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Um conto de pré-Natal

Eteu não era ateu, acreditava em tudo, no Bem e no Mal. Foi assim desde que nasceu. Era praticamente um São Tomé às avessas. Ao contrário do santo, que de tudo duvidava, ele tinha Fé absoluta em tudo e todos. Acreditou quando sua mãe misturou água ao leite da mamadeira para que ele ficasse mais forte. Também acreditou quando ela cantarolava uma canção de ninar que contava como seu pai, um homem rico e poderoso, havia partido deixando-a à míngua, sem ter como se sustentar, nem ao filho. Não que ele tivesse escutado de sua mãe essas coisas. Isso quem lhe diziam eram as freiras do orfanato em que havia sido abandonado, com 4 dias de vida, dentro de uma lata de azeitonas de 20 litros, forrada com jornal. As freiras que o acolheram, acostumadas com a dureza e solidão do coração dos homens, souberam que somente um milagre faria vingar aquela fraca e minúscula plantinha neste mundo.

Mas vingou! Talvez porque ele cria em tudo que lhe diziam, talvez porque uma força maior assim o queria. Aceitava qualquer sobra de alimento que ali restasse, porque eram dezenas de bocas sempre famintas e subnutridas. Sobreviviam da caridade, que é sempre muito menor do que a necessidade. Mas Eteu cresceu aceitando o pouco, e aceitava os remédios também, pois lhe diziam que faria bem. Acreditava nas peças e brincadeiras que os mais velhos lhe pregavam, e nos contos de horror assustadores que lhe contavam antes de dormir. Ficava a noite toda de olhos arregalados, na vigília, pois haviam dito que dessa forma não seria atacado pelos monstros e assombrações. Assim, passou a infância na cama, entre doenças várias e muito, muito sono.

Ele acreditou em Papai Noel, no Coelho de Páscoa, no nascimento pela virgem, na cruz e na ressurreição. Mais tarde também acreditou em Krishna, Buda, Maomé, Olodumaré e todos os orixás. Foi devoto praticante de todas as correntes religiosas que lhe cruzaram o caminho. Mas também homem de ciência, fiel à exatidão dos cálculos e dos números, da comprobabilidade das leis físicas e químicas. Coexistiam dentro de si a fé religiosa e a razão científica, como esses sorvetes bicolores de casquinha, que misturam os dois sabores no céu da boca. A quem lhe questionasse sobre a falta de prática do seu modo de ser, respondia que ambas eram lados da mesma moeda, bastava crer.

Na escola primária acreditava em cada coisa que lhe ensinavam os professores, absorvendo tudo com grande interesse e alguma confusão. Misturava as matérias em sua cabeça e as respostas, na maior parte das vezes, não se encaixavam ao gabarito exigido. Ralhavam com ele e o chamavam de burro, o que ele cria plenamente, assim como havia momentos de intenso brilho, nos quais o elogiavam com nomes de sábio e gênio, que também aceitava naturalmente. Praticava esportes como quem defendia a própria vida, sempre com resultados muito aquém do esperado, mas acreditava piamente nos resultados das partidas de futebol, basquete ou vôlei, em que invariavelmente suas equipes eram derrotadas. Adquiriu paixões fanáticas por vários times de futebol, Palmeiras e Corinthians, Flamengo e Fluminense, Cruzeiro e Atlético, Inter e Grêmio. Todos eram fruto de sua intensa alegria e sofrimento. E quando lhe perguntavam como podia ele ser apaixonado por duas equipes adversárias, respondia que eram apenas dois lados da mesma moeda…

Para comprovar sua teoria, certa vez, numa ensolarada tarde de domingo, resolveu assistir a uma partida de futebol entre Corinthians e Palmeiras, no Pacaembú, homenageando os dois times vestindo uma camiseta, confeccionada por ele mesmo, metade verde e branca, metade preta e branca, com os escudos de cada agremiação bordados sobre a cor do adversário. Entrou no estádio com uma jaqueta azul, e quando estava bem  no meio da divisa entre as duas torcidas, tirou o abrigo revelando sua louca invenção. É um pouco difícil explicar o que aconteceu naquele dia. Pessoas de estômago fraco talvez não consigam acompanhar os detalhes. Então me limito a dizer que nunca antes na história deste país alguém apanhou tanto, de tanta gente! Até os guardas e seguranças aproveitaram para dar umas bordoadas. Era tanto safanão, tapa e pontapé, que nem a bola do jogo apanhou tanto naquele dia! Sobreviveu por milagre e saiu do hospital direto para a delegacia, onde depois de prestados todos os esclarecimentos, acreditou que era justa a prisão por 4 semanas que o delegado lhe condenava.

