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Capítulo 3: Um Novo Mundo

O padre Benedetto saiu correndo pela sacristia atravessando a nave central em direção às portas da igreja. Passou como um raio pelas beatas que ficaram com as mãos das saudações paradas no ar, perplexas. Nunca viram o santo roliço padre correr tanto assim! Nem mesmo na direção de um belo prato de Fusilli acompanhado de um copo de vinho… Aí tem! E seguiram o reverendo que balançava pelos ares a batina preta. Felitto é uma cidade pequena, tem o mesmo número de habitantes, a cerca de dois mil, há pelos menos 1.000 anos. Um padre correndo com meia dúzia de beatas atrás não passaria despercebido mesmo. Assim, pouco a pouco, uma crescente caravana, ávida por informações, chegou à porta da casa dos meus avós.

Meu nonno Giovanni abriu a porta e, com grande espanto, viu o sacerdote no alto da escada, todo aflito e suado, já amparado por membros da comitiva, que só aumentava. Convidou-o a entrar e, junto com ele, entraram algumas das autoridades locais já presentes: o prefeito e o vice, o guarda municipal, o médico, o diretor da escola, além de dois tios, três primos e seis vizinhas. A casa era muito humilde e pequena, construída pelas pedras milenares que estavam ali desde sempre, composta logo na entrada por um único ambiente que fazia as vezes de sala, cozinha com fogão a lenha e sala de almoço. Havia ainda dois quartos e um banheiro anexo, desafiador nos dias frios. Deram alguns minutos para o santo padre, que retomava o fôlego lentamente, sentado na melhor cadeira disponível. Quando terminou o copo de vinho oferecido, de uma golada, puxou um envelope do bolso da batina e retirou a folha de papel timbrado da diocese de São Paulo, Brasil. Olhou ao redor, fixou os olhos na minha mãe e pôs-se a ler em tom solene:

“Ao pároco da cidade de Felitto, província de Salerno, Itália,

Recebemos em nossa diocese, na Igreja Santa Margarida dos Aflitos, no bairro da Cachoeira Seca, cidade de São Paulo, um pedido de solicitação de casamento entre Maria Bernarda Auxiliadora Silva, brasileira, natural de Amaralândia, MG, e Pasqualino Santangelo, italiano, natural de Felitto, Salerno, Itália.

Gostaríamos de saber, por parte de Vossa Reverendíssima, se há algum impedimento para esse enlace?

Mui respeitosamente…”

Ahhh! O Brasil… O Brasil…

Quando meu pai se viu um homem feito, casado, com uma filha de colo e outra a caminho, trabalhando em sua pequena “falegnameria“, fazendo todo tipo de serviço com a madeira conseguida com as próprias mãos a quilômetros, em troca de comida e alguns centavos, sem perspectiva alguma de melhora nos próximos séculos, destruída que estava a Europa do pós-Guerra, tomou-se de encanto pelos rumores de uma vida melhor vindos da América. Muitos dali já haviam partido para diversos pontos do planeta, alguns voltando para suas famílias com recursos, valores que não seriam conseguidos numa vida naquele lugar. Quanto mais a miséria e dificuldade aumentavam, cresciam os louvores de oportunidades e riqueza de terras exóticas, inexploradas, onde um homem sozinho poderia conseguir independência. Havia programas do governo incentivando os cidadãos a tomarem esse rumo, aliviando, dessa maneira, a carga administrativa de um Estado dilacerado pelas más escolhas. Um desses programas chegou a Felitto e arrastou consigo um punhado de homens jovens e corajosos dispostos a vencer a pobreza. Entre eles estava meu pai.

Foram até Nápoles, onde um navio aguardava atracado. Era tanta gente no porto, filas enormes serpenteando em direção às escadas inferiores do navio, que dava a impressão que a Itália ficaria vazia! Gente do Norte e do Sul, muitos do sul, a grande maioria do sul, espremiam-se nervosamente, aguardando a vez de subir a bordo. Muitos, como meu pai, jamais haviam saído de suas cidades, mas, como dizia o dito popular, Il Mondo é Paese, significando que não importa quão longe se está do seu pequeno vilarejo, ele sempre estará com você.

Assim que, 17 horas depois de chegar ao porto, meu pai estava a bordo de um navio velho, mal cuidado e carcomido pelo tempo e o sal marinho, com a proa apontada diretamente para a Estátua da Liberdade de uma América rica e promissora. Algumas horas depois, com as costas da Europa já pela proa, a embarcação começou a desviar lentamente à esquerda, numa curva descendente que só terminou 15 dias depois, em águas brasileiras, bem ao sul, mais precisamente no Porto de Santos.

