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Ele chegou onde chegou por diversos motivos. Tinha inegável capacidade jurídica, mas também era excelente nas artes da política, admirador de Maquiavel e de seu Príncipe. No Supremo não lhe interessava a presidência da corte, apesar do cargo ser o quarto na sucessão da Presidência da República, mas impor sua vontade aos demais ministros. O Supremo Tribunal Federal é a mais alta instância do poder judiciário brasileiro, e acumula tanto competências típicas de uma suprema corte, ou seja, um tribunal de última instância, como de um tribunal constitucional, que seria aquele que julga questões de constitucionalidade independentemente de litígios concretos. Os membros da corte, referidos como ministros do Supremo Tribunal Federal, são escolhidos pelo presidente da República entre os cidadãos com mais de 35 e menos de 65 anos, de notável saber jurídico e reputação ilibada. Depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal, os indicados são nomeados ministros pelo presidente da República. O cargo é privativo de brasileiros natos e não tem mandato fixo: o limite máximo é a aposentadoria compulsória, quando o ministro atinge os setenta e cinco anos de idade.

A remuneração (no valor bruto de R$ 39.200 desde o início de 2019) é a mais alta do poder público, e serve de parâmetro para estabelecer a remuneração (menor) de altos funcionários públicos – fenômeno conhecido como escalonamento de subsídios, vez que os demais funcionários públicos têm sua remuneração atrelada a percentuais do subsídio de referidos ministros.

Nada disso era realmente importante, eram ninharias que não ocupavam suas preocupações. Seus interesses eram as grandes questões morais, jurídico-filosóficas, a constitucionalidade de alguns interesses e as negociatas que impulsionam o país para o futuro. Seja ele qual for. No momento seu foco eram as manobras para suspender a prisão em 2ª instância, ato jurídico que favorecia a Lava-jato e prejudicava amigos e autoridades importantes e muito próximas. 

Estava em Paris e a família o esperava no Mokonuts, pequeno e sofisticado café na Arrondissement, número 11. Os chefs proprietários preparavam amêijoas, filés de cavala e galinha de angola com maçãs e ervas. Assavam biscoitos de gergelim e preparavam a famosa Tarte Tatin com caramelo para a sobremesa. Tudo regado a Henri Jayer Richebourg Grand Cru, a 20.000 dólares a garrafa. Ele exigia tranquilidade e sossego, então o restaurante fechava as portas para o público às 17hs, reabrindo somente no dia seguinte. 

A mesa, além da família, recebia dois senadores, um governador, três ministros e um general, além de três dos maiores empresários brasileiros. Todos acompanhados de esposas ou companheiras da hora. Discutiam amenidades e frivolidades da vida parisiense, além dos rumos da política brasileira e as peças que deveriam ser mexidas no tabuleiro, para servir aos próprios interesses e manter o custeio dos gastos com passeios e jantares na Europa. Diziam entre si que esse era um dinheiro público muito bem gasto e gasto com muito gosto! Se você nunca participou de um jantar desses, talvez não entenda muito bem a piada. Na verdade você é a piada…

Além das duas filhas, o juiz trazia a tiracolo seu maior orgulho, a sua obra-prima, como costumava se referir ao filho caçula. Dotado de uma inteligência incomum e de uma beleza estratosférica, o rapaz era considerado o príncipe do high society tupiniquim. Seguia por instinto genético os passos do pai e sua carreira estava sendo estrategicamente planejada como uma sucessão imperial. Harvard, Oxford e Yale já haviam recebido a ilustre presença do filho do Brazilian Judge, como ele era conhecido nos meios jurídicos internacionais. Atlético, praticante de futebol, americano, tênis e ciclismo. Bebia apenas socialmente e das drogas sabia somente os nomes.

Como contraponto, o filho do empresário Tê Maior era um container de problemas. Boa pinta, malandro e mau caráter, meteu-se desde cedo em todo tipo de confusão. Valentão, rei do bullying na escola, foi expulso de quase todas pelas quais passou. Gostava de rinhas, mas achava os galos pouco violentos. Com 16 anos de idade criou a primeira rinha de cachorros pitbulls do Brasil. Concluiu o segundo grau comprado pelos pais e chegou à faculdade para beber mais e potencializar o uso de drogas. Químicas, somente químicas. Detestava desacelerar em todos os sentidos. Amante da velocidade, o pai montou escuderias de primeira linha para que ele competisse. Tinha até um certo talento, mas as condições etílicas e o mau caráter faziam dele um competidor medíocre e detestado por todos. Sempre usava de recursos ilícitos nas ultrapassagens, pondo em risco a própria vida e a dos demais pilotos. Causou acidentes graves, um deles resultando em lesão irreversível na coluna de um adversário e o fim da carreira. Para ambos.

