as primeiras letras, somar os primeiros números, cantar as primeiras cantigas e hinos, brigar com os primeiros amigos e sonhar acordado com as primeiras paixões. Tudo isso estava reservado para ele, não fosse ele quem era. Arrancá-lo do lar foi uma verdadeira batalha, com uivos e gritos ouvidos a quilômetros de distância. O uniforme escolar de calçãozinho azul-marinho e cós rígido, com camisa branca engomadíssima e brilhante, enfeitada por uma gravatinha da cor do calção,  combinando com um par de meias três quartos brancas e botinas pretas lustrosas, desmantelou-se todo em poucos minutos. Olhando-se atentamente não se conseguiria distinguir entre uma ou outra peça do vestuário. Assim que saíram de casa, desvencilhou-se da mãe e saiu correndo em disparada dando de encontro a um poste. Ana o acudiu, levantando-o com uma só mão enquanto a outra vassourava a sujeira do chão presa em suas roupas. 

– Tá doido menino? Quer morrer?

Pronto! Uma luz acendeu no túnel escuro da cabeça do menino. Acalmou-se e deixou-se levar docilmente para a escola próxima. A mãe estranhou, chegou a pensar que o menino tivesse batido a cabeça com muita força, que ele estivesse grogue ou algo assim. Mas ela tinha visto o choque, bateu de ombro, nada de cabeça e também não havia marca aparente. Só estava calmo mesmo. Talvez o susto tivera um efeito benéfico. Seja como for, chegou ao portão da escola onde uma assistente aguardava as crianças. A moça abriu um sorriso para Anacleto que aceitou mansamente a mão estendida em sua direção. Foi para dentro tranquilamente andando ao lado da moça e sumiu das vistas da mãe quando subiram a larga escadaria do hall principal do antigo prédio amarelado. Antes de virar-se para voltar para casa, Ana leu no alto da fachada da escola: Antonio Firmino de Proença.

As palavras de sua mãe após o choque com o poste ainda ecoavam em sua cabeça. Menino… Quer… Morrer… Eram tão melodiosas, tão encantadoras. Canto doce e convidativo de sereias flutuantes num mar translúcido quente e aconchegante. Ele não sabia o que era a morte, mal havia saído das fraldas, mas uma força superior o empurrava para o maior dos mistérios. Acordou de seu devaneio sentado numa carteira escolar de ferro e madeira velha e rabiscada pelo tempo, acompanhado de várias crianças iguais a ele e uma professora rechonchuda e falante. Ela se chamava Neide, assim havia dito, e pedia a cada um dos alunos que se apresentassem dizendo seus nomes. Após uma sucessão de Pedrinhos, Rosinhas, Josés, Mariazinhas, Olavos e Ritas, chegou sua vez de dizer o nome.

– Ana…

– Hahahas…

– Como? Perguntou dona Neide.

– Ana… Cleto…

– Hahahas…

– Silêncio! Silêncio! Ralhou a professorinha. Anacleto é um nome bonito como outro qualquer.

Ele custou a entender do que riam as outras crianças. Primeiro pensou que era de sua voz e só depois percebeu que riam do seu nome. Achou estranho mas não ficou incomodado, já que estava decidido a descobrir ali como se chegava até a morte. Essas coisas pequenas não o tirariam do seu objetivo principal. Avaliou que entre os colegas de classe dificilmente encontraria alguém que pudesse ajudar, que tivesse alguma noção de como atingir sua meta. Mas teria que tentar. Se nenhum deles tivesse alguma ideia útil, teria que recorrer à professora. Acabou descobrindo, fazendo perguntas a respeito, que todos tinham muita informação para dar. Cada um tinha uma estória para contar sobre formigas, moscas, aranhas e baratas mortas; um contou sobre a morte de um gato e outro falou de um cachorro; pássaros, muitos pássaros; um falou até de um tio, morto em duelo, mas não tinha certeza se era verdade ou um filme antigo em preto e branco. Mas ninguém contou sobre a própria morte!