Dio mio, che bello!” O impacto deste país sobre um imigrante é avassalador. Eram os anos 50, tudo ainda era muito virgem, muito natural. O calor, a brisa marinha, o verde e amarelo da vegetação… As casas não eram pesadas, de pedra, mas de tijolos, as mais elegantes rebocadas e pintadas. Pareciam mover-se com o vento, como os coqueiros dançantes das praias de areia branquinha, avistadas do navio antes de atracar. Separavam o verde transparente das águas do mar, daquele de tom mais forte da vegetação que descia do alto das montanhas distantes.

Por um momento, sentiu que havia feito a escolha certa, com o coração expandindo-se num contentamento jamais sentido. Amplo!

Os espaços… Tudo era muito espaçoso, à vontade. As pessoas também, mais afáveis, sorridentes. As mulheres, que lindas eram as mulheres! Claro, não pra ele que era casado, com uma filha de 3 anos e uma por nascer. Não pra ele que acabara de chegar, e logo rumaria para a cidade de São Paulo, de clima um pouco mais frio, muito bom, e ainda não havia sentido os ataques da solidão, do vazio, da nostalgia que um dia se transformaria em saudade.

Toda essa alegria de viver era para a gente daqui, com seus tons de pele multicoloridos que iam do branco da lua até o negror do carvão! Mas esses tons variados eram extremamente apreciáveis nas moças que passavam pelas ruas e avenidas, despreocupadas e sorridentes, cada vez mais convidativas, à medida que o tempo ia passando e o desejo de companhia ia aumentando. Afinal, naquela época o homem ainda tinha certas garantias e o dever de provar sua masculinidade. E, pensando assim, vencido pela distância, pelos dias, semanas e meses e anos, pelo tempo e a saudade, que naquela altura já havia se apresentado numa forma muito além da nostalgia, bem dolorosa, sucumbiu. E deixou-se levar pelos prazeres de um novo mundo!

CaMaSa

Capítulo 4: O Beijo Roubado

O clima era tenso e pesado. Estavam presentes meu nonno Giovanni, a irmã da minha mãe, zia Onorina, e seu marido, Antonio Rizzo, que trabalhava na Alemanha. Minha nonna Grazia chorava e soluçava alto num canto da sala, amparada pela irmã mais velha do meu pai, zia Veneranda. Sentado, ruminando pensamentos e palavras desconexas estava meu nonno Cármine, ladeado pelas filhas, Élida e Anna. Vincenzo, o mais novo dos irmãos do meu pai, estava na Venezuela, trabalhando como pedreiro. Antônio estava no Brasil, mas de lá não chegavam notícias há muito tempo! Padre Benedetto já estava longe, tinha cumprido sua missão.

Minha mãe estava encostada no batente da porta de entrada, no alto da escada, com o olhar perdido e distante. Nos degraus, brincando inocentemente estavam minhas irmãs, Rachel e Grazia. A conversa entre as duas atraiu a atenção de minha mãe que, por um momento, a levou dali, vendo-se ela mesma criança e despreocupada. Olhou com carinho para as filhas, como se fosse uma delas.

Rachel era fofinha, calma e tranquila. Tinha os cabelos lisos, escuros, as bochechas rosadas. Ela não sabia se tinham esse tom naturalmente ou se eram resultado dos beliscões carinhosos que todos faziam questão de lhe dar. Minha irmã aceitava essas manifestações sempre resignada, incapaz de dar um pio. Onde era colocada ficava, concentrada em si mesma ou em qualquer atividade manual que lhe caísse em mãos. Naquela altura, com 4 para 5 anos de idade, já era hábil no crochê.

A pequena Grazia, magricela e loirinha, era um terremoto! Ágil, saltitante, irrequieta, era a versão oposta exata da irmã. Eram necessários sempre dois pares de olhos sobre ela, de dia ou de noite. Nascera sem a presença do pai, não que isso fosse fazer grande diferença, mas acabara criando uma relação paterna com meu avô, que era um homem fino e sensível, de modos calmos e pacíficos. Com ele minha irmã se acalmava, esforçava-se para entendê-lo e conseguia aprender as primeiras letras e números, tão difíceis de assimilar na escolinha das freiras. Ali vivia diabruras, derrubando latas, espalhando a comida pela mesa, pisoteando flores no jardim, escalando a pilha de roupa branca, lavada e passada, e derrubando pelo chão. Não o fazia por mal. Tinha herdado esse gênio arteiro e inquieto do pai.

O pai das suas meninas… Lembrou-se do dia das núpcias. A cerimônia na igreja conduzida pelo padre Benedetto, em latim. O coral, primeiro entoando músicas sacras pomposas, depois finalizando com uma melodia leve, suave, até alegre. O sim envergonhado dele, expelido por um cutucão na barriga. Risos na igreja. O embaraço ao virar-se de costas para o altar, andar pela nave central, sorrindo para as pessoas. Os gritos de exaltação na porta e a procissão seguindo os noivos até a praça central, onde mesas improvisadas aguardavam os noivos e convidados com o que de melhor a bondade dos seus corações ali depositara. Havia música também, as belas canções napolitanas elevando a moral de todos, apesar dos tempos difíceis.