Na prisão, confiou em todos os prisioneiros, vendo-os completamente inocentes de suas acusações. Ninguém ali havia roubado, estuprado ou matado, sendo vítimas de uma estrutura social decadente e intolerante, que não respeitava os direitos básicos daqueles cidadãos. Organizou motins e greves, fez jejum em protesto, até que se cansaram dele e o puseram na rua. Não se deu por satisfeito e voltou para a delegacia exigindo explicações. O delegado de plantão pacientemente lhe explicou quem eram aquelas pessoas e porque estavam presos, e ele acreditou sem sombra de dúvida!

Teve namoradas, e sempre acreditou plenamente nelas. Amava-as com todo coração e confiava em tudo que lhe diziam. Uma vez, cheio de entusiasmo, resolveu fazer uma surpresa à namorada da vez, que passava férias na casa de uns tios no interior, indo ao seu encontro sem avisar. Saiu pela manhã, pegou o busão que seguiu pela estrada até o anoitecer. Lá chegando, encaminhou-se para o endereço informado e, no caminho,  passou pelo coreto da praça central. Viu a amada à beira do quiosque, com os braços enlaçados no pescoço de outro rapaz, olhando-o com os olhos apaixonados e os lábios entreabertos num sorriso convidativo. Eteu postou-se diante dos dois de braços cruzados, abalado mas crente de que havia uma explicação plausível.

Semi-abalado em sua fé amorosa, Eteu ouvia mudo as explicações da garota, muito justas porém! Aquilo era somente a demonstração do quanto ela o amava, sujeitando-se aos encantos de outro homem, mas resistindo, firme e fiel ao seu verdadeiro amor. Ele aceitou as explicações, e inclusive se recriminou por ter sido tão imprudente e desconfiado, coisa que não era de seu feitio. Casaram-se, estabeleceram-se ali mesmo na pequena cidade do interior, e viveram sempre às voltas com essas provas de amor que ela se impunha, sempre testando seu caráter e honra, envolvendo-se com diversos homens para conhecer seus limites, em respeito ao marido. Ele nunca duvidou da honestidade da esposa, apesar de que nenhum dos quatro filhos era levemente parecido com ele, sendo cada um, bem diferentes entre si. E ainda compreendeu quando ela lhe disse que estava indo embora com aquele outro homem, numa missão de caridade, pois este tinha poucos tempo de vida e precisava dela numa viagem ao redor do mundo em seu iate de 200 pés… 

Passado algum tempo, no entanto, sozinho, com um filho de um ano, um de dois, uma de três e outro de quatro, viu-se numa tremenda dificuldade para sobreviver e ganhar o sustento das crianças. Perdeu o emprego porque faltava muito cuidando dos filhos, e acreditou quando o patrão lhe disse que a empresa passava por um momento de crise e eram necessários ajustes e cortes. Não tinha parentes próximos e acreditou quando os amigos lhe disseram que estavam em situação muito pior que a dele. Os dias foram passando, as crianças foram emagrecendo até o ponto de não mais reclamar da fome, e ele tomou a decisão de voltar para a capital em busca de algum apoio. Aqui chegando, foi imediatamente para o antigo orfanato que, para sua surpresa, agora era um edifício alto e moderno, todo envidraçado. Lhe disseram que o orfanato fechara há muito tempo e ninguém tinha alguma referência das irmãs de caridade.