Ele continuou correndo nas ruas, no entanto. Sem habilitação devido à grande quantidade de multas, seguia dirigindo impunemente, sempre pagando aos guardas de trânsito por sua liberdade. Atropelou uma senhora de 83 anos mas, apesar de se recusar a fazer o teste do bafômetro, os advogados conseguiram provar que a vítima havia sido imprudente ao atravessar a rua a 22 centímetros da faixa de pedestres… Mais recentemente, saindo de madrugada de uma balada nos Jardins, em São Paulo, atropelou e matou uma mãe, grávida de 6 meses, e sua filhinha de 2 anos que estava no seu colo. Foi preso e condenado, em primeira e segunda instância, apesar da tonelada de argumentos jurídicos fictícios apresentados pela defesa. 

Era sobre a situação do filho que Tê Maior e o Juiz conversavam. Como colocar o rapaz em liberdade? Dos olhos da esposa do empresário corria uma lágrima, suficiente para amolecer o coração de pedra do magistrado e excitar sua imaginação viril. Explicou aos pais que era um homem bondoso, sempre aberto a negociações e transferências de valores para suas contas na Suíça. O STF estava no momento em meio à solução dessa pendência jurídica da 2ª instância, com a votação para ser concluída. Havia os incorruptíveis, os comprados e os indecisos. Era necessária uma grande inversão de euros para que ele conseguisse vencer a intransigência e conseguir a liberdade de pessoas chaves do mecanismo de administração verdadeiro do país, entre elas, facínoras e corruptos da pior espécie. 

Na realidade a propina era só um detalhe, porque a decisão já estava tomada há muito. Usariam a libertação do ex-Presidente, destruído pelo álcool e sonhos de grandeza, como pano de fachada para por nas ruas aqueles que eles tinham interesse, e dinheiro, muito dinheiro para pagar pela liberdade. Contentavam assim boa parte da população enraivecida pela derrota nas eleições presidenciais. A outra parte da população estava atada a um Presidente da República que estava no bolso do colete, refém dos trambiques e tramoias dos filhos. Dariam uma pincelada de legalidade, prendendo-se a vírgulas insignificantes da Constituição, para fazer valer os próprios interesses.

O filho de Tê Maior saiu da cadeia junto à leva de condenados beneficiados pela extinção da prisão em 2ª instância. Foi direto para a balada mais cara da noite. Precisava comemorar a liberdade e não poupou dinheiro e champanhes Boërl & Kroff Brut, Krug Clos d’ Ambonnay e Moet & Chandon Dom Perignon Charles & Diana 1961 à vontade. Muito som, muita alegria, muita coca e muito êxtase em quantidades cavalares. O dia já começava a dar as caras quando ele acordou e viu alguns dos convidados, moços e moças de todas as tribos, espalhados pelo chão. Garçons andavam de um lado para outro arrumando a bagunça das mesas. Ele saiu para a rua e viu uma Porsche 911 preta, igual à dele, que ainda estava trancafiada num depósito da Polícia Federal como prova em seu processo. Não dirigia há muito tempo, estava louco para dar uma voltinha, e percebeu que o dono, provavelmente dormindo bêbado, tinha deixado a chave no contato. Subiu naquela máquina do demônio e saiu de lá voando, cantando os pneus.

Naquela manhã o filho do Juiz acordou com as galinhas, como sempre, para fazer seus exercícios matinais que incluíam uma corrida de 10K pelas ruas arborizadas e limpas da vizinhança. A manhã estava um pouco chuvosa, ideal para encher os pulmões de ar fresco e oxigenar o coração e as ideias. Colocou um calção surrado, camiseta larga e tênis de corrida. Deu um beijo rápido na mãe e um tapinha nas costas do pai que tomava o café na sala de almoço. Saiu para a rua cheio de disposição, ouvindo música no seu AirPod Pro de última geração. Distraído, nem percebeu quando a Porsche negra subiu a calçada em sua direção a mais de 200 km/hora. Voou para o alto como um fantoche de pano, num looping desengonçado. Caiu no chão batendo a cabeça na quina do meio fio, já sem vida.

O Juiz saiu correndo para a rua, assustado pelo barulho vindo de fora. Viu mais ao longe um automóvel preto abandonado com a porta aberta, sem motorista. Quando se aproximou do corpo estendido em sua calçada, viu que era o do seu filho amado, morto em 1ª instância.

CaMaSa