Pensou e avaliou suas opções. Já se haviam passado 4 anos desde que eles acordaram naquela manhã com a decisão tomada, a pequena e gasta mala pronta, com algumas peças de roupa, meia dúzia de ferramentas pequenas, um pouco de queijo, um pouco de trigo, um pouco de dor e alguma esperança. Nada era certo, como juras de amor juvenil, ardentes, voláteis, inseguras.

Dentro de casa a temperatura subia e descia conforme minha nonna chorava e blasfemava, acusando os céus e a má sorte. Alcançava um pico de dor e sofrimento altíssimo e despencava logo em seguida, num estado de catatonia. Nonno Giovanni lamentava em silêncio, sabendo que não poderia tomar uma decisão pela filha. Cada um deve carregar a própria cruz. Os demais murmuravam baixinho, preparavam o café e aguardavam uma solução que, seja qual fosse, ninguém ali gostaria de enfrentar.

A pequena Grazia pulou a irmã sentada no degrau, caindo de encontro à mãe que as observava um lance acima. Pegou a menina nos braços que, com as mãozinhas no rosto da mãe, disse: – Mamma, non piange…

Que dor! Que raiva! Se ficasse, aos 23 anos, teria sua vida marcada para sempre no seu pequeno vilarejo, como as viúvas da guerra que não receberam os corpos de seus maridos para enterrar o passado e iniciar uma nova etapa da vida. Viveria com a sombra de um retorno, isolada, excluída, como alguém que sofria de uma doença contagiosa. Se partisse, provavelmente partiria, seu mundo, os seus, seu coração, sua vida. Enfrentaria a distância, uma terra estranha, que não falava sua língua e não entendia seu sofrimento, a dor da separação. Se ficasse, suas meninas não teriam um pai. Se partisse, elas não teriam os avós, tios e tias, primos e todos aqueles que as amavam como suas.

No momento, para o sustento das filhas, além do trabalho no campo, plantando, colhendo, cuidando dos animais, do trabalho em casa, da costura pra fora, ajudando a irmã, havia encontrado um trabalho para o governo, carregando pedras na cabeça para as obras de reconstrução das estradas do município. Ela jamais imaginaria, que esse trabalho de 6 meses lhe renderia uma aposentadoria na fase madura da vida, paga pelo governo italiano, maior do que o governo brasileiro viria a pagar por 35 anos de trabalho.

Na sala, nos intervalos dos gritos e uivos dilacerantes, já se discutia documentos, passagens, valores, preparativos, a logística do transporte. A comunicação com os parentes ali estabelecidos, as possibilidades de acomodação, o retorno ou não. Como quando alguém morre mas a vida se impõe e segue adiante, havia vozes práticas e lúcidas, tentando avaliar a situação pelos prós e contras para a mãe, as filhas, os mais próximos que aqui ficariam, as perdas e os ganhos. Houve momentos de acusação, de apontar os dedos em direção aos culpados por tudo, por aquilo e pelo futuro. E, em meio aos gritos, abraços de desculpas, de conforto, de conformação.

Minha mãe olhou nos olhos da sua filhinha em seu colo, bem no fundo, e viu seu marido, na época de namoro, olhando para ela, nessa mesma escada, de uma maneira tão intensa e estranha, tão diferente e urgente, enquanto ela falava pelos cotovelos, sobre seus sonhos e desejos, à meia luz do início de uma noite quente, enquanto meu pai se aproximava lentamente, daquela boca dançante, e depois muito rapidamente, na velocidade da luz, beijou-a rapidamente. Ela o empurrou com força, virou-se e subiu as escadas correndo, bateu a porta atrás de si com o coração ribombando, de vergonha e prazer. Não falou com meu pai por 3 meses, mas aquele momento definiu quem ele era, quem ela era.

De repente, acordou dos seus devaneios, entrou na sala encarando a todos que a olhavam atentamente e disse: – Ho già deciso. Vado in Brasile.

CaMaSa

São Pneu

Quando mudamos da rua Dom Bosco, na Mooca baixa, para a Professor Elias Vita, no Parque da Mooca, foi como soltar um sagui da gaiola na floresta. Saímos de uma casa a pouco mais de 1 quilômetro do marco zero da Praça da Sé, à época o verdadeiro centro comercial de São Paulo, para uma fazenda de sol e luz! A Dom Bosco era um lugar cinza, escuro, o sol não fazia questão nenhuma de dar as caras por lá. Nossa casa ficava a um quarteirão de distância do Rio Tamanduateí, que vira e mexe se esparramava até nossa calçada, com suas águas escuras e fétidas. Certa vez choveu tanto, mas tanto, que o nível do rio subiu muito além do normal, chegando até ao oitavo degrau da escadaria do nosso prédio! Ficamos ilhados por mais de três dias, sem condições de sair de casa para nada, nem para comprar comida. Quando a chuva diminuía eu saía no balcão e ficava observando a água marrom, repleta de manchas de óleo, passando vagarosamente pela rua. Não podíamos nos queixar. Muitas famílias moravam em porões, a água chegando até o teto, destruindo tudo do pouco que tinham.