O sino cantou a hora do recreio e todos correram da sala em direção ao pátio interno do colégio. Ele permaneceu sentado, hesitando entre sair ou ficar para fazer perguntas para a professora, atarefada com listas de presença. Deu alguns passos em direção à mesa alta e permaneceu alguns segundos diante dela, olhando fixamente para a mulher sentada ali. Percebendo-se olhada, a mestra encarou o menino à sua frente e, entre assustada e surpresa, perguntou se ele queria alguma coisa?

MORRER… Anacleto pensou bem alto, como um grito. E saiu correndo para fora da sala, sem direção ou razão. Entendeu que não poderia contar com os adultos, que fariam tudo para impedi-lo. Era algo para se fazer sozinho, mas como? Imaginou que uma queda, uma grande queda, provavelmente poderia tirar a vida de alguém. Sua casa não tinha lugares altos, nem mesmo o telhado era suficiente. Mas ele estava agora nesse colégio que era um prédio alto, com dois andares, o suficiente para fazer um belo estrago. Pôs-se a perambular pelos corredores para encontrar um lugar adequado para seus intentos.

Naquele momento, na sala dos professores, o café com fofocas corria fartamente. Entre pedaços de bolos e tortas, coxinhas e empadinhas, a matemática, o português, a geografia e a história davam lugar aos comentários sobre as roupas inadequadas, o excesso de maquiagem ou o caso secreto entre a inspetora de corredor e o novo professor de educação física, casado! Eventualmente discutia-se a reclamação de uma mãe e a falta de modos e educação do filho da reclamante. De repente, ouviu-se um ganido medonho, um berro surdo asmático vindo da direção do professor de inglês, que do alto de seus 142 quilos, acabava de engasgar com o osso de uma coxinha, obstruindo sua garganta elegantemente envelopada por uma blusa de gola olímpica azul escuro.

Formou-se um bafafá tumultuado, todos correndo de um lado para o outro, tentando acudir o pobre sem saber o que fazer. Num ato de desespero o professor saiu em disparada para fora da sala de reunião, atropelando duas professoras e uma diretora pelo caminho, estatelando-se no chão, arfante, indo parar bem embaixo do vão da escada com o imenso barrigão para cima.

Nisso despenca lá do alto, como um pato abatido em pleno vôo ou um anjo querubim caído do céu, dependendo do ângulo que se olhasse, Anacleto, em carne e ossos, mais ossos que carne, de encontro ao seu planejado e triste destino, interrompido e salvo pela pança do professor estrebuchante. O menino caiu com os dois pés bem no umbigo do já quase moribundo, merecendo um 10 em saltos ornamentais pois não espirraria uma gota sequer. A pressão do golpe fez cuspir o osso de galinha da coxinha, feito jato de uma baleia, indo aboletar-se no alto da peruca da professora de música.

O professor sobreviveu graças ao ato heróico de Anacleto! Ele foi abraçado e festejado. Teve fanfarra, discurso e condecoração. Jornal, rádio e televisão, com direito a cumprimento do prefeito. A tudo ele assistiu impassível, à espreita da próxima oportunidade

CaMaSa

Anacleto

Ele era suicida, mas completamente incompetente para realizar sua intenção. Entre as inúmeras tentativas, uma mereceu até uma nota no jornal do bairro. Foi quando tomou 32 bolinhas de Aconitum napelus, 27 de Aesculus hippocastanum,  62 de Agnus castus, 24 de Barium carbonicum, 29 de Chamomilla, 36 de Cuprum metallicum, 29 de Hepar sulphuris, 23 de Histaminum, 58 de Iris versicolor, 31 de Lycopodium clavatum, 33 de Mercurius iodatus ruber, 45 de Morphinum, 16 de Phytolacca decandra, 35 de Scutellaria lateriflora, 67 de Tarantula hispanica e 19 de Zincum metallicum, todas homeopáticas! Quando os pais chegaram ao hospital, perguntaram ao médico:

— Ele vai sobreviver, doutor?

— Sobreviver vai, mas vai ao vaso como um cabrito por 3 meses!

