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Capítulo 3: Um Novo Mundo

O padre Benedetto saiu correndo pela sacristia atravessando a nave central em direção às portas da igreja. Passou como um raio pelas beatas que ficaram com as mãos das saudações paradas no ar, perplexas. Nunca viram o santo roliço padre correr tanto assim! Nem mesmo na direção de um belo prato de Fusilli acompanhado de um copo de vinho… Aí tem! E seguiram o reverendo que balançava pelos ares a batina preta. Felitto é uma cidade pequena, tem o mesmo número de habitantes, a cerca de dois mil, há pelos menos 1.000 anos. Um padre correndo com meia dúzia de beatas atrás não passaria despercebido mesmo. Assim, pouco a pouco, uma crescente caravana, ávida por informações, chegou à porta da casa dos meus avós.

Meu nonno Giovanni abriu a porta e, com grande espanto, viu o sacerdote no alto da escada, todo aflito e suado, já amparado por membros da comitiva, que só aumentava. Convidou-o a entrar e, junto com ele, entraram algumas das autoridades locais já presentes: o prefeito e o vice, o guarda municipal, o médico, o diretor da escola, além de dois tios, três primos e seis vizinhas. A casa era muito humilde e pequena, construída pelas pedras milenares que estavam ali desde sempre, composta logo na entrada por um único ambiente que fazia as vezes de sala, cozinha com fogão a lenha e sala de almoço. Havia ainda dois quartos e um banheiro anexo, desafiador nos dias frios. Deram alguns minutos para o santo padre, que retomava o fôlego lentamente, sentado na melhor cadeira disponível. Quando terminou o copo de vinho oferecido, de uma golada, puxou um envelope do bolso da batina e retirou a folha de papel timbrado da diocese de São Paulo, Brasil. Olhou ao redor, fixou os olhos na minha mãe e pôs-se a ler em tom solene:

“Ao pároco da cidade de Felitto, província de Salerno, Itália,

Recebemos em nossa diocese, na Igreja Santa Margarida dos Aflitos, no bairro da Cachoeira Seca, cidade de São Paulo, um pedido de solicitação de casamento entre Maria Bernarda Auxiliadora Silva, brasileira, natural de Amaralândia, MG, e Pasqualino Santangelo, italiano, natural de Felitto, Salerno, Itália.

Gostaríamos de saber, por parte de Vossa Reverendíssima, se há algum impedimento para esse enlace?

Mui respeitosamente…”

Ahhh! O Brasil… O Brasil…

Quando meu pai se viu um homem feito, casado, com uma filha de colo e outra a caminho, trabalhando em sua pequena “falegnameria“, fazendo todo tipo de serviço com a madeira conseguida com as próprias mãos a quilômetros, em troca de comida e alguns centavos, sem perspectiva alguma de melhora nos próximos séculos, destruída que estava a Europa do pós-Guerra, tomou-se de encanto pelos rumores de uma vida melhor vindos da América. Muitos dali já haviam partido para diversos pontos do planeta, alguns voltando para suas famílias com recursos, valores que não seriam conseguidos numa vida naquele lugar. Quanto mais a miséria e dificuldade aumentavam, cresciam os louvores de oportunidades e riqueza de terras exóticas, inexploradas, onde um homem sozinho poderia conseguir independência. Havia programas do governo incentivando os cidadãos a tomarem esse rumo, aliviando, dessa maneira, a carga administrativa de um Estado dilacerado pelas más escolhas. Um desses programas chegou a Felitto e arrastou consigo um punhado de homens jovens e corajosos dispostos a vencer a pobreza. Entre eles estava meu pai.

Foram até Nápoles, onde um navio aguardava atracado. Era tanta gente no porto, filas enormes serpenteando em direção às escadas inferiores do navio, que dava a impressão que a Itália ficaria vazia! Gente do Norte e do Sul, muitos do sul, a grande maioria do sul, espremiam-se nervosamente, aguardando a vez de subir a bordo. Muitos, como meu pai, jamais haviam saído de suas cidades, mas, como dizia o dito popular, Il Mondo é Paese, significando que não importa quão longe se está do seu pequeno vilarejo, ele sempre estará com você.

Assim que, 17 horas depois de chegar ao porto, meu pai estava a bordo de um navio velho, mal cuidado e carcomido pelo tempo e o sal marinho, com a proa apontada diretamente para a Estátua da Liberdade de uma América rica e promissora. Algumas horas depois, com as costas da Europa já pela proa, a embarcação começou a desviar lentamente à esquerda, numa curva descendente que só terminou 15 dias depois, em águas brasileiras, bem ao sul, mais precisamente no Porto de Santos.

Dio mio, che bello!” O impacto deste país sobre um imigrante é avassalador. Eram os anos 50, tudo ainda era muito virgem, muito natural. O calor, a brisa marinha, o verde e amarelo da vegetação… As casas não eram pesadas, de pedra, mas de tijolos, as mais elegantes rebocadas e pintadas. Pareciam mover-se com o vento, como os coqueiros dançantes das praias de areia branquinha, avistadas do navio antes de atracar. Separavam o verde transparente das águas do mar, daquele de tom mais forte da vegetação que descia do alto das montanhas distantes.