Nós nos mudamos para um sobrado geminado com três quartos, sala, cozinha, três banheiros, quintal e lavanderia! Era uma tremenda evolução no padrão, confirmada pelo cheiro fresco de tinta nova. Na rua, além do sobrado ao lado, havia mais cinco ou seis casas, além da construção inacabada do futuro hospital São Rafael, que nunca foi concluído. E mamona, muita mamona. Meu Deus do céu, quem teria plantado tanta mamona assim? Tinha mato e pé de mamona desde a rua Juatindiba, futura rua Juventus e única asfaltada além da minha, até os tanques da Esso, que para mim, aos 12 anos, pareciam estar a centenas de quilômetros. A rua terminava num morro alto, muito mais alto do que um sobrado de dois andares, cortando a terra dos dois lados, formando paredões verticais muito íngremes. Sobre ele estava plantada uma das torres de transmissão de eletricidade, estilo Eiffel, magras, elegantes, altíssimas. Lançavam umas para as outras fios pretos longos como cabelos lisos e esticados.

Tudo era novidade, assim como a família de seis filhos que morava numa das casas. Uma das crianças era um menino um ano mais novo que eu, gordinho e muito simpático. Ficamos amigos imediatamente e protagonizamos uma série de aventuras típicas da pré-adolescência. Certa manhã, resolvemos experimentar aquilo que tanto interessava aos adultos e era proibido para as crianças. Resolvemos fumar cigarros! Roubamos um maço pela metade da sua irmã mais velha, uma caixa de fósforos, e, discretamente, fomos para o campo do Democrático. A caixa d’água ficava no ponto mais alto do bairro, para que a gravidade fizesse seu trabalho. Ela ficava do lado norte da Avenida Paes de Barros, a mais importante e larga da região. De frente para ela, ao sul, estendia-se um declive, em princípio bem acentuado, até o bairro do Ipiranga, do outro lado do rio.

Do outro lado da avenida havia uma construção enorme, de um prédio de apartamentos de mais de 15 andares. O fundo dessa construção dava para um arco enorme, inclinado como um auditório gigante. Nas duas extremidades havia escadas muito altas, com quase 300 degraus. No centro, um platô liso formava um campo de futebol de várzea, com uma das traves no pé do morro, abaixo da construção, e a outra no lado oposto, de costas para uma rua de barro que descia atravessando a Juatindiba, passando ao lado do hospital João XXIII, seguia ao largo da cerca dos fundos do clube do Juventus e continuava até chegar na Esso.

Nesse campo imenso resolvemos, eu e meu amigo gordinho, experimentar essa autêntica delícia adulta de tabaco. Fumamos um cigarro inteiro cada um e eu, ao final, senti o mundo girando, o estômago revirando e minha boca vomitando… Nunca mais fumei. Mas aquilo me deixou com uma sensação de frustração intensa, daquelas que precisam ser recompensada de qualquer jeito. Olhei para o pé da trave e vi encostado um velho pneu. Uma ideia brilhante surgiu no momento. Uma competição entre nós para espantar o baixo astral! Faríamos o pneu rolar ladeira abaixo e quem o fizesse chegar mais longe, seria o vencedor da disputa.

Peguei o pneu despretensiosamente, aprumei e soltei. Ele começou a corrida titubeante, balançando como um bêbado de um lado pro outro, foi ganhando força, velocidade, quicando cada vez mais forte, mais rápido… nessas alturas já estava no meio do quarteirão, nós dois olhando um para o outro, olhando para o pneu, cada vez mais veloz… Aí meu Deus, que burrada! O besta do pneu não parava, já voava como carro de corrida o miserável e, finalmente, atravessou o farol vermelho da rua como se tivesse vida própria!

Nisso ouvimos um barulho assustador de um carro brecando bruscamente, mas sem chance de evitar o impacto. O motorista teve tempo de piscar os olhos antes de atingir o pneu que saiu voando alto, muito alto mesmo, como se fosse normal pneu voar. Não que nós estivéssemos ficado lá pra ver. Na velocidade da luz subimos uma das escadarias, chegando na avenida em menos de três respiradas. Descemos até a rua da Mooca e só voltamos para casa muitas horas depois.