Era o ano de 1966. Eram tempos difíceis para todos e não havia oportunidades disponíveis para um pai com quatro filhos pequenos a tiracolo. As portas estavam fechadas e, quanto mais perambulava e o tempo passava, mais se aproximava do desespero. Havia saído de casa no início de janeiro, já estavam no fim de dezembro, e até o momento só havia conseguido restos e abrigos sob pontes. Eteu tinha trinta e poucos anos mas aparentava muito mais. Tinha o rosto encovado, a pele seca e enrugada de sofrimento, os cabelos desgrenhados tingiam-se precocemente de branco.  Naquele dia, no auge do desespero, deixou as crianças sob a guarda de uma colega de rua e saiu na busca insana por comida uma vez mais. Seguia crendo, firme em sua fé inabalável. Passou diante de uma casa e percebeu um pequeno garoto, não mais de 8 anos. Em suas mãos um imenso pedaço de torta ou o que fosse, cheirando o perfume de boa comida. Olhou com desejo, pensou em roubar, mas pediu. O menino olhou para ele surpreso e fez que não, balançando a cabeça.

Foi a gota d’água! De repente, viu-se sem fé. Em nada mais acreditava e não tinha mais o que fazer. Virou as costas e saiu andando sem rumo, até que viu-se sobre uma pequena ponte de madeira, sobre um rio de águas volumosas e raivosas. Chovia muito, e os pingos da chuva nas águas do rio o convidavam para um passeio sem volta pelo rio barrento adentro. Eteu estava decidido. 

Só um milagre poderia salvá-lo…

CaMaSa

Cartas do Futuro

Daqui do futuro é possível, graças à evolução tecnológica, escrever para você! Vou tentar ilustrar o alto grau de civilidade que a humanidade alcançou, descrevendo as atividades banais do cotidiano dos habitantes deste belo planeta azul cinza. Realmente muita coisa mudou desde que fomos plantados por aqui e andávamos em harmonia com os demais bichos, quase nos confundindo com alguns. Sobreviver, buscando alimentação e abrigo, era extremamente braçal e cansativo, exigindo sujar as mãos de terra ou sangue. Além do que, grande parte das vezes, nós éramos o alimento! Felizmente o dom da inteligência colocou as coisas nos seus devidos lugares e hoje, daqui do futuro, colhemos os frutos da paz, harmonia e tranquilidade. Então, vou contar pra você como vive uma família comum nestes dias, sua rotina e as suas inter-relações com o todo, quando isso é necessário.

Basicamente vivemos em “células de sobrevivência”, que nada mais são do que abrigos super equipados com os mais variados recursos tecnológicos. Bem, uma pequena minoria é totalmente equipada. Algumas tem poucos equipamentos… outras não tem equipamento algum… E também tem muita gente que não tem “célula de sobrevivência” e sobrevive nas ruas mesmo. Mas, na média são construções seguras, amplas e arejadas, com grandes áreas envidraçadas e sistemas de “oxigenação termo-controladas”, garantindo conforto tanto nos dias quentes quanto nos dias mais frios. Na realidade, as construções abaixo da média, que são a grande maioria, enfrentam todo tipo de dificuldade, mas cada um se vira como pode… Muitas dessas “células” contam com sistemas de alimentação muito eficientes, onde se pode conseguir todo tipo de alimento nas “cabines frigo-reguláveis”, com carnes, verduras, legumes e frutas em profusão. Tudo pode ser levado aos “equipamentos de cocção alimentadores” para saciar os apetites mais diversos e refinados. Temos também “sistemas de descarte automáticos” para sobras e restos, que são levados para não sabemos bem aonde e se são utilizados para reaproveitamento matando a fome de algo ou alguém. Mas isso não vem ao caso. O importante é que vocês percebam o quanto evoluímos e como tudo funciona bem.