Por um momento, sentiu que havia feito a escolha certa, com o coração expandindo-se num contentamento jamais sentido. Amplo!

Os espaços… Tudo era muito espaçoso, à vontade. As pessoas também, mais afáveis, sorridentes. As mulheres, que lindas eram as mulheres! Claro, não pra ele que era casado, com uma filha de 3 anos e uma por nascer. Não pra ele que acabara de chegar, e logo rumaria para a cidade de São Paulo, de clima um pouco mais frio, muito bom, e ainda não havia sentido os ataques da solidão, do vazio, da nostalgia que um dia se transformaria em saudade.

Toda essa alegria de viver era para a gente daqui, com seus tons de pele multicoloridos que iam do branco da lua até o negror do carvão! Mas esses tons variados eram extremamente apreciáveis nas moças que passavam pelas ruas e avenidas, despreocupadas e sorridentes, cada vez mais convidativas, à medida que o tempo ia passando e o desejo de companhia ia aumentando. Afinal, naquela época o homem ainda tinha certas garantias e o dever de provar sua masculinidade. E, pensando assim, vencido pela distância, pelos dias, semanas e meses e anos, pelo tempo e a saudade, que naquela altura já havia se apresentado numa forma muito além da nostalgia, bem dolorosa, sucumbiu. E deixou-se levar pelos prazeres de um novo mundo!

CaMaSa

Capítulo 4: O Beijo Roubado

O clima era tenso e pesado. Estavam presentes meu nonno Giovanni, a irmã da minha mãe, zia Onorina, e seu marido, Antonio Rizzo, que trabalhava na Alemanha. Minha nonna Grazia chorava e soluçava alto num canto da sala, amparada pela irmã mais velha do meu pai, zia Veneranda. Sentado, ruminando pensamentos e palavras desconexas estava meu nonno Cármine, ladeado pelas filhas, Élida e Anna. Vincenzo, o mais novo dos irmãos do meu pai, estava na Venezuela, trabalhando como pedreiro. Antônio estava no Brasil, mas de lá não chegavam notícias há muito tempo! Padre Benedetto já estava longe, tinha cumprido sua missão.

Minha mãe estava encostada no batente da porta de entrada, no alto da escada, com o olhar perdido e distante. Nos degraus, brincando inocentemente estavam minhas irmãs, Rachel e Grazia. A conversa entre as duas atraiu a atenção de minha mãe que, por um momento, a levou dali, vendo-se ela mesma criança e despreocupada. Olhou com carinho para as filhas, como se fosse uma delas.

Rachel era fofinha, calma e tranquila. Tinha os cabelos lisos, escuros, as bochechas rosadas. Ela não sabia se tinham esse tom naturalmente ou se eram resultado dos beliscões carinhosos que todos faziam questão de lhe dar. Minha irmã aceitava essas manifestações sempre resignada, incapaz de dar um pio. Onde era colocada ficava, concentrada em si mesma ou em qualquer atividade manual que lhe caísse em mãos. Naquela altura, com 4 para 5 anos de idade, já era hábil no crochê.

A pequena Grazia, magricela e loirinha, era um terremoto! Ágil, saltitante, irrequieta, era a versão oposta exata da irmã. Eram necessários sempre dois pares de olhos sobre ela, de dia ou de noite. Nascera sem a presença do pai, não que isso fosse fazer grande diferença, mas acabara criando uma relação paterna com meu avô, que era um homem fino e sensível, de modos calmos e pacíficos. Com ele minha irmã se acalmava, esforçava-se para entendê-lo e conseguia aprender as primeiras letras e números, tão difíceis de assimilar na escolinha das freiras. Ali vivia diabruras, derrubando latas, espalhando a comida pela mesa, pisoteando flores no jardim, escalando a pilha de roupa branca, lavada e passada, e derrubando pelo chão. Não o fazia por mal. Tinha herdado esse gênio arteiro e inquieto do pai.

O pai das suas meninas… Lembrou-se do dia das núpcias. A cerimônia na igreja conduzida pelo padre Benedetto, em latim. O coral, primeiro entoando músicas sacras pomposas, depois finalizando com uma melodia leve, suave, até alegre. O sim envergonhado dele, expelido por um cutucão na barriga. Risos na igreja. O embaraço ao virar-se de costas para o altar, andar pela nave central, sorrindo para as pessoas. Os gritos de exaltação na porta e a procissão seguindo os noivos até a praça central, onde mesas improvisadas aguardavam os noivos e convidados com o que de melhor a bondade dos seus corações ali depositara. Havia música também, as belas canções napolitanas elevando a moral de todos, apesar dos tempos difíceis.

Pensou e avaliou suas opções. Já se haviam passado 4 anos desde que eles acordaram naquela manhã com a decisão tomada, a pequena e gasta mala pronta, com algumas peças de roupa, meia dúzia de ferramentas pequenas, um pouco de queijo, um pouco de trigo, um pouco de dor e alguma esperança. Nada era certo, como juras de amor juvenil, ardentes, voláteis, inseguras.

Dentro de casa a temperatura subia e descia conforme minha nonna chorava e blasfemava, acusando os céus e a má sorte. Alcançava um pico de dor e sofrimento altíssimo e despencava logo em seguida, num estado de catatonia. Nonno Giovanni lamentava em silêncio, sabendo que não poderia tomar uma decisão pela filha. Cada um deve carregar a própria cruz. Os demais murmuravam baixinho, preparavam o café e aguardavam uma solução que, seja qual fosse, ninguém ali gostaria de enfrentar.