Quando voltamos pra casa soubemos do “acidente”… Ninguém sabia dizer como aconteceu, mas parece que um pneu desceu ladeira abaixo e foi atingido por um Chevroletão antigo, com para-choques de metal, que vinha em grande velocidade. O pneu foi lançado com violência sobre uma viatura que vinha no sentido contrário. Voltou quicando na outra direção e bateu de raspão na cabeça de uma menina que estava engasgada com um bala presa na garganta. A bala voou longe enquanto a mãe, chorando desesperada, caia de joelhos no chão agradecendo a Deus nosso senhor! No carro havia dois homens e uma mulher. Sob o banco traseiro, camuflado e muito bem disfarçado, havia um pacote enorme com quilos de pasta de cocaína que seria usada para produzir muita droga. Os ocupantes do veículo foram levados à delegacia para averiguações e, ao que parece, não sairiam de lá tão cedo. 

Todos na vizinhança comentavam o fato e acrescentavam um pouco mais de drama e fantasia à medida que o tempo passava, de tal forma que já atribuíam à intervenção divina o surgimento milagroso do santo pneu. De fato, chegaram a fazer uma pequena coluna de concreto na esquina do ocorrido e fixaram o pneu com grapas de ferro, de tal modo que através dele se podia ver o exato local onde ele havia atingido a cabeça da menina. Começaram a colocar flores e laços de fita, pedidos de ajuda em pedaços de papel. Sua fama foi crescendo a cada dia, atribuindo ao agora Círculo Látex Divino da Amazônia as curas mais diversas, de caxumba a tendinite, espinhela caída a impotência! Colocavam a cabeça, os braços, as pernas no vão do pneu para receber as graças. Tiravam fotos com o aro formando uma moldura preta. Trouxeram um padre e água benta, um pastor com a Bíblia e um pai de santo. Quando chegou o rabino virou o maior encontro ecumênico da região em muitos anos. 

Uma noite, já hora avançada, enquanto todos dormiam e o pneu descansava de um dia de intensa romaria, forrado até a tampa de papel e flores secas, dois moleques arteiros atearam fogo à papelada e ficaram horas assistindo a fogueira ardendo e gemendo, com uma fumaça escura que ia da calçada na terra até o infinito do céu. Na manhã seguinte o pneu havia sumido… sem deixar marcas.

CaMaSa

Beijos

O primeiro beijo a gente nunca esquece, claro, mas as circunstâncias do fato podem torná-lo épico, dramático ou absolutamente embaraçoso. Aos 9 anos eu acompanhava a cena musical brasileira através dos olhos e ouvidos da irmã mais nova. Os festivais de música popular brasileira (MPB), com seus artistas cabeludos, esquisitos e vestidos de uma forma estranha, de um lado, e a Jovem Guarda, com seus artistas cabeludos, esquisitos e vestidos de uma forma estranha, do outro. Para mim era tudo absolutamente visual e cenas como a de um cantor quebrando o violão no chão e jogando o instrumento todo arrebentado sobre o público que o vaiava incessantemente, ou a de senhoras, já avós, jogando pétalas de rosas no monitor da TV, em preto e branco, para alguém que as mandava para o inferno, eram bem marcantes.

Na época eu achava que ambos movimentos defendiam posições distintas, com a turma da MPB defendendo uma arte musical própria, nacional, de raiz, falando sobre as necessidades do povo e suas aspirações, propondo uma revolução cultural através da liberdade e da igualdade, e o pessoal da Jovem Guarda buscando na internacionalização da música e do jeito de ser, falar e se vestir, um estilo de vida que se queria alcançar através de um atalho, copiando o que já era sucesso comprovado. Com o tempo percebi que estavam do mesmo lado, que através de qualquer expressão artística, só é possível alcançar o próprio sucesso, gigantesco e duradouro para alguns, muito pequeno e curto, em termos de sustento, para outros. Que não é dessa forma que se conduz uma nação e seu povo a um patamar mais elevado, ainda que alguns ainda creiam sinceramente nisso.

Mas era uma época de ídolos dourados, como hoje, e fãs alucinados, como hoje. Eu gostava de todos. As músicas eram muito boas e divertidas e alegravam um povo sofrido e com poucas perspectivas. Mas a verdade era que enquanto o pessoal da MPB fazia cabeças e agitava o público universitário, mais politizado, a turma da Jovem Guarda causava um furor apaixonado nas adolescentes de 8 a 80 anos. Certa vez o Príncipe da juventude faria uma apresentação no colégio Firmino de Proença, perto de casa. Não sei se eram os olhos verdes ou os cabelos longos jogados sensualmente para o lado, mas suas músicas românticas e melosas provocaram um verdadeiro tumulto, sendo necessário a intervenção da polícia militar para conter a multidão. Eu acompanhava tudo na segurança da cozinha/ateliê de costura de casa, recebendo notícias picotadas através da rede de informações das minhas irmãs e suas amigas. Se com um Príncipe a coisa já tinha sido tão intensa, imagina o que seria um show do Rei!