Eventualmente saímos de nossa “célula de sobrevivência” para alguma atividade externa. Para isso utilizamos “cápsulas de transporte” sofisticadíssimas, verdadeiros receptáculos de metal e vidro, que nos transportam através de um engenhoso “sistema de flutuação a ar vaso-circular-comprimido de borracha”, pelas ruas e avenidas perfeitamente calçadas, iluminadas e sinalizadas. Praticamente corremos sentados, sem tocar o chão, confortavelmente acomodados em poltronas de couro legítimo, observando, de dentro de um ambiente climatizado e com música ambiente, a paisagem externa com eventuais cenas de pessoas, aparentemente, com um gosto estranho para se vestir e asseio duvidoso, andando a pé, o que é totalmente desaconselhável, já que para nos exercitar contamos com as “esteiras eletrônicas de atividade corporal”. Cada um sabe de si, mas como eu ia dizendo, temos também “cápsulas de transporte” coletivos, e até subterrâneos, onde, dependendo do grau de civilização do país, pode ser até chique utilizar. Existem também “cápsulas” aéreas e marítimas, de todos os tamanhos e capacidades, transportando milhões de pessoas de um lado para o outro, gerando uma quantidade gigantesca de monóxido de carbono, contribuindo para esse belo tom azul-acinzentado do nosso planeta. Existem variações utilizando eletricidade, hidrogênio e outras alternativas não-poluentes, mas que não são economicamente justificáveis para uso em grande escala.

Assim nos locomovemos de uma “célula de sobrevivência” para outra, ou para as diversas “estruturas sócio-psico-organizadas” de trabalho, saúde, educação e consumo ou lazer disponíveis. 

As “estruturas de saúde” são grandes e eficientes espaços para a solução de problemas aflitivos da composição biológica humana. Bem… alguns são muito eficientes, frequentados por aqueles que ocupam certos cargos e funções extremamente reduzidos e específicos. A grande maioria no entanto ainda utiliza atendimentos baseados em orações, fé e esperança. Há centros especializados em atendimento animal, com tratamento muito mais humanizado do que para a grande maioria dos seres humanos!

Já as “estruturas de educação” descrevo com o maior orgulho! Nelas são depositadas todas as crianças que aos poucos vão deixando de ser fofas e começam a falar, gritar e reclamar de tudo, deixando seus pais malucos. Então passam a fazer tudo isso, em conjunto com diversas outras da mesma idade, em salas hermeticamente fechadas, aprisionadas e quase controladas por profissionais altamente gabaritados, treinados para conviver em meio à algazarra e balbúrdia. Pouco a pouco as crianças vão evoluindo, passando pela encantadora fase da agressividade juvenil, com foco principal nos professores, até chegar aos grandes “centros universais de pré-adultologia”, onde é estimulado fortemente a prática de contestação estéril, de resultados constantes e improdutivos, e as experimentações, constantes e improdutivas,  de todas as substâncias psico-álcool-viajandólica disponíveis, possíveis e inimagináveis. Terminam essa fase prontos para enfrentar a vida adulta, comandando os funcionários do papai, fazendo todo tipo de arte e abreviando vidas. Prontos para o trabalho! Muitos acabam não oferecendo benefício algum para a sociedade e seguem a carreira política.

As “estruturas de trabalho” trazem uma solução muito inventiva. Todos os bens e serviços foram transformados em mercadorias, que são trocadas entre todos de acordo com a necessidade de cada um. Usa-se um engenhoso sistema de pagamentos através de valores numéricos proporcionais à quantidade de horas consumidas na produção e ao valor intrínseco do produto ou serviço em si. Os valores são transacionados por uma terceira estrutura que cobra uma taxa variável em cada transação. Existem diversas estruturas, públicas ou privadas, que também cobram taxas sobre as transações, de tal maneira que aquele que tem alguma coisa para receber, acaba recebendo uma porcentagem muito menor do que deveria realmente receber. Desse modo, cria-se uma grande ilusão de que quem trabalha acha que está trabalhando e quem paga pensa que está pagando, e tudo vai funcionando de tal forma que a riqueza segue um fluxo constante de concentração. Desculpe, esse tema deve ser muito complicado para você que vive no passado. Não era minha intenção! Vamos voltar para coisas mais simples.