A pequena Grazia pulou a irmã sentada no degrau, caindo de encontro à mãe que as observava um lance acima. Pegou a menina nos braços que, com as mãozinhas no rosto da mãe, disse: – Mamma, non piange…

Que dor! Que raiva! Se ficasse, aos 23 anos, teria sua vida marcada para sempre no seu pequeno vilarejo, como as viúvas da guerra que não receberam os corpos de seus maridos para enterrar o passado e iniciar uma nova etapa da vida. Viveria com a sombra de um retorno, isolada, excluída, como alguém que sofria de uma doença contagiosa. Se partisse, provavelmente partiria, seu mundo, os seus, seu coração, sua vida. Enfrentaria a distância, uma terra estranha, que não falava sua língua e não entendia seu sofrimento, a dor da separação. Se ficasse, suas meninas não teriam um pai. Se partisse, elas não teriam os avós, tios e tias, primos e todos aqueles que as amavam como suas.

No momento, para o sustento das filhas, além do trabalho no campo, plantando, colhendo, cuidando dos animais, do trabalho em casa, da costura pra fora, ajudando a irmã, havia encontrado um trabalho para o governo, carregando pedras na cabeça para as obras de reconstrução das estradas do município. Ela jamais imaginaria, que esse trabalho de 6 meses lhe renderia uma aposentadoria na fase madura da vida, paga pelo governo italiano, maior do que o governo brasileiro viria a pagar por 35 anos de trabalho.

Na sala, nos intervalos dos gritos e uivos dilacerantes, já se discutia documentos, passagens, valores, preparativos, a logística do transporte. A comunicação com os parentes ali estabelecidos, as possibilidades de acomodação, o retorno ou não. Como quando alguém morre mas a vida se impõe e segue adiante, havia vozes práticas e lúcidas, tentando avaliar a situação pelos prós e contras para a mãe, as filhas, os mais próximos que aqui ficariam, as perdas e os ganhos. Houve momentos de acusação, de apontar os dedos em direção aos culpados por tudo, por aquilo e pelo futuro. E, em meio aos gritos, abraços de desculpas, de conforto, de conformação.

Minha mãe olhou nos olhos da sua filhinha em seu colo, bem no fundo, e viu seu marido, na época de namoro, olhando para ela, nessa mesma escada, de uma maneira tão intensa e estranha, tão diferente e urgente, enquanto ela falava pelos cotovelos, sobre seus sonhos e desejos, à meia luz do início de uma noite quente, enquanto meu pai se aproximava lentamente, daquela boca dançante, e depois muito rapidamente, na velocidade da luz, beijou-a rapidamente. Ela o empurrou com força, virou-se e subiu as escadas correndo, bateu a porta atrás de si com o coração ribombando, de vergonha e prazer. Não falou com meu pai por 3 meses, mas aquele momento definiu quem ele era, quem ela era.

De repente, acordou dos seus devaneios, entrou na sala encarando a todos que a olhavam atentamente e disse: – Ho già deciso. Vado in Brasile.

CaMaSa

Um conto de pré-Natal

Eteu não era ateu, acreditava em tudo, no Bem e no Mal. Foi assim desde que nasceu. Era praticamente um São Tomé às avessas. Ao contrário do santo, que de tudo duvidava, ele tinha Fé absoluta em tudo e todos. Acreditou quando sua mãe misturou água ao leite da mamadeira para que ele ficasse mais forte. Também acreditou quando ela cantarolava uma canção de ninar que contava como seu pai, um homem rico e poderoso, havia partido deixando-a à míngua, sem ter como se sustentar, nem ao filho. Não que ele tivesse escutado de sua mãe essas coisas. Isso quem lhe diziam eram as freiras do orfanato em que havia sido abandonado, com 4 dias de vida, dentro de uma lata de azeitonas de 20 litros, forrada com jornal. As freiras que o acolheram, acostumadas com a dureza e solidão do coração dos homens, souberam que somente um milagre faria vingar aquela fraca e minúscula plantinha neste mundo.

Mas vingou! Talvez porque ele cria em tudo que lhe diziam, talvez porque uma força maior assim o queria. Aceitava qualquer sobra de alimento que ali restasse, porque eram dezenas de bocas sempre famintas e subnutridas. Sobreviviam da caridade, que é sempre muito menor do que a necessidade. Mas Eteu cresceu aceitando o pouco, e aceitava os remédios também, pois lhe diziam que faria bem. Acreditava nas peças e brincadeiras que os mais velhos lhe pregavam, e nos contos de horror assustadores que lhe contavam antes de dormir. Ficava a noite toda de olhos arregalados, na vigília, pois haviam dito que dessa forma não seria atacado pelos monstros e assombrações. Assim, passou a infância na cama, entre doenças várias e muito, muito sono.

