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05/04/21
CaMaSa

Anacleto

Ele era suicida, mas completamente incompetente para realizar sua intenção. Entre as inúmeras tentativas, uma mereceu até uma nota no jornal do bairro. Foi quando tomou 32 bolinhas de Aconitum napelus, 27 de Aesculus hippocastanum,  62 de Agnus castus, 24 de Barium carbonicum, 29 de Chamomilla, 36 de Cuprum metallicum, 29 de Hepar sulphuris, 23 de Histaminum, 58 de Iris versicolor, 31 de Lycopodium clavatum, 33 de Mercurius iodatus ruber, 45 de Morphinum, 16 de Phytolacca decandra, 35 de Scutellaria lateriflora, 67 de Tarantula hispanica e 19 de Zincum metallicum, todas homeopáticas! Quando os pais chegaram ao hospital, perguntaram ao médico:

— Ele vai sobreviver, doutor?

— Sobreviver vai, mas vai ao vaso como um cabrito por 3 meses!

Nascera normal, se é que podemos dizer normal um parto pelos pés e o cordão umbilical enrolado no pescoço. O médico tinha em suas mãos um bebê azul arroxeado que só sorveu a primeira golfada de ar depois da décima palmada! As enfermeiras entregaram para uma mãe ávida e curiosa, um recém-nascido com marcas de mãos claramente desenhadas na bunda. Ana era seu nome e ela não via a hora de poder mostrar esse pequeno anjo ao pai, Cleto. Passaram-se algumas horas até que finalmente os três puderam comemorar juntos o nascimento: Ana, Cleto e o pequeno Anacleto.

Perguntaram ao médico quando poderiam ir para casa? Quando o bebê mamar pela primeira vez, respondeu o doutor. Nove dias depois dispensaram os três, não sem antes obrigarem os pais assinarem um documento isentando o hospital de qualquer responsabilidade. Desceram do táxi com um pacotinho de pele e ossos com pouco mais de 1.600 kg, que havia nascido com 2.700 kg. Não demorou para que todas as tias e nonnas da vila viessem prestar socorro através de séculos de sabedoria acumulada na arte de criar e engordar pequerruchos. Padres e freiras, pais e mães de santo, curandeiros, místicos e céticos revezavam-se em procissão na tentativa de encontrar uma solução. Nutricionistas, químicos e físicos, advogados e juízes, militares de alta e baixa patente. Não tinha jeito! O moleque cerrava a boca como uma espada cravada em bigorna, a Espada era a Lei.

Claro que não passava pela cabeça dos pais, nem de ninguém, que um recém-nascido pudesse tentar contra a própria vida, até o dia em que ele começou a arrancar a mangueirinha do soro. Não na primeira nem na quinta vez, mas na décima bateu um baita desespero. O menino tentava se matar! O que já era assunto do dia virou um sururu danado! Camelôs, feirantes, donas de bordel, jogadores de futebol, diretores de escola, jornais, rádios e TVs. Tinha de tudo na pequena vila, todos querendo tirar uma casquinha da celebridade do momento. Uma semi-famosa, casada com um jogador de futebol semi-profissional, exigia uma posição melhor na fila. Uma equipe da TV Record havia conseguido uma exclusiva e filmou o menino no exato momento que arrancava o catéter do braço. Terminaram a reportagem com Anacleto de olhos esbugalhados, mãos e pés amarrados.

Numa quarta-feira de manhã, já com a audiência baixa e a desolação dos pais bem alta, bateu à porta um homenzinho baixo, por volta de 1,40 m de altura, magro, muito magro, com o rosto encovado, a pele macilenta grudada nos ossos. – Eu vou salvar a criança, anunciou timidamente.

Ana e Cleto sentiram um frio na espinha. Já haviam perdido a esperança, conformados que estavam com a sorte infeliz, preparados para o pior. Mas aquele homem revertera o quadro, acendera uma luz na escuridão, retesara os cabelos da nuca. A sensação durou pouco. Olhando novamente para o sujeitinho à sua frente, Cleto suspirou profundamente e deu-lhe as costas, indo sentar-se no sofá ao lado do berço. Já Ana, como todas as mães, acreditou mais um pouquinho e perguntou com alguma esperança:

– Como o senhor pode salvar o meu filho? Fazê-lo comer?

– Quero que seja preparada uma feijoada completa.