Nascera normal, se é que podemos dizer normal um parto pelos pés e o cordão umbilical enrolado no pescoço. O médico tinha em suas mãos um bebê azul arroxeado que só sorveu a primeira golfada de ar depois da décima palmada! As enfermeiras entregaram para uma mãe ávida e curiosa, um recém-nascido com marcas de mãos claramente desenhadas na bunda. Ana era seu nome e ela não via a hora de poder mostrar esse pequeno anjo ao pai, Cleto. Passaram-se algumas horas até que finalmente os três puderam comemorar juntos o nascimento: Ana, Cleto e o pequeno Anacleto.

Perguntaram ao médico quando poderiam ir para casa? Quando o bebê mamar pela primeira vez, respondeu o doutor. Nove dias depois dispensaram os três, não sem antes obrigarem os pais assinarem um documento isentando o hospital de qualquer responsabilidade. Desceram do táxi com um pacotinho de pele e ossos com pouco mais de 1.600 kg, que havia nascido com 2.700 kg. Não demorou para que todas as tias e nonnas da vila viessem prestar socorro através de séculos de sabedoria acumulada na arte de criar e engordar pequerruchos. Padres e freiras, pais e mães de santo, curandeiros, místicos e céticos revezavam-se em procissão na tentativa de encontrar uma solução. Nutricionistas, químicos e físicos, advogados e juízes, militares de alta e baixa patente. Não tinha jeito! O moleque cerrava a boca como uma espada cravada em bigorna, a Espada era a Lei.

Claro que não passava pela cabeça dos pais, nem de ninguém, que um recém-nascido pudesse tentar contra a própria vida, até o dia em que ele começou a arrancar a mangueirinha do soro. Não na primeira nem na quinta vez, mas na décima bateu um baita desespero. O menino tentava se matar! O que já era assunto do dia virou um sururu danado! Camelôs, feirantes, donas de bordel, jogadores de futebol, diretores de escola, jornais, rádios e TVs. Tinha de tudo na pequena vila, todos querendo tirar uma casquinha da celebridade do momento. Uma semi-famosa, casada com um jogador de futebol semi-profissional, exigia uma posição melhor na fila. Uma equipe da TV Record havia conseguido uma exclusiva e filmou o menino no exato momento que arrancava o catéter do braço. Terminaram a reportagem com Anacleto de olhos esbugalhados, mãos e pés amarrados.

Numa quarta-feira de manhã, já com a audiência baixa e a desolação dos pais bem alta, bateu à porta um homenzinho baixo, por volta de 1,40 m de altura, magro, muito magro, com o rosto encovado, a pele macilenta grudada nos ossos. – Eu vou salvar a criança, anunciou timidamente.

Ana e Cleto sentiram um frio na espinha. Já haviam perdido a esperança, conformados que estavam com a sorte infeliz, preparados para o pior. Mas aquele homem revertera o quadro, acendera uma luz na escuridão, retesara os cabelos da nuca. A sensação durou pouco. Olhando novamente para o sujeitinho à sua frente, Cleto suspirou profundamente e deu-lhe as costas, indo sentar-se no sofá ao lado do berço. Já Ana, como todas as mães, acreditou mais um pouquinho e perguntou com alguma esperança:

– Como o senhor pode salvar o meu filho? Fazê-lo comer?

– Quero que seja preparada uma feijoada completa.

E passou para Ana a lista com os ingredientes:

  • 3,5 Kg de feijão preto (separados em 3K + 500g)
  • 500g de bacon
  • 500g de toucinho fresco laminado
  • 1 rabo de porco salgado
  • 1 pé de porco salgado
  • 1 orelha de porco salgada
  • 1 língua (nesse dia não encontrei pra comprar por isso não coloquei)
  • 1,5 Kg costelinha de porco salgada
  • 1Kg de pernil de porco salgado (pode ser lombo e pode ser metade de cada, mas prefiro o pernil por ser mais saboroso e suculento que o lombo)
  • 1,5 Kg de carne seca (eu prefiro o dianteiro que tem mais gordura e é mais saboroso, apesar do traseiro ser mais carnudo, mas pode ser meio a meio)
  • 4 paios
  • 2 linguiças portuguesas
  • 5 cabeças de alho brunoise (cubos mínimos)
  • 4 cebolas em cubos
  • 2 xícaras (chá) de talos de salsinha laminados finamente
  • 6 pimentas dedo de moça em lâminas
  • 4 folhas de louro
  • 1 laranja sem pele inteira
  • 3 cravos da Índia
  • 1 colher de café de semente de cominho
  • 2 doses de cachaça