Ele acreditou em Papai Noel, no Coelho de Páscoa, no nascimento pela virgem, na cruz e na ressurreição. Mais tarde também acreditou em Krishna, Buda, Maomé, Olodumaré e todos os orixás. Foi devoto praticante de todas as correntes religiosas que lhe cruzaram o caminho. Mas também homem de ciência, fiel à exatidão dos cálculos e dos números, da comprobabilidade das leis físicas e químicas. Coexistiam dentro de si a fé religiosa e a razão científica, como esses sorvetes bicolores de casquinha, que misturam os dois sabores no céu da boca. A quem lhe questionasse sobre a falta de prática do seu modo de ser, respondia que ambas eram lados da mesma moeda, bastava crer.

Na escola primária acreditava em cada coisa que lhe ensinavam os professores, absorvendo tudo com grande interesse e alguma confusão. Misturava as matérias em sua cabeça e as respostas, na maior parte das vezes, não se encaixavam ao gabarito exigido. Ralhavam com ele e o chamavam de burro, o que ele cria plenamente, assim como havia momentos de intenso brilho, nos quais o elogiavam com nomes de sábio e gênio, que também aceitava naturalmente. Praticava esportes como quem defendia a própria vida, sempre com resultados muito aquém do esperado, mas acreditava piamente nos resultados das partidas de futebol, basquete ou vôlei, em que invariavelmente suas equipes eram derrotadas. Adquiriu paixões fanáticas por vários times de futebol, Palmeiras e Corinthians, Flamengo e Fluminense, Cruzeiro e Atlético, Inter e Grêmio. Todos eram fruto de sua intensa alegria e sofrimento. E quando lhe perguntavam como podia ele ser apaixonado por duas equipes adversárias, respondia que eram apenas dois lados da mesma moeda…

Para comprovar sua teoria, certa vez, numa ensolarada tarde de domingo, resolveu assistir a uma partida de futebol entre Corinthians e Palmeiras, no Pacaembú, homenageando os dois times vestindo uma camiseta, confeccionada por ele mesmo, metade verde e branca, metade preta e branca, com os escudos de cada agremiação bordados sobre a cor do adversário. Entrou no estádio com uma jaqueta azul, e quando estava bem  no meio da divisa entre as duas torcidas, tirou o abrigo revelando sua louca invenção. É um pouco difícil explicar o que aconteceu naquele dia. Pessoas de estômago fraco talvez não consigam acompanhar os detalhes. Então me limito a dizer que nunca antes na história deste país alguém apanhou tanto, de tanta gente! Até os guardas e seguranças aproveitaram para dar umas bordoadas. Era tanto safanão, tapa e pontapé, que nem a bola do jogo apanhou tanto naquele dia! Sobreviveu por milagre e saiu do hospital direto para a delegacia, onde depois de prestados todos os esclarecimentos, acreditou que era justa a prisão por 4 semanas que o delegado lhe condenava.

Na prisão, confiou em todos os prisioneiros, vendo-os completamente inocentes de suas acusações. Ninguém ali havia roubado, estuprado ou matado, sendo vítimas de uma estrutura social decadente e intolerante, que não respeitava os direitos básicos daqueles cidadãos. Organizou motins e greves, fez jejum em protesto, até que se cansaram dele e o puseram na rua. Não se deu por satisfeito e voltou para a delegacia exigindo explicações. O delegado de plantão pacientemente lhe explicou quem eram aquelas pessoas e porque estavam presos, e ele acreditou sem sombra de dúvida!

Teve namoradas, e sempre acreditou plenamente nelas. Amava-as com todo coração e confiava em tudo que lhe diziam. Uma vez, cheio de entusiasmo, resolveu fazer uma surpresa à namorada da vez, que passava férias na casa de uns tios no interior, indo ao seu encontro sem avisar. Saiu pela manhã, pegou o busão que seguiu pela estrada até o anoitecer. Lá chegando, encaminhou-se para o endereço informado e, no caminho,  passou pelo coreto da praça central. Viu a amada à beira do quiosque, com os braços enlaçados no pescoço de outro rapaz, olhando-o com os olhos apaixonados e os lábios entreabertos num sorriso convidativo. Eteu postou-se diante dos dois de braços cruzados, abalado mas crente de que havia uma explicação plausível.

Semi-abalado em sua fé amorosa, Eteu ouvia mudo as explicações da garota, muito justas porém! Aquilo era somente a demonstração do quanto ela o amava, sujeitando-se aos encantos de outro homem, mas resistindo, firme e fiel ao seu verdadeiro amor. Ele aceitou as explicações, e inclusive se recriminou por ter sido tão imprudente e desconfiado, coisa que não era de seu feitio. Casaram-se, estabeleceram-se ali mesmo na pequena cidade do interior, e viveram sempre às voltas com essas provas de amor que ela se impunha, sempre testando seu caráter e honra, envolvendo-se com diversos homens para conhecer seus limites, em respeito ao marido. Ele nunca duvidou da honestidade da esposa, apesar de que nenhum dos quatro filhos era levemente parecido com ele, sendo cada um, bem diferentes entre si. E ainda compreendeu quando ela lhe disse que estava indo embora com aquele outro homem, numa missão de caridade, pois este tinha poucos tempo de vida e precisava dela numa viagem ao redor do mundo em seu iate de 200 pés… 

Passado algum tempo, no entanto, sozinho, com um filho de um ano, um de dois, uma de três e outro de quatro, viu-se numa tremenda dificuldade para sobreviver e ganhar o sustento das crianças. Perdeu o emprego porque faltava muito cuidando dos filhos, e acreditou quando o patrão lhe disse que a empresa passava por um momento de crise e eram necessários ajustes e cortes. Não tinha parentes próximos e acreditou quando os amigos lhe disseram que estavam em situação muito pior que a dele. Os dias foram passando, as crianças foram emagrecendo até o ponto de não mais reclamar da fome, e ele tomou a decisão de voltar para a capital em busca de algum apoio. Aqui chegando, foi imediatamente para o antigo orfanato que, para sua surpresa, agora era um edifício alto e moderno, todo envidraçado. Lhe disseram que o orfanato fechara há muito tempo e ninguém tinha alguma referência das irmãs de caridade.