O Rei, e sua corte, não ia a colégios. Suas apresentações só aconteciam em horário e local definidos, num padrão único que seguia um ritual planejado com mão de ferro. O sonho de toda jovem era participar desse conto de fadas televisivo ao vivo e a cores, já que as transmissões ainda eram em tons de cinza. Naquele ano mudara-se para nosso prédio uma encantadora família carioca, com seu jeito diferente e divertido de falar e viver a vida. O pai viera a trabalho e trouxera a tiracolo a mulher, dois filhos mais velhos, e duas filhas Sony e Quinha. Sony era a mais nova, rosto rechonchudo e cabelos crespos, com um jeito de falar choramingado que provocava um humor involuntário em qualquer situação. Quinha era um pouco mais velha, morena jambo, muito bonita, com formas acariocadas perfeitas que provocavam devaneios nos meninos por onde passava. Eu, que de uma maneira inocente sempre gostei de meninas, fiquei completa e platonicamente apaixonado por aquela beleza exótica. Como as duas eram alucinadas pelo Rei, criaram um vínculo imediato com minha irmã e eu, por motivos óbvios, passei a me interessar cada vez mais pelo assunto, demonstrando até saber muito mais do que realmente sabia. Eu fazia parte desse minúsculo fã clube de três garotas sonhadoras, que passavam os dias trocando informações sobre cada detalhe dos cabelos, das roupas, das músicas, de tudo enfim que dizia respeito aos reis do iê-iê-iê. O grande objetivo do clube era participar do programa num domingo de sonho. E sonhavam a valer, planejando minuciosamente como atingiriam essa realização, como comprar os ingressos, como chegariam até lá, com que roupas iriam, etc. Eu estava fora dos planos, mas sonhava com a mesma intensidade com o dia que a Quinha declararia sua paixão por mim, pegaria minha mão e passearia comigo pela rua, para grande espanto e admiração dos meus amigos.

Quem sonha com os pés no chão conquista e, de tanto insistirem e lutarem por isso, chegou o dia em que finalmente iriam ao show, conhecer de perto a Jovem Guarda. Haviam conseguido os três ingressos através de um amigo de um amigo do seu pai, e a alegria das meninas era tão intensa que mal se reparava na minha tristeza infinita. A semana, que para elas custava a passar, para mim se arrastou lentamente, fazendo de cada minuto um eterno calvário de sofrimento infanto-juvenil. Era duro demais! Não que eu quisesse conhecer pessoalmente esses ídolos, gritar suas músicas ou me descabelar. Eu só queria estar junto da Quinha, ouvir a sua voz e rir com sua risada. Mas, seja porque meu sonho era mais intenso, ou porque catapora era real e atacava crianças indiscriminadamente, Sony amanheceu o domingo com febre alta e com a pele toda pipocada. Sorte de uns, azar de outros, o ingresso caiu no meu colo, para minha felicidade. De uma hora pra outra saí de um inferno de dor para um paraíso de possibilidades. Banho rápido, roupas de festa, até um perfuminho! Embarcamos num ônibus até um lugar, descemos e pegamos outro que nos deixou em frente ao teatro. Um enorme aglomeração de jovens formava-se diante da porta, concluindo uma fila enorme que dava voltas no quarteirão. Eu ficava entre minha irmã e Quinha, que seguravam firmemente minhas mãos, recomendação muito específica de minha mãe. Eu suportava tudo com um leve sorriso de satisfação no rosto, aproveitando ao máximo o meu momento. Duas horas depois entramos no local.

It’s been a hard day’s night, eu me sentia como um dog! Perdidaço… Que zoeira, quanta gritaria! Como era possível alcançarem tantos decibéis? E, à medida que a coisa ia se aproximando do final, ao invés do som diminuir, aumentava cada vez mais, numa espiral crescente e ensurdecedora. Pelos meus cálculos, já haviam passado barões, condes e viscondes pela corte e chegava a hora de que os reais representantes do reino fariam suas apresentações. O Amigo do Rei, a Princesa e, finalmente, o próprio Rei, cantaram o que tinham pra cantar, deixando o público em estado de êxtase indescritível. Chorados e alucinados bis foram concedidos economicamente e, enfim, as pesadas cortinas de veludo juntaram-se no meio do palco encerrando aquela tarde inacreditável. 

