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Os olhos do neto Pedrinho brilhavam de alegria diante daquela pessoa vestida de Mickey, com as calças vermelhas e dois grandes botões brancos, camisa branca, gravata amarela e fraque preto. As enormes orelhas e um sorriso permanente no rosto faziam desse personagem, cheirando a limpeza, simplesmente inesquecível. E era exatamente isso que ela queria proporcionar ao neto, momentos gravados na memória para sempre, definindo na galeria de experiências que ele teria por toda vida um lugar ao Sol para a avó. Exatamente o oposto do que ela mesma havia passado na infância pobre e miserável, sujeita desde o nascimento, e até mesmo antes, aos caprichos e maldades de pessoas que muitas vezes estavam ao seu lado para protegê-la. Piscou os olhos e por um instante voltou para Itacarambi, hoje São João das Missões, ao norte de Minas Gerais, numa das regiões mais pobres do Estado.

Maria José Sem Pai Declarado da Silva veio ao mundo como toda mulher negra e pobre, em grande desvantagem na corrida pelo sucesso da vida. Era a décima de uma prole de doze, chegando na família quando não havia mais leite disponível nas tetas, nas garrafas de vidro ou sacos de plástico. Havia no desabastecido posto de saúde local, vez ou outra, uma lata de leite em pó, economicamente diluído em latas de água barrenta. Ainda bem que no mato tem muitas folhas, plantas, raízes e frutos que passam despercebidos aos olhos sem prática, mas que podem alimentar um rebanho para quem já passou pelos ensinamentos da fome. E nisso sua mãe era catedrática, sabendo pela cor e pelo cheiro o que alimentava e o que matava. Os diversos e sucessivos maridos abandonavam a mulher e as crianças antes, ou tão logo, elas nasciam, deixando para sua mãe o encargo da sua própria sobrevivência e dos filhos. Perdeu alguns, vingou outros, entre os quais Mazé, que cresceu forte e saudável, cada vez mais preparada para o trabalho pesado e os infortúnios da vida.

São João das Missões fica a uma distância de 687 km de Belo Horizonte (capital) e a 247 km de Montes Claros, cidade pólo do norte de Minas, sendo o acesso realizado através da BR-135. Posiciona-se a 18 km do rio São Francisco e é marcado pelo Rio Itacarambi que banha quase todo o território do Município. A divisão administrativa do município constitui-se do Distrito da Sede, do Distrito de Rancharia, 32 Aldeias e a Terra Indígena Xacriabá. O Município ocupa uma área territorial de 679,89 km². Situa-se na micro-região do Vale do Peruaçu (Alto Médio São Francisco), norte do Estado. É a cidade mineira mais pobre, com o PIB mais baixo de toda Minas Gerais.

O município está sujeito a um clima tropical úmido de savanas, com inverno seco, em transição, no sentido nordeste, para um clima quente e seco, com chuvas de verão. A relativamente pequena variação da temperatura ao longo do ano, nestes climas, faz da variável precipitação, o principal parâmetro hidroclimatológico do Município, sob o ponto de vista de exploração agrícola. A variação mensal das precipitações e a existência de um período bastante seco, nos meses de maio, junho, julho, agosto e setembro. O tipo de vegetação predominante em São João das Missões, expressa-se por cerrado com áreas mescladas de caatinga ao centro-oeste. Ainda estão perenes, mas em visível agonia, os seguintes cursos de água: Rio Itacarambi, Riacho do Brejo de Mata Fome e Olhos D’Água. 

A principal atividade econômica desenvolvida no Município, é agricultura e a agropecuária. A agricultura é representada no cultivo irrigado e de sequeiro. Faz parte da cultura irrigada, o plantio de feijão, milho, cana-de-açúcar e tomate. No sequeiro, a cultura do milho, feijão catador, mamona e mandioca. A pecuária é desenvolvida com o objetivo de produzir bezerros para a venda, sendo, também, praticada a pecuária leiteira, despertando, também, a criação de caprinos, ovinos e peixe. O feijão, mamona e o tomate, são responsáveis por 70% de toda produção. Soma-se a estas atividades, as pequenas fabriquetas de farinha, rapadura, cachaça, queijo, etc. Demais produtos abastecem o mercado interno e o restante é comercializado na região. 

Mazé começou a trabalhar por volta dos 4 anos de idade, catando mamona, crente que estava brincando com os demais irmãos. A pequena estatura permitia o acesso à parte baixa dos troncos, protegida pela densa folhagem dos galhos dos arbustos. As mãos pequenas arrancavam as bolotas verdes e espinhosas que eram colocadas em sacos de lixo de plástico e despejadas, posteriormente, em latas vazias de 20 litros, de óleo ou azeitonas. Os irmãos mais velhos e maiores a colocavam nos ombros para que ela alcançasse os galhos mais altos. Desse modo ela passava a maior parte do tempo acima das folhagens, sem a proteção das sombras, tostando ao sol implacável pele e miolos. Passou a infância entre essas e outras atividades produtivas, tão ou mais cansativas, e os serviços domésticos normais de varrer o chão de barro da casa de pau a pique, pegar água no poço, cozinhar o quase nada que se tinha e fazer render para todos, matar aranhas e escorpiões e, de vez em quando, destroncar o pescoço de uma galinha.