Era o ano de 1966. Eram tempos difíceis para todos e não havia oportunidades disponíveis para um pai com quatro filhos pequenos a tiracolo. As portas estavam fechadas e, quanto mais perambulava e o tempo passava, mais se aproximava do desespero. Havia saído de casa no início de janeiro, já estavam no fim de dezembro, e até o momento só havia conseguido restos e abrigos sob pontes. Eteu tinha trinta e poucos anos mas aparentava muito mais. Tinha o rosto encovado, a pele seca e enrugada de sofrimento, os cabelos desgrenhados tingiam-se precocemente de branco.  Naquele dia, no auge do desespero, deixou as crianças sob a guarda de uma colega de rua e saiu na busca insana por comida uma vez mais. Seguia crendo, firme em sua fé inabalável. Passou diante de uma casa e percebeu um pequeno garoto, não mais de 8 anos. Em suas mãos um imenso pedaço de torta ou o que fosse, cheirando o perfume de boa comida. Olhou com desejo, pensou em roubar, mas pediu. O menino olhou para ele surpreso e fez que não, balançando a cabeça.

Foi a gota d’água! De repente, viu-se sem fé. Em nada mais acreditava e não tinha mais o que fazer. Virou as costas e saiu andando sem rumo, até que viu-se sobre uma pequena ponte de madeira, sobre um rio de águas volumosas e raivosas. Chovia muito, e os pingos da chuva nas águas do rio o convidavam para um passeio sem volta pelo rio barrento adentro. Eteu estava decidido. 

Só um milagre poderia salvá-lo…

CaMaSa

Cartas do Futuro

Daqui do futuro é possível, graças à evolução tecnológica, escrever para você! Vou tentar ilustrar o alto grau de civilidade que a humanidade alcançou, descrevendo as atividades banais do cotidiano dos habitantes deste belo planeta azul cinza. Realmente muita coisa mudou desde que fomos plantados por aqui e andávamos em harmonia com os demais bichos, quase nos confundindo com alguns. Sobreviver, buscando alimentação e abrigo, era extremamente braçal e cansativo, exigindo sujar as mãos de terra ou sangue. Além do que, grande parte das vezes, nós éramos o alimento! Felizmente o dom da inteligência colocou as coisas nos seus devidos lugares e hoje, daqui do futuro, colhemos os frutos da paz, harmonia e tranquilidade. Então, vou contar pra você como vive uma família comum nestes dias, sua rotina e as suas inter-relações com o todo, quando isso é necessário.

Basicamente vivemos em “células de sobrevivência”, que nada mais são do que abrigos super equipados com os mais variados recursos tecnológicos. Bem, uma pequena minoria é totalmente equipada. Algumas tem poucos equipamentos… outras não tem equipamento algum… E também tem muita gente que não tem “célula de sobrevivência” e sobrevive nas ruas mesmo. Mas, na média são construções seguras, amplas e arejadas, com grandes áreas envidraçadas e sistemas de “oxigenação termo-controladas”, garantindo conforto tanto nos dias quentes quanto nos dias mais frios. Na realidade, as construções abaixo da média, que são a grande maioria, enfrentam todo tipo de dificuldade, mas cada um se vira como pode… Muitas dessas “células” contam com sistemas de alimentação muito eficientes, onde se pode conseguir todo tipo de alimento nas “cabines frigo-reguláveis”, com carnes, verduras, legumes e frutas em profusão. Tudo pode ser levado aos “equipamentos de cocção alimentadores” para saciar os apetites mais diversos e refinados. Temos também “sistemas de descarte automáticos” para sobras e restos, que são levados para não sabemos bem aonde e se são utilizados para reaproveitamento matando a fome de algo ou alguém. Mas isso não vem ao caso. O importante é que vocês percebam o quanto evoluímos e como tudo funciona bem.

Eventualmente saímos de nossa “célula de sobrevivência” para alguma atividade externa. Para isso utilizamos “cápsulas de transporte” sofisticadíssimas, verdadeiros receptáculos de metal e vidro, que nos transportam através de um engenhoso “sistema de flutuação a ar vaso-circular-comprimido de borracha”, pelas ruas e avenidas perfeitamente calçadas, iluminadas e sinalizadas. Praticamente corremos sentados, sem tocar o chão, confortavelmente acomodados em poltronas de couro legítimo, observando, de dentro de um ambiente climatizado e com música ambiente, a paisagem externa com eventuais cenas de pessoas, aparentemente, com um gosto estranho para se vestir e asseio duvidoso, andando a pé, o que é totalmente desaconselhável, já que para nos exercitar contamos com as “esteiras eletrônicas de atividade corporal”. Cada um sabe de si, mas como eu ia dizendo, temos também “cápsulas de transporte” coletivos, e até subterrâneos, onde, dependendo do grau de civilização do país, pode ser até chique utilizar. Existem também “cápsulas” aéreas e marítimas, de todos os tamanhos e capacidades, transportando milhões de pessoas de um lado para o outro, gerando uma quantidade gigantesca de monóxido de carbono, contribuindo para esse belo tom azul-acinzentado do nosso planeta. Existem variações utilizando eletricidade, hidrogênio e outras alternativas não-poluentes, mas que não são economicamente justificáveis para uso em grande escala.