As “estruturas de oxigenação”, por exemplo, são espaços amplos, com muitas áreas verdes e espaços para esporte e lazer. Saímos de nossa “célula de sobrevivência” com nossa “cápsula de transporte”, nos conduzimos até o “abrigo estacionário de cápsulas” e praticamos a “caminhada passo a passo em esteira” sem esteira. O que é extremamente saudável e revigorante! Evidentemente existem muitas outras “estruturas de oxigenação” gratuitas, sem manutenção e segurança, onde a grande maioria da população corre o risco de perder a vida, ou algo muito pior, como o “APP – Aparelho Particular Pessoal” de comunicação.

Assim é o futuro: uma intensa e contínua inter-relação entre “células de sobrevivências”, “cápsulas de transportes” e “estruturas sócio-psico-organizadas”, gerando o atendimento das necessidades animais, racionais e irracionais, desse resquício de projeto divino chamado Ser humano.

Espero ter contribuído de alguma forma, oferecendo uma visão ampla sobre este que tem sido motivo de dúvidas e apreensão de muitas pessoas: o Futuro. Infelizmente, ainda não encontramos uma maneira de receber um feedback das gerações passadas, que se encontram na pré-história da “Era da Comunicação”, ainda engatinhando nesse processo. Felizmente algumas tentativas, aqui e acolá, tem chegado até nós através de envios de ícones rudimentares, praticamente pictogramas pré-históricos representados por um Positivo, um Coração ou Palmas. Eventualmente recebemos uma expressão ou outra, como um “Lindo”, “Muito Bom” ou “Parabéns”! Mas raríssimos são aqueles que arriscam compor uma frase completa ou uma análise mais estruturada.

Na real, quando menos se espera, você está no futuro, pois ele, assim como o passado, está em você. De qualquer maneira, por trás de toda a evolução e tecnologia, avanços ou retrocessos, existe a base de tudo, em pele, carne, sangue e ossos, entendimento e essência. E deve ser este o objetivo principal de cada um: a consciência da verdadeira felicidade em seus corações, infinita e real. Esse é o poder das pessoas. Só assim podemos conseguir as mudanças. Pois o futuro é somente o resultado de um presente fruto de um passado.

CaMaSa

Imagem: MAUROCOR

Os Assaltos – Parte 4

Enquanto Baruch dava seu último suspiro, Ruby deixava a cozinha e a despensa vazias para trás. Estavam tão abandonadas que nem os ratos ainda permaneciam por lá. Comida e bebida não frequentavam aqueles aposentos há muito tempo! Andou lentamente por toda sala de estar, cheia de sofás puídos, mesas empoeiradas e abajures mortos, deixando pegadas na poeira suja acumulada no chão. Subiu lentamente a grande escada principal, iluminada eventualmente por raios e relâmpagos cada vez mais intensos.

Mané havia deixado Tanaka de guarda no topo da escada caracol e tateava as paredes procurando por Genaro. Chegou ao grande parapeito circular e o percorreu até chegar ao lado oposto da escada. Encontrou uma reentrância na parede onde havia uma pia de pedra com metais dourados. De cada lado dessa bancada havia  banheiros com vasos sanitários e portas decoradas com figuras, femininas e masculinas, de madrepérola. Experimentou a torneira que cuspiu uma água fria e de gosto ruim. Matou a sede assim mesmo e enquanto limpava a boca na manga da camisa, sentiu uma fedentina pavorosa de esgoto. Se perguntou se viria do ralo da pia, quando ouviu um gemido assustador vindo de uma das portas. Arrepiou-se de pavor e, mais por medo do que por coragem, perguntou:

– Quem está aí?

– Uma alma, respondeu Zé, de olhos arregalados, todo cagado. 

– Que queres? Pelo fedor de enxofre vens dos quintos dos infernos. Devolveu o portuga de pulso acelerado.

– Sou de Garanhuns, seu lazarento. Poucos são os que me desafiaram e sobreviveram pra contar! Revidou o Zé, já pensando em pão quente com manteiga, um pingado e uma salada de frutas com groselha e aguardente.

– Pois vá-te daqui, infeliz! Aqui tens um cristão de dois dobrados, protegido da Virgem da Lata de Azeite e de São Bacalhau Salgado.

