fbpx
(5511) 2503-9620 [email protected]

O que era para ser um assalto comum, desses de entrar, pegar e sair assobiando, se transformou numa montanha russa de emoções e surpresas. Não dessas Six Flags americanas, seguras e antissépticas, onde a gente tem absoluta certeza que vai chegar são e salvo ao final. Não, estou falando de montanha russa raiz, de madeira, tipo Parque Shangai, localizado na divisa entre a Mooca e o Glicério, na década de 60. O carrinho de ferro carcomido pela ferrugem,  pintado em cores vibrantes e espalhafatosas, com rodas ensaboadas de banha animal suja e mau cheirosa, voando a não-sei-quantos por hora sobre os trilhos trepidandes e mal fixados por pregos e parafusos muito gastos, a milímetros de se soltarem. Quem andou, sabe…

Genaro e Alfa Berto, Mané e Zé, Tanaka e Ruby, estavam todos na casa de Baruch, ao mesmo tempo,  sem que cada grupo soubesse da presença do outro. Espalharam-se como ratos pela mansão labiríntica escurecida pela noite tempestuosa. A entrada principal tinha um amplo saguão com piso em mármore, onde nascia uma larga escada, toda em carvalho americano, subindo para o andar superior num enorme arco que se abria para ambos os lados num corredor circular, o qual dava acesso a vários aposentos.

O companheiro Zé começava a sentir os fortes efeitos da feijoada, com macarrão e moqueca da hora do almoço, e deu prioridade, na sua busca, ao encontro de um banheiro, com total urgência. Genaro atravessou a sala principal em direção à biblioteca, certo que encontraria o cofre secreto entre as estantes, onde estariam guardados os bens mais preciosos. Ruby foi até a cozinha para vasculhar a despensa e alguma passagem secreta de um porão no subsolo, enquanto Alfa Berto subiu a escada principal e começou a examinar cada um dos quartos com muito cuidado. Mané e Tanaka encontraram uma outra escada, de ferro fundido, em caracol, que acessava uma segunda ala de dormitórios, mais ao fundo do casarão. Subiram silenciosamente, tateando no escuro os degraus com os bicos dos pés.

Genaro nunca tinha visto tantos livros em sua vida! As estantes iam do chão ao teto alto, muito alto, provavelmente com mais de 4 metros. Era uma infinidade de lombadas coloridas, pardas no lusco-fusco da penumbra, de várias espessuras e texturas. Será que o patrão havia lido todos aqueles livros? Idade ele tinha, pensou. Estranhamente, era o lugar da casa que menos cheirava a mofo, podridão e ruína. Certamente se riqueza significava viver naquele ambiente, ele preferia o cheiro da luz do sol do seu humilde lar. Mas ele precisava de uma pequena parte do que Baruch possuía, tão pouco que o velho nem perceberia, mas o suficiente para realizar a operação do seu caçula. Não havia outro jeito, ele tinha que conseguir! Pôs-se a procurar ansiosamente, puxando cada um dos livros do lugar, buscando por algo que desconhecia. Até que tocou um livro diferente, duro, de madeira. Puxou-o e este fez um clique… O falso livro tinha o canto da base fixa na prateleira, com uma espécie de dobradiça, e quando ele girou completamente sobre esse eixo, abriu uma estreita porta de correr que dava acesso a um corredor escuro e gelado. Genaro acendeu seu isqueiro e avançou por uma rampa curva, muito íngreme.

O companheiro Alfa Berto já revistava o terceiro quarto e não havia encontrado nada nem ninguém. Estava cada vez mais desconfiado que a missão era uma armadilha ou um tipo de treinamento a que haviam sido submetidos pela organização. Não sabia o que procurar e o que fazer se encontrasse alguma coisa. Mas gostava da sensação de aventura, do risco e do perigo. Eram experiências que não podia viver sob o teto burguês da família, suas tradições e propriedades. Seus pais já eram muito ricos quando nasceram e ficaram milionários quando juntaram suas fortunas em matrimônio. Poderosos no ramo da construção, viviam recebendo em casa, para jantares e reuniões, membros do alto escalão do governo. Ele, por rebeldia juvenil, tímido e introspectivo, encontrou nas teorias revolucionárias a válvula de escape para suas frustrações. Tinha nessa dupla identidade, a realização de uma fantasia, brincando de agente secreto, de mocinho e bandido, na vida real.

Quando abriu a porta do sexto dormitório, percebeu uma luz fraca e bruxuleante vinda através de uma porta com molduras envidraçadas. Aproximou-se cuidadosamente e olhou para dentro do que parecia ser uma pequena câmara, em cujo centro havia uma pequena mesa de madeira. Sobre a mesa uma pequena lamparina a óleo iluminava pobremente o ambiente e, sentado diante dela, olhando fixamente para uma moeda dourada à sua frente, estava um homem muito velho, com ralos cabelos brancos caindo sobre os ombros. Do outro lado do aposento, viu uma porta igual a que ele estava e, por trás dela, a figura de um homem forte e rude, olhando para ele espantado. Ambos tiveram a mesma reação, abrindo a porta rapidamente, correndo em direção ao velho homem e pegando em seus braços. Genaro pela direita e Alfa Berto pela esquerda.