Assim nos locomovemos de uma “célula de sobrevivência” para outra, ou para as diversas “estruturas sócio-psico-organizadas” de trabalho, saúde, educação e consumo ou lazer disponíveis. 

As “estruturas de saúde” são grandes e eficientes espaços para a solução de problemas aflitivos da composição biológica humana. Bem… alguns são muito eficientes, frequentados por aqueles que ocupam certos cargos e funções extremamente reduzidos e específicos. A grande maioria no entanto ainda utiliza atendimentos baseados em orações, fé e esperança. Há centros especializados em atendimento animal, com tratamento muito mais humanizado do que para a grande maioria dos seres humanos!

Já as “estruturas de educação” descrevo com o maior orgulho! Nelas são depositadas todas as crianças que aos poucos vão deixando de ser fofas e começam a falar, gritar e reclamar de tudo, deixando seus pais malucos. Então passam a fazer tudo isso, em conjunto com diversas outras da mesma idade, em salas hermeticamente fechadas, aprisionadas e quase controladas por profissionais altamente gabaritados, treinados para conviver em meio à algazarra e balbúrdia. Pouco a pouco as crianças vão evoluindo, passando pela encantadora fase da agressividade juvenil, com foco principal nos professores, até chegar aos grandes “centros universais de pré-adultologia”, onde é estimulado fortemente a prática de contestação estéril, de resultados constantes e improdutivos, e as experimentações, constantes e improdutivas,  de todas as substâncias psico-álcool-viajandólica disponíveis, possíveis e inimagináveis. Terminam essa fase prontos para enfrentar a vida adulta, comandando os funcionários do papai, fazendo todo tipo de arte e abreviando vidas. Prontos para o trabalho! Muitos acabam não oferecendo benefício algum para a sociedade e seguem a carreira política.

As “estruturas de trabalho” trazem uma solução muito inventiva. Todos os bens e serviços foram transformados em mercadorias, que são trocadas entre todos de acordo com a necessidade de cada um. Usa-se um engenhoso sistema de pagamentos através de valores numéricos proporcionais à quantidade de horas consumidas na produção e ao valor intrínseco do produto ou serviço em si. Os valores são transacionados por uma terceira estrutura que cobra uma taxa variável em cada transação. Existem diversas estruturas, públicas ou privadas, que também cobram taxas sobre as transações, de tal maneira que aquele que tem alguma coisa para receber, acaba recebendo uma porcentagem muito menor do que deveria realmente receber. Desse modo, cria-se uma grande ilusão de que quem trabalha acha que está trabalhando e quem paga pensa que está pagando, e tudo vai funcionando de tal forma que a riqueza segue um fluxo constante de concentração. Desculpe, esse tema deve ser muito complicado para você que vive no passado. Não era minha intenção! Vamos voltar para coisas mais simples.

As “estruturas de oxigenação”, por exemplo, são espaços amplos, com muitas áreas verdes e espaços para esporte e lazer. Saímos de nossa “célula de sobrevivência” com nossa “cápsula de transporte”, nos conduzimos até o “abrigo estacionário de cápsulas” e praticamos a “caminhada passo a passo em esteira” sem esteira. O que é extremamente saudável e revigorante! Evidentemente existem muitas outras “estruturas de oxigenação” gratuitas, sem manutenção e segurança, onde a grande maioria da população corre o risco de perder a vida, ou algo muito pior, como o “APP – Aparelho Particular Pessoal” de comunicação.

Assim é o futuro: uma intensa e contínua inter-relação entre “células de sobrevivências”, “cápsulas de transportes” e “estruturas sócio-psico-organizadas”, gerando o atendimento das necessidades animais, racionais e irracionais, desse resquício de projeto divino chamado Ser humano.

Espero ter contribuído de alguma forma, oferecendo uma visão ampla sobre este que tem sido motivo de dúvidas e apreensão de muitas pessoas: o Futuro. Infelizmente, ainda não encontramos uma maneira de receber um feedback das gerações passadas, que se encontram na pré-história da “Era da Comunicação”, ainda engatinhando nesse processo. Felizmente algumas tentativas, aqui e acolá, tem chegado até nós através de envios de ícones rudimentares, praticamente pictogramas pré-históricos representados por um Positivo, um Coração ou Palmas. Eventualmente recebemos uma expressão ou outra, como um “Lindo”, “Muito Bom” ou “Parabéns”! Mas raríssimos são aqueles que arriscam compor uma frase completa ou uma análise mais estruturada.