E passou para Ana a lista com os ingredientes:

  • 3,5 Kg de feijão preto (separados em 3K + 500g)
  • 500g de bacon
  • 500g de toucinho fresco laminado
  • 1 rabo de porco salgado
  • 1 pé de porco salgado
  • 1 orelha de porco salgada
  • 1 língua (nesse dia não encontrei pra comprar por isso não coloquei)
  • 1,5 Kg costelinha de porco salgada
  • 1Kg de pernil de porco salgado (pode ser lombo e pode ser metade de cada, mas prefiro o pernil por ser mais saboroso e suculento que o lombo)
  • 1,5 Kg de carne seca (eu prefiro o dianteiro que tem mais gordura e é mais saboroso, apesar do traseiro ser mais carnudo, mas pode ser meio a meio)
  • 4 paios
  • 2 linguiças portuguesas
  • 5 cabeças de alho brunoise (cubos mínimos)
  • 4 cebolas em cubos
  • 2 xícaras (chá) de talos de salsinha laminados finamente
  • 6 pimentas dedo de moça em lâminas
  • 4 folhas de louro
  • 1 laranja sem pele inteira
  • 3 cravos da Índia
  • 1 colher de café de semente de cominho
  • 2 doses de cachaça

Fez Ana anotar todos os detalhes minuciosos da preparação da feijoada, os cortes precisos das carnes, as quantidade exatas de cada condimento, os tempos cronometrados de cocção e fervura. Deveria acompanhar duas travessas grandes de arroz imaculadamente branco e uma dúzia de garrafas de cerveja a 3º C de temperatura.

Seja porque já haviam perdido a esperança, seja porque já não sabiam mais o que fazer mesmo, Ana e Cleto puseram-se atrás dos ingredientes, utensílios e tudo o que era preciso para atender a solicitação do estranho homem. Este sentou-se à cabeceira da mesa de jantar e aguardou em transe mediúnico o momento adequado à realização do seu prometido milagre. Não mexeu um dedo, não piscou um olho. Ficou petrificado durante aquela tarde e noite, assim amanheceu na quinta-feira, mantendo-se firme e resoluto durante toda sexta-feira, apesar do aroma que exalava a preparação de sua receita, já enlouquecendo toda vizinhança, já babando de vontade. Cleto teve que postar-se diante da porta, impedindo a entrada dos mais exaltados. Prometia a todos um bocado daquela gostosura, mas que a prioridade era salvar seu filho. Da sexta para o sábado teve que contratar um vigia, mas teve que despedi-lo pois este não aguentou e foi flagrado tentando provar um pouco daquele caldo de feijão dos deuses.

Ana e Cleto passaram a noite toda se revezando e sentiram os primeiros raios de Sol da manhã do sábado com os olhos vermelhos de sono e empedrados de cansaço. Faltavam poucas horas para o grande momento, o tal sábio determinara o almoço para meio dia em ponto. Este, aliás, estava lá, sentado na mesma posição. Cleto chegou a temer que o homem tivesse morrido, mas sossegou quando passou as costas da mão sob suas narinas. Ana preparou um café com leite e um pão com manteiga, mas a vontade de provar da feijoada era pavorosa. Resistiam por causa do Anacletinho, magrinho, quase um cadáver.

Passaram a manhã preparando e decorando os pratos conforme as instruções detalhadas, ajeitavam as louças e os talheres. Puseram à mesa o que de melhor possuíam, o que não era grande coisa, mas colocados da forma orientada e com os conteúdos tão perfumados e vistosos, pareciam ser porcelanas finas, cristais e pratarias do mais alto nível. Faltando um minuto para soar o relógio, Cleto dispôs as garrafas geladíssimas de cerveja, abrindo a primeira exatamente ao meio dia. Automaticamente o homem abriu os olhos. Inspirou o ar longa e profundamente e atacou a feijoada com uma ferocidade incomparável. Feijão, pés, orelhas, arroz e farofa, tudo era absorvido por aquele poço sem fundo de sua boca. Cleto fez menção de pegar uma colher de arroz mas recuou diante do rosnado assustador do homenzinho. Teve a impressão de ser um leão defendendo sua presa. Em pouco mais de meia hora o fato estava consumado. Não havia um grão de feijão, um pó de farofa ou uma gota de cerveja para provar que ali existiu uma feijoada.

De repente o comilão teve um espasmo, virou-se para a criança no berço e deu um fétido, sonoro e longo arroto de satisfação que empesteou toda a casa. Os pais correram a abrir portas e janelas, mal conseguindo respirar aquele ambiente poluído por aquele fedor infernal. Não havia um vizinho à porta. Fugiram todos, preocupados com a própria segurança. O homenzinho tomou o caminho da rua, passando por Ana e Cleto. Disse a ambos:

– O menino vai comer normalmente agora e nunca, nunca conseguirá tirar a própria vida.

Os dois se entreolharam incrédulos e correram para o berço. Ana ofereceu uma mamadeira, que foi devorada rapidamente.

CaMaSa

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