Fez Ana anotar todos os detalhes minuciosos da preparação da feijoada, os cortes precisos das carnes, as quantidade exatas de cada condimento, os tempos cronometrados de cocção e fervura. Deveria acompanhar duas travessas grandes de arroz imaculadamente branco e uma dúzia de garrafas de cerveja a 3º C de temperatura.

Seja porque já haviam perdido a esperança, seja porque já não sabiam mais o que fazer mesmo, Ana e Cleto puseram-se atrás dos ingredientes, utensílios e tudo o que era preciso para atender a solicitação do estranho homem. Este sentou-se à cabeceira da mesa de jantar e aguardou em transe mediúnico o momento adequado à realização do seu prometido milagre. Não mexeu um dedo, não piscou um olho. Ficou petrificado durante aquela tarde e noite, assim amanheceu na quinta-feira, mantendo-se firme e resoluto durante toda sexta-feira, apesar do aroma que exalava a preparação de sua receita, já enlouquecendo toda vizinhança, já babando de vontade. Cleto teve que postar-se diante da porta, impedindo a entrada dos mais exaltados. Prometia a todos um bocado daquela gostosura, mas que a prioridade era salvar seu filho. Da sexta para o sábado teve que contratar um vigia, mas teve que despedi-lo pois este não aguentou e foi flagrado tentando provar um pouco daquele caldo de feijão dos deuses.

Ana e Cleto passaram a noite toda se revezando e sentiram os primeiros raios de Sol da manhã do sábado com os olhos vermelhos de sono e empedrados de cansaço. Faltavam poucas horas para o grande momento, o tal sábio determinara o almoço para meio dia em ponto. Este, aliás, estava lá, sentado na mesma posição. Cleto chegou a temer que o homem tivesse morrido, mas sossegou quando passou as costas da mão sob suas narinas. Ana preparou um café com leite e um pão com manteiga, mas a vontade de provar da feijoada era pavorosa. Resistiam por causa do Anacletinho, magrinho, quase um cadáver.

Passaram a manhã preparando e decorando os pratos conforme as instruções detalhadas, ajeitavam as louças e os talheres. Puseram à mesa o que de melhor possuíam, o que não era grande coisa, mas colocados da forma orientada e com os conteúdos tão perfumados e vistosos, pareciam ser porcelanas finas, cristais e pratarias do mais alto nível. Faltando um minuto para soar o relógio, Cleto dispôs as garrafas geladíssimas de cerveja, abrindo a primeira exatamente ao meio dia. Automaticamente o homem abriu os olhos. Inspirou o ar longa e profundamente e atacou a feijoada com uma ferocidade incomparável. Feijão, pés, orelhas, arroz e farofa, tudo era absorvido por aquele poço sem fundo de sua boca. Cleto fez menção de pegar uma colher de arroz mas recuou diante do rosnado assustador do homenzinho. Teve a impressão de ser um leão defendendo sua presa. Em pouco mais de meia hora o fato estava consumado. Não havia um grão de feijão, um pó de farofa ou uma gota de cerveja para provar que ali existiu uma feijoada.

De repente o comilão teve um espasmo, virou-se para a criança no berço e deu um fétido, sonoro e longo arroto de satisfação que empesteou toda a casa. Os pais correram a abrir portas e janelas, mal conseguindo respirar aquele ambiente poluído por aquele fedor infernal. Não havia um vizinho à porta. Fugiram todos, preocupados com a própria segurança. O homenzinho tomou o caminho da rua, passando por Ana e Cleto. Disse a ambos:

– O menino vai comer normalmente agora e nunca, nunca conseguirá tirar a própria vida.

Os dois se entreolharam incrédulos e correram para o berço. Ana ofereceu uma mamadeira, que foi devorada rapidamente.

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