Na real, quando menos se espera, você está no futuro, pois ele, assim como o passado, está em você. De qualquer maneira, por trás de toda a evolução e tecnologia, avanços ou retrocessos, existe a base de tudo, em pele, carne, sangue e ossos, entendimento e essência. E deve ser este o objetivo principal de cada um: a consciência da verdadeira felicidade em seus corações, infinita e real. Esse é o poder das pessoas. Só assim podemos conseguir as mudanças. Pois o futuro é somente o resultado de um presente fruto de um passado.

CaMaSa

Imagem: MAUROCOR

Os Assaltos – Parte 4

Enquanto Baruch dava seu último suspiro, Ruby deixava a cozinha e a despensa vazias para trás. Estavam tão abandonadas que nem os ratos ainda permaneciam por lá. Comida e bebida não frequentavam aqueles aposentos há muito tempo! Andou lentamente por toda sala de estar, cheia de sofás puídos, mesas empoeiradas e abajures mortos, deixando pegadas na poeira suja acumulada no chão. Subiu lentamente a grande escada principal, iluminada eventualmente por raios e relâmpagos cada vez mais intensos.

Mané havia deixado Tanaka de guarda no topo da escada caracol e tateava as paredes procurando por Genaro. Chegou ao grande parapeito circular e o percorreu até chegar ao lado oposto da escada. Encontrou uma reentrância na parede onde havia uma pia de pedra com metais dourados. De cada lado dessa bancada havia  banheiros com vasos sanitários e portas decoradas com figuras, femininas e masculinas, de madrepérola. Experimentou a torneira que cuspiu uma água fria e de gosto ruim. Matou a sede assim mesmo e enquanto limpava a boca na manga da camisa, sentiu uma fedentina pavorosa de esgoto. Se perguntou se viria do ralo da pia, quando ouviu um gemido assustador vindo de uma das portas. Arrepiou-se de pavor e, mais por medo do que por coragem, perguntou:

– Quem está aí?

– Uma alma, respondeu Zé, de olhos arregalados, todo cagado. 

– Que queres? Pelo fedor de enxofre vens dos quintos dos infernos. Devolveu o portuga de pulso acelerado.

– Sou de Garanhuns, seu lazarento. Poucos são os que me desafiaram e sobreviveram pra contar! Revidou o Zé, já pensando em pão quente com manteiga, um pingado e uma salada de frutas com groselha e aguardente.

– Pois vá-te daqui, infeliz! Aqui tens um cristão de dois dobrados, protegido da Virgem da Lata de Azeite e de São Bacalhau Salgado.

Aquilo atingiu Zé como um soco no estômago. Ele não teve outra alternativa senão lançar uma longa e potente bomba de gás. Mané atingido no nariz, saiu de lá cambaleante, em busca de ar puro. O outro aproveitou a oportunidade e abandonou o pobre vaso de porcelana à própria, e lastimável, sorte.

Nesse exato momento, sem que percebesse a presença dos dois homens, Tanaka chegava ao lado esquerdo do balcão, notando a ampla escada de madeira que se esparramava para baixo. Andou no escuro até o centro dela, no mesmo instante em que Ruby vinha do lado oposto em sua direção. Quando estavam a menos de meio metro um do outro, quase trocando suas respirações, um raio potentíssimo iluminou o ambiente, com clareza prateada,  por três longos, e quase eternos, segundos. Perceberam-se, viram-se, olharam-se e amaram-se intensamente como ninguém antes havia se amado. A magia da tempestade, a cega paixão dos olhos de vidro, a carência aguda de toda uma vida de incertezas, juntaram-se, tramaram e arrebentaram as máscaras e os mitos. Nunca haviam visto rostos tão ávidos de amor, e tão bonitos. Ruby viu-se menina inocente, nos seus 13 anos, diante de um príncipe. Tanaka viu dois olhos azuis, um normal e um de vidro, assim como ele. O tempo parou, congelou-os naquela paixão infinita que dura o espaço de tempo entre o inspirar e o expirar do ar nos pulmões.

Alheios a tanto amor e paixão, Zé e Mané, por razões próprias, deixavam o lugar em que estavam o mais rapidamente possível. Na pressa, nosso companheiro Zé pisou no rabo de um gato preto e magro que dormia o sono dos justos. O bichano, pela dor e pelo susto, soltou um grito apavorante, de gelar os ossos, que ao Mané pareceu Belzebu tomando um chute no saco, e ao Zé, a sirene de uma rádio patrulha. Correram 100 metros rasos em 8 segundos, cada um percorrendo o parapeito circular em direções opostas. Quando estavam a menos de 2 metros de se chocarem, bateram nas costas de dois corpos em transe, Ruby e Tanaka, que estavam bem no meio da escada. Os dois amantes chocaram-se tão violentamente que, com o impacto, os olhos de vidro saltaram das órbitas e desceram a escada, quicando os degraus. Tec, Tec… Tec Tec, Tec Tec… Tec Tec Tec, Tec Tec Tec… até rolarem no piso lá embaixo, parando cada um em um lugar. 

Apavorados e envergonhados, os dois enamorados desceram a escada desesperados, tropeçaram e rolaram até o chão. Ruby engatinhava procurando a bola de vidro com as mãos, enquanto Tanaka jazia desacordado nos últimos degraus. Quando ela encontrou um olho, foi agarrada pelos braços por Alfa Berto e Zé, que gritavam alucinados:

– Corre Ruby! A casa caiu… É a polícia. Cooorre!