Aquilo atingiu Zé como um soco no estômago. Ele não teve outra alternativa senão lançar uma longa e potente bomba de gás. Mané atingido no nariz, saiu de lá cambaleante, em busca de ar puro. O outro aproveitou a oportunidade e abandonou o pobre vaso de porcelana à própria, e lastimável, sorte.

Nesse exato momento, sem que percebesse a presença dos dois homens, Tanaka chegava ao lado esquerdo do balcão, notando a ampla escada de madeira que se esparramava para baixo. Andou no escuro até o centro dela, no mesmo instante em que Ruby vinha do lado oposto em sua direção. Quando estavam a menos de meio metro um do outro, quase trocando suas respirações, um raio potentíssimo iluminou o ambiente, com clareza prateada,  por três longos, e quase eternos, segundos. Perceberam-se, viram-se, olharam-se e amaram-se intensamente como ninguém antes havia se amado. A magia da tempestade, a cega paixão dos olhos de vidro, a carência aguda de toda uma vida de incertezas, juntaram-se, tramaram e arrebentaram as máscaras e os mitos. Nunca haviam visto rostos tão ávidos de amor, e tão bonitos. Ruby viu-se menina inocente, nos seus 13 anos, diante de um príncipe. Tanaka viu dois olhos azuis, um normal e um de vidro, assim como ele. O tempo parou, congelou-os naquela paixão infinita que dura o espaço de tempo entre o inspirar e o expirar do ar nos pulmões.

Alheios a tanto amor e paixão, Zé e Mané, por razões próprias, deixavam o lugar em que estavam o mais rapidamente possível. Na pressa, nosso companheiro Zé pisou no rabo de um gato preto e magro que dormia o sono dos justos. O bichano, pela dor e pelo susto, soltou um grito apavorante, de gelar os ossos, que ao Mané pareceu Belzebu tomando um chute no saco, e ao Zé, a sirene de uma rádio patrulha. Correram 100 metros rasos em 8 segundos, cada um percorrendo o parapeito circular em direções opostas. Quando estavam a menos de 2 metros de se chocarem, bateram nas costas de dois corpos em transe, Ruby e Tanaka, que estavam bem no meio da escada. Os dois amantes chocaram-se tão violentamente que, com o impacto, os olhos de vidro saltaram das órbitas e desceram a escada, quicando os degraus. Tec, Tec… Tec Tec, Tec Tec… Tec Tec Tec, Tec Tec Tec… até rolarem no piso lá embaixo, parando cada um em um lugar. 

Apavorados e envergonhados, os dois enamorados desceram a escada desesperados, tropeçaram e rolaram até o chão. Ruby engatinhava procurando a bola de vidro com as mãos, enquanto Tanaka jazia desacordado nos últimos degraus. Quando ela encontrou um olho, foi agarrada pelos braços por Alfa Berto e Zé, que gritavam alucinados:

– Corre Ruby! A casa caiu… É a polícia. Cooorre!

Ela tentou resistir, mas o medo da prisão e a força dos dois homens, foram muito maiores. Deixou-se levar até o DKW estacionado diante da mansão e aos poucos deixou-se controlar pela razão.

Genaro deixou o aposento do falecido Baruch e, com a lamparina iluminando o caminho, encontrou Mané tentando reanimar o amigo japonês. Tanaka acordou com o Genaro explicando o que o ex-patrão tinha dito e o que havia acontecido, e calmamente saíram da casa, já noite alta, rumo ao próximo dia. 

Cada um dos seis tomou uma direção na vida…

Genaro tornou-se um pequeno empresário, sustentou algumas famílias de funcionários driblando as dificuldades da compra e venda, dos impostos altos e lucros baixos. Juntou em torno de si filhos, netos e bisnetos, até que amanheceu um dia em sua cama duro e gelado, no rosto uma expressão de missão cumprida.

Zé deixou o emprego de servente de pedreiro e conseguiu uma vaga na indústria automobilística. Com as sementes teóricas plantadas pelo companheiro Alfa Berto na cabeça, vinculou-se ao movimento sindical e evoluiu, chegando à liderança de uma importante categoria de trabalhadores, reivindicando melhores condições de trabalho e uma sociedade mais justa. Mas não assumiu a responsabilidade por nada.