O teatro esvaziava muito rapidamente mas minha irmã preferiu ficar sentada aguardando que as coisas acalmassem. A grande maioria ia para a porta na esperança de encontrar o Rei saindo de carro. Era impossível, claro, havia uma saída secreta para essas situações, livres de qualquer possível assédio. Aproveitei esse momento de espera para ir até o palco e ver aquilo de perto. Não era muito alto, cerca de 1,10 mts de altura, e, num gesto impulsivo, saltei para cima e atravessei a abertura das cortinas. Foi como passar por um portal mágico que me conduziu para um reino mágico e encantado… mas, de verdade, era bem normal para qualquer um que tivesse alguns anos a mais que eu. Os instrumentos estavam lá, alguns músicos, técnicos e produtores. Vi um pequeno grupinho com três pessoas e me aproximei. Nele estavam o diretor do programa, um tal de Melão que eu já tinha visto em algum programa de entrevistas, o amigo do Rei e a Princesa. O diretor olhava para mim e o Amigo percebendo minha presença disse:

– Ei, você é o Batman? Que bom te ver por aqui!

Eu achei aquilo muito legal e deu pra entender porque o Rei gostava dele e o chamava de Meu Amigo. A Princesa Léa apontou seus enormes olhos verdes em minha direção, aproximou seu rosto lindo do meu para me beijar. Nesse instante, eu, por reflexo, virei o rosto para o lado direito e os seus lábio macios estalaram um beijo de bochecha na minha boca! Ela riu gostosamente e disse:

– Que gracinha você é! Está sozinho? Não é melhor voltar para sua mãe?

Ela me virou na direção da abertura da cortina e eu segui como um robô, voltando para as garotas que me esperavam ansiosas. Queriam saber onde eu havia me metido, onde estava e com quem? Mas eu não tinha nada pra dizer, havia vivido um momento muito especial, só meu, tinha tido uma lição e compreendido uma coisa muito importante que moldaria meu comportamento para sempre. Na minha simples infantilidade, havia percebido que aquelas pessoas eram pessoas comuns em papéis extraordinários. Que desempenhavam suas funções em resposta a milhares de pessoas que assim os viam e, assim, os faziam existir. E isso valia para artistas, políticos e líderes de qualquer espécie. Sem querer, humildemente, ali eu havia superado toda a idolatria, com o selo de um beijo.

CaMaSa

Filmes

A vida seguia de mansinho naqueles dias, com muito sol no rosto e canelas finas de fora. Tinha quem me trocava de roupa, dava banho e me alimentava, de amor e comida. O mundo ia pouco a pouco se ampliando, com os amigos próximos sendo cuidadosamente separados dos mais distantes. Formavam-se vínculos eternos que seriam rompidos na primeira desavença. Ter 6 anos de idade tem suas recompensas e prejuízos, igualzinho ao mundo dos adultos, mas numa escala reduzida. Então, a cada dia há uma imensa carga de felicidade, trazida pelas coisas simples de um pega-pega, um esconde-esconde, uma corda que se pulava… Tac… Tac… Tac… batendo no chão.

Mas o crescimento é irreversível e, chega uma hora, os adultos já não aguentam mais você pulando e brincando pela casa e acabam procurando uma escola para te ocupar. No meu tempo chamava-se Jardim da Infância, hoje deve ser Maternal ou algo assim. Só sei que consegui ser expulso do tal jardim, e não sei se mais alguém conseguiu tal proeza? O motivo banal, incompreensível para mim na época, era que eu corria atrás das meninas da classe para beijar. Não era normal? Ver uma coisa, achar bonita e beijar! Seja quais fossem os critérios pedagógicos da época, fui convidado a me retirar do colégio. Minha mãe foi chamada e explicaram que eu, talvez, fosse muito imaturo para estar ali. Voltamos para casa ambos muito tristes. Ela porque estava preocupada com as entregas dos vestidos encomendados que tinha para terminar e eu porque não entendia o que tinha feito.

As tardes ficaram mais aborrecidas porque os amigos todos iam para o Jardim e eu ficava sozinho, vagando pela calçada da Vila Alvarenga próxima, fazendo buracos com palitos nos vãos dos paralelepípedos de granito que calçavam a rua. Para me ocupar, minha mãe um dia teve a ideia de me levar até a quadra de futebol do Colégio Dom Bosco, ao lado da capela do mesmo nome. Dom Bosco (1815-1888) foi um sacerdote católico italiano, fundador da Congregação Salesiana. Atuante em assuntos sobre educação foi considerado grande protetor da juventude. Foi canonizado pelo Papa Pio XI. João Melchior Bosco nasceu em Becchi, próximo a Turim, na Itália, no dia 16 de agosto de 1815. Por ser italiano, isso tinha grande significado para minha mãe. Segundo ela, Dom Bosco tinha inventado o futebol, amava as crianças e o Palestra (!!!), e era um legítimo representante de nosso senhor Jesus Cristo, o filho de Deus e o homem mais bondoso que já havia pisado nesta terra. Tudo eu escutava de ouvidos e olhos bem abertos, e boca bem fechada, pois ali estavam sendo dados avisos muito claros de que eu deveria seguir os bons exemplos e me afastar de tudo que fosse ruim.