Ela tentou resistir, mas o medo da prisão e a força dos dois homens, foram muito maiores. Deixou-se levar até o DKW estacionado diante da mansão e aos poucos deixou-se controlar pela razão.

Genaro deixou o aposento do falecido Baruch e, com a lamparina iluminando o caminho, encontrou Mané tentando reanimar o amigo japonês. Tanaka acordou com o Genaro explicando o que o ex-patrão tinha dito e o que havia acontecido, e calmamente saíram da casa, já noite alta, rumo ao próximo dia. 

Cada um dos seis tomou uma direção na vida…

Genaro tornou-se um pequeno empresário, sustentou algumas famílias de funcionários driblando as dificuldades da compra e venda, dos impostos altos e lucros baixos. Juntou em torno de si filhos, netos e bisnetos, até que amanheceu um dia em sua cama duro e gelado, no rosto uma expressão de missão cumprida.

Zé deixou o emprego de servente de pedreiro e conseguiu uma vaga na indústria automobilística. Com as sementes teóricas plantadas pelo companheiro Alfa Berto na cabeça, vinculou-se ao movimento sindical e evoluiu, chegando à liderança de uma importante categoria de trabalhadores, reivindicando melhores condições de trabalho e uma sociedade mais justa. Mas não assumiu a responsabilidade por nada.

Mané vendeu sua parte na sociedade para o amigo e voltou para a terrinha, onde o aguardavam sua mulher e seu filho, seu sogro e sogra, com festa e terno de casamento prontos. Fez mais alguns filhos, investiu e prosperou com o capital recebido, plantando oliveiras e parreiras, sonhando sempre com um Brasil que deixou para trás.

Alfa Berto voltou a ser simplesmente Alberto, entrou para a faculdade de Administração de Empresas e assumiu os negócios da família. Levou os negócios do pai a um patamar muito elevado, formou cartéis, comprou políticos, juízes e presidentes. Construiu um império de corrupção multinacional e estádios de futebol, entre outras obras monumentais.

Ruby foi presa numa batida rotineira. Identificada como subversiva, foi deportada junto com outros conterrâneos para a Argentina. Lá enfrentou a violência de uma ditadura implacável que não mascarava a situação de conflito interno, declarando a guerra abertamente aos inimigos. Alguns meses depois de confinamento em porões insalubres, foi convidada para um passeio de avião. A 4.000 pés de altura, com a porta da aeronave aberta, pediu ao algoz um último desejo. Que lhe tirassem o capuz da cabeça. Foi lançada para um vôo solitário na noite escura e gelada, com as mãos firmemente amarradas às costas. Abriu os olhos, um azul e um negro de vidro, para admirar a paisagem, com a coragem infinita dos que acreditam num mundo mais livre e justo, e mergulhou sem volta no mar profundo.

Tanaka também pegou sua parte da sociedade e caiu no mundo à procura de sua amada. Perguntava a todos se haviam visto uma deusa de olhos azuis que havia roubado seu olhar e seu coração. Começou a pichar mensagens em postes e muros, placas e monumentos, até que foi preso e interrogado. Consideraram suas frases desconexas subversivas e o prenderam sem direito à defesa, por questões de segurança nacional. Sofreu, apanhou, foi afogado em tambores de água suja, pendurado em pau de arara e tomou choque nos testículos. Nada confessou porque nada tinha para confessar, somente sua paixão pela moça da mansão. Cansaram-se dele e o transferiram para o manicômio, onde sofreu, apanhou e foi mais maltratado e dopado. Passado algum tempo, o puseram na rua, mais confuso e doente do que quando entrou. Foi socorrido por um parente muito idoso, um tio que morreu lhe deixando ferramentas de marcenaria da mais alta qualidade. Serrotes, martelos, formões, chaves-de-fenda e plainas de precisão. Um dia bateu à porta da oficina do meu pai que o aceitou prontamente. Trabalhava a madeira com perfeição, mas tinha o hábito de escrever em pedaços de madeira suas mensagens que ninguém compreendia. Não conversava com ninguém e se alguém tentasse uma aproximação era repelido com violência verbal. Falava somente o necessário comigo, quando aos 12 anos eu fazia o pagamento dos funcionários. Sentava-se diante de mim, eu apresentava as contas e, se tudo estivesse do seu agrado, repetia a história da linda moça que roubara seu olho numa noite sem fim.

* * *

Dois meses depois da morte de Baruch, um grupo de agentes da C.I.B. – Central de Inteligência Brasileira, fora designado para uma missão numa mansão abandonada na Avenida Paulista. Havia suspeitas de movimento terrorista no local e o proprietário, um judeu bilionário, havia desaparecido deixando toda sua fortuna para instituições de caridade. Invadiram o local arrombando a porta principal e deram início às buscas. Chegaram a um pequeno aposento, onde jazia um corpo em decomposição, cheirando muito mal e esparramando fluidos já ressecados pelo chão.

– É sempre assim. A gente sempre chega quando a merda já aconteceu, disse o sargento Moura.

– É… a gente que vai ter que limpar isso daí… respondeu o Cabo Naro.

CaMaSa