Quando todas as crianças ainda são crianças, por volta de 10 a 11 anos, ela já era uma mocinha, despertando, com seus olhos matreiros e rasgados e a pele brilhante como noite de luar, o desejo dos homens. Numa noite, voltando da roça para casa sozinha, foi abordada por dois sujeitos mal intencionados que lhe disseram um oi com um forte soco no rosto. A menina rolou no chão cuspindo dentes e sangue, sem entender o que tais homens pretendiam! A machucaram, uma e outra vez, onde mais dói a dor de uma mulher violada e, por sorte ou azar, a abandonaram viva ao relento. Voltou para a mãe aos prantos e ferida, tentando explicar o que havia ocorrido. Levou uma surra para aprender a não ser tão oferecida, como já havia prevenido o atual namorado da mãe, sempre de olhos compridos e sedentos sobre a Mazé. Por segurança, garantia ou ciúmes, sua mãe resolveu que era melhor afastar a menina dali, colocá-la em casa de família para ajudar nos afazeres de alguma sinhá rica. Melhor fosse longe dali, em São Paulo, junto a alguma tia que por lá vivia.

Foi para São Paulo de carona num caminhão de sementes de mamona que seriam levadas para uma fábrica de óleo em Guaianases, perto de Ferraz de Vasconcelos, onde morava a tal parente distante, prima de seu pai. Se encontraram na porta da fábrica, sem beijo ou abraço, e foram para a casinha da favela onde a tia morava. Ela era empregada doméstica em casa de família que morava no bairro da Mooca, mas já estava com idade avançada, tinha 66 anos, e já não dava conta do serviço. A patroa concordou em colocar uma menina para ajudar e ela levou sobrinha a tiracolo para ensinar a rotina da casa e do trabalho. Mazé nunca tinha visto um piso de cerâmica, uma parede de azulejos, pias com torneiras ou vasos de louça “pra obrar”… Lhe pareceu tudo muito simples e leve, fácil de fazer e limpar. A cozinha tinha caixas de madeira onde se guardava louças e talheres, fogão que acendia a chama apertando um botão e geladeira cheia de bebida e comida.

A sinhá era moça e linda, boa de coração e se divertia a valer com o jeito caipira e engraçado da menina. Ela estava “prenhe”, com a barriga redondinha, pelo jeito vinha por aí uma menina. O marido trabalhava muito e quando chegava em casa ela e a tia já haviam se recolhido. Quando nasceu a criança, decidiram que seria melhor que a Mazé ficasse morando com eles na casa, instalada num quartinho. Pouco depois a tia, já muito cansada, deixou o trabalho, ficando a responsabilidade toda da casa nas mãos da sobrinha. Ela adorava sua vida e cuidava da menina como se fosse a princesa que seus pais diziam. Só a partir de então Mazé conheceu brinquedos, bonecas e esse rato de nome engraçado, “Miki”, que a menina nunca largava e só deixava a Mazézinha dar banho! Um dia os patrões viajaram para os Estados Unidos, levando a princesinha para conhecer a casa do tal ratinho simpático. Voltaram com muitos presentes e fotografias, contando com muita alegria o quanto era bom esse lugar chamado Disneylândia, uma terra de sonho e fantasia, onde o “Miki” vivia.

Mazé naquela noite prometeu a Deus e a si mesmo que um dia ela também iria viajar para esse lugar, economizando e juntando cada centavo que ganhasse do salário, das férias, do 13º, de qualquer extra que fizesse. Os anos foram passando, ela arrumou um namorado e um filho, outro namorado e mais três filhos, ganhou netos e muita experiência. Viu o Brasil deixar de ser governado por militares, ter eleições, presidentes destituídos, aborrecidos e ladrões. E a cada ciclo promessas grandiosas de progresso, justiça e felicidade para ricos e pobres, com planos econômicos mirabolantes onde ela era sempre convidada a colaborar sem participar da festa. Mas fez sua parte, não esqueceu a promessa e juntou os tostões sem saber quanto valia o dólar, até que teve o suficiente para conversar com os patrões e pedir conselhos. Estes ajudaram no que foi preciso, passagens, transportes e hospedagens, pediram ajuda da filha que a essa altura já morava em Miami, com o marido e dois filhos, e a levaram para o aeroporto, onde ela e o neto, pela primeira vez na vida tiraram os pés do chão num busão com asas.

Mazé abriu os olhos e viu o neto que agora a olhava com orgulho, certa que para ele a avó era um exemplo, um símbolo de sucesso como o tal do “Miki”. A avó era alguém que mostrou ser sim possível realizar um sonho, por mais simples que pareça, desde que seja buscado com fé, perseverança, honestidade, respeito e amor no coração.

CaMaSa