Antes da quadra de futebol, tinha a passagem obrigatória pela capela. Como outras a quem eu fora gentilmente arrastado, era escura e fantasmagórica, com suas imagens assustadoras de gente sofrida e vestida de uma forma estranha. Me levou pela nave central até o altar onde, no alto, se via a imagem de um senhor de idade, um velhinho de cabelos esbranquiçados, vestido com uma túnica escura que descia até os pés, roupa de padre, ladeado por dois garotos e com um leve sorriso amistoso no rosto. Tive a impressão de que havia uma bola nos pés, mas achei que estava imaginando coisas. Saímos pela porta lateral à esquerda, mas antes paramos diante de uma estátua clara e colorida, de um homem bonito, alto, com os cabelos bem compridos espalhados pelos ombros. Tinha uma expressão serena que contrastava totalmente com um coração vermelho sangue saltando no centro do peito, envolto em espinhos e labaredas de fogo. Aquele era Jesus, disse minha mãe! E eu saí de lá mais desentendido do que entrei.

Quando chegamos na quadra, lotada de garotos muito maiores que eu jogando futebol, tive uma vontade tão grande de jogar e chutar a bola que larguei a mão da minha mãe e corri em direção ao centro campo. Não era de grama, era de cimento, pedra e areia, duro e perigoso. Mal toquei o chão, escorreguei, caí de lado e arranhei a perna! Minha mãe gritava enquanto o jogo era paralisado para compreender do que se tratava. Visto que era só um pequeno fedelho caído no chão, retomou o ritmo acelerado e cheio de gritos. O juiz da partida, um padre jovem e simpático, vestido com uma batina bege, veio em nossa direção para prestar algum tipo de socorro. Minha mãe explicou os motivos da minha presença ali e o padre assumiu a responsabilidade pela minha estadia, dizendo a ela que eu participaria das atividades normais do dia, e que ela voltasse às 5 horas da tarde para me buscar.

Ele só não explicou que as atividades seriam ficar sentado à beira do campo, assistindo ao jogo sem participar, assistir a missa e depois um filme antigo, em preto e branco, na pequena sala de projeção da escola. Sem jogar, assistindo missa em latim, a perspectiva de um filme antigo não era das melhores para mudar meu humor. De fato, o filme pulava e repicava, de vez em quando parava e a turma na sala, fedendo a suor de partida de futebol, gritava e assobiava até que o padre conseguisse fazer a geringonça andar de novo. Era uma estória confusa, havia muita discussão e confusão, até que de uma hora pra outra tornou-se violenta, com um homem sendo preso e maltratado. Enquanto era encaminhado a um senhor de saias que nada mais fez do que lavar as próprias mãos, as pessoas gritavam, atiravam pedras e cuspiam nele. O homem de saias, que parecia ser muito poderoso e mandar na coisa toda, mandou o pobre homem embora dali, para ser julgado por pessoas que não tinham a menor consideração por ele. Eu acompanhava tudo apreensivo, cada vez mais preocupado com o desenrolar daquilo, enquanto a molecada ao redor urrava e aplaudia cada cena de castigo. No julgamento, que era uma espécie de eleição, pediram para a multidão, que acompanhava a tudo rindo e caçoando, para escolher entre ele e um outro homem, que tinha uma cara de mau, tipo o homem do saco, mas o povaréu escolheu aquele franzino e desamparado, com os cabelos até os ombros…

Nesse momento um clarão de entendimento fez um clique na minha cabeça, associei o pobre coitado à estátua na capela e entendi que aquele era o tal de Jesus que minha mãe sempre falava. Senti uma dor no peito enorme, controlei o máximo que pude os meus sentimentos, tanto quanto pode uma criança de 6 ou 7 anos fazer isso, mas, quando o chicotearam até sangrar e colocaram uma coroa de espinhos em sua cabeça, um rio de lágrimas já escoava dos meus olhos. Eu sabia que não seria nada conveniente soluçar naquela hora e local, no meio daquela turma de moleques, e abafei o som por todo o calvário, com a cruz nas costas, os pregos nas palmas das mãos, até o último suspiro.

Quando minha mãe chegou eu já estava seco, de olhos e alma, havia feito um pacto com seja lá o que fosse para ser bom, respeitar os outros e encontrar as respostas para os mistérios desta vida, em vida. Descobri que as lições deixadas pelos grandes mestres, não as escritas, interpretadas e reinterpretadas, mas as experimentadas e respiradas, são para serem realizadas e vividas. Que elas fluem como água limpa e pura de jarro em jarro, de Mestre em Mestre, e que há sempre alunos dispostos a beber dessa água, encontrar a paz, dentro, bem fundo, onde ela nasceu para ser sentida.

CaMaSa