Mané vendeu sua parte na sociedade para o amigo e voltou para a terrinha, onde o aguardavam sua mulher e seu filho, seu sogro e sogra, com festa e terno de casamento prontos. Fez mais alguns filhos, investiu e prosperou com o capital recebido, plantando oliveiras e parreiras, sonhando sempre com um Brasil que deixou para trás.

Alfa Berto voltou a ser simplesmente Alberto, entrou para a faculdade de Administração de Empresas e assumiu os negócios da família. Levou os negócios do pai a um patamar muito elevado, formou cartéis, comprou políticos, juízes e presidentes. Construiu um império de corrupção multinacional e estádios de futebol, entre outras obras monumentais.

Ruby foi presa numa batida rotineira. Identificada como subversiva, foi deportada junto com outros conterrâneos para a Argentina. Lá enfrentou a violência de uma ditadura implacável que não mascarava a situação de conflito interno, declarando a guerra abertamente aos inimigos. Alguns meses depois de confinamento em porões insalubres, foi convidada para um passeio de avião. A 4.000 pés de altura, com a porta da aeronave aberta, pediu ao algoz um último desejo. Que lhe tirassem o capuz da cabeça. Foi lançada para um vôo solitário na noite escura e gelada, com as mãos firmemente amarradas às costas. Abriu os olhos, um azul e um negro de vidro, para admirar a paisagem, com a coragem infinita dos que acreditam num mundo mais livre e justo, e mergulhou sem volta no mar profundo.

Tanaka também pegou sua parte da sociedade e caiu no mundo à procura de sua amada. Perguntava a todos se haviam visto uma deusa de olhos azuis que havia roubado seu olhar e seu coração. Começou a pichar mensagens em postes e muros, placas e monumentos, até que foi preso e interrogado. Consideraram suas frases desconexas subversivas e o prenderam sem direito à defesa, por questões de segurança nacional. Sofreu, apanhou, foi afogado em tambores de água suja, pendurado em pau de arara e tomou choque nos testículos. Nada confessou porque nada tinha para confessar, somente sua paixão pela moça da mansão. Cansaram-se dele e o transferiram para o manicômio, onde sofreu, apanhou e foi mais maltratado e dopado. Passado algum tempo, o puseram na rua, mais confuso e doente do que quando entrou. Foi socorrido por um parente muito idoso, um tio que morreu lhe deixando ferramentas de marcenaria da mais alta qualidade. Serrotes, martelos, formões, chaves-de-fenda e plainas de precisão. Um dia bateu à porta da oficina do meu pai que o aceitou prontamente. Trabalhava a madeira com perfeição, mas tinha o hábito de escrever em pedaços de madeira suas mensagens que ninguém compreendia. Não conversava com ninguém e se alguém tentasse uma aproximação era repelido com violência verbal. Falava somente o necessário comigo, quando aos 12 anos eu fazia o pagamento dos funcionários. Sentava-se diante de mim, eu apresentava as contas e, se tudo estivesse do seu agrado, repetia a história da linda moça que roubara seu olho numa noite sem fim.

* * *

Dois meses depois da morte de Baruch, um grupo de agentes da C.I.B. – Central de Inteligência Brasileira, fora designado para uma missão numa mansão abandonada na Avenida Paulista. Havia suspeitas de movimento terrorista no local e o proprietário, um judeu bilionário, havia desaparecido deixando toda sua fortuna para instituições de caridade. Invadiram o local arrombando a porta principal e deram início às buscas. Chegaram a um pequeno aposento, onde jazia um corpo em decomposição, cheirando muito mal e esparramando fluidos já ressecados pelo chão.

– É sempre assim. A gente sempre chega quando a merda já aconteceu, disse o sargento Moura.

– É… a gente que vai ter que limpar isso daí… respondeu o Cabo Naro.

CaMaSa

Os Assaltos – Parte 3

O que era para ser um assalto comum, desses de entrar, pegar e sair assobiando, se transformou numa montanha russa de emoções e surpresas. Não dessas Six Flags americanas, seguras e antissépticas, onde a