Teve início uma intensa disputa onde o velho Baruch era puxado de um lado para o outro, feito um fantoche de pano. Os dois oponentes reconheceram-se imediatamente adversários ideológicos e se puseram a trocar ofensas que começaram com um “Porco Fascista” daqui, um “Comunista Ladrão” de lá, descambando para uma cantilena interminável de palavras de ordem e chavões políticos. O infeliz judeu, enjoado com os chacoalhões e irritado com o discurso dos dois lados da mesma moeda em suas orelhas, juntou as mirradas forças que lhe restavam e gritou um “Basta”, cheio de ira. Os dois inimigos, surpreendidos, olharam para o ancião, prestando atenção no que ele dizia: 

– Vocês chegaram atrasados, seus idiotas! Se estão atrás do meu dinheiro, saibam que não existe mais tesouro algum nesta casa. Tudo, absolutamente tudo, agora está em mãos seguras, sendo administrado por organismos internacionais especializados em gestão de entidades assistenciais, sem fins lucrativos.

Os dois olharam-se embasbacados, enquanto Baruch contava sua história, desde o princípio:

– Nasci numa família muito rica, descendente direta da comunidade asquenaze, desde o século V, sobrevivente do massacre de Tréveris, cidade histórica da Alemanha e também a mais antiga, localizada no estado da Renânia-Palatinado. Com negócios diversificados em alimentos, tecidos, ouro, ferrovia e siderurgia, tínhamos escritórios por toda a Alemanha e sede em Berlim. Financiamos, durante a Primeira Grande Guerra, a participação de judeus-alemães, onde foram mortos mais de 12.000 soldados judeus. Lucramos sobre a morte de cada um deles. Chegamos aos primórdios nazistas como uma das maiores fortunas alemãs e do planeta. Em nosso castelo recebíamos toda cúpula do futuro governo, em conchavos regados a champanhe e caviar, da futura máquina de guerra do III Reich. Goebbels, Mengele, Pohl… o Führer em pessoa bebericou licores em nossa sala de jantar! Quando as armas se voltaram definitivamente contra nosso povo, somente os muito abastados, e bem relacionados, conseguiram deixar o solo alemão em busca de segurança nas Américas. Uma parte de nossa família fugiu, outra parte foi assassinada, e alguns, entre eles eu, ficou para auxiliar os oficiais de alta patente e ministros alemães, a compreenderem os mecanismos de gestão de nossas empresas. Quando não tínhamos mais utilidade, nos despachavam para os campos de concentração. Cheguei em Sobibor com 68 anos, e fui talvez o único em idade tão avançada, a sair com vida de um campo. Em parte por conta dos meus contatos com a elite alemã, em parte porque a fortuna escondida que me aguardava lá fora valia qualquer sacrifício. Dirigentes do campo de concentração me deram a função de espião, levando para eles informações sobre qualquer tentativa de insubordinação de prisioneiros. São centenas de inocentes dos quais tenho responsabilidade sobre suas mortes… Não tenho peso na consciência. Fiz o que me cabia ter feito. Recentemente, duas semanas atrás, tive minha sentença de morte declarada por um médico especialista e, a partir de então, tive uma espécie de revelação…

– Esse menino, esse nazareno que vocês tanto veneram… somente agora compreendi o seu significado. Ele não tinha intenção de destruir os romanos, a Lei de Moisés, a Torah… Nem muito menos queria fundar uma nova religião para vender passagens para o Paraíso. Não queria ser chefe, mestre, ídolo ou deus de coisa nenhuma. Ele só compreendeu o significado, encontrou as respostas para as perguntas não feitas, a Paz, dentro, e tentou ensinar aos homens como alcançá-la, sem pedir nada em troca. Simples, verdadeiro e real. Só esse é meu arrependimento. Não ter experimentado, a cada dia, uma e outra vez, esse infinito interior da existência, pois nos tornamos excelentes naquilo que mais praticamos.

– Quando compreendi isso, doei tudo que tinha para instituições que farão o bem aos mais necessitados, crianças e inválidos, doentes e velhos sem recursos. Com esse mesmo dinheiro que usei para comprar políticos e administradores corruptos do erário público, ou financiei a oposição a governos que não quiseram dobrar seus joelhos aos meus interesses, armando patifes sem alma para criar confusão e instabilidade, com essa mesma riqueza, farei aquilo que jamais tive intenção de fazer. Ajudar o próximo!

O velho judeu respirava com dificuldade e pesava bem as palavras antes de dizê-las, como se fizesse um testamento oral. Prosseguiu:

– A pequena fabriqueta de sapatos que usei como disfarce para fugir de perseguidores implacáveis, caçadores de recompensas, deixei para você Genaro, para o Mané e o Tanaka. Divirta-se administrando uma empresa no Brasil, com as inúmeras dificuldades e entraves burocráticos. É minha vingança pelas horas de trabalho roubadas, pelas matérias-primas descartadas sem necessidade e pelos produtos extraviados. Quero que você sinta na carne o que é ser patrão e tentar não se tornar pior do que eu.

Calou-se, pegou a moeda sobre a mesa com sua mão direita e cerrou-a firmemente. Havia reconhecido um Messias, mas, por garantia, era melhor ter alguma coisa para barganhar do lado de lá do umbral. Apoiou a mão esquerda sobre a mesa, deslizou lentamente para a frente apoiado nela e tombou a cabeça sobre a mesa, num baque surdo, já sem respirar.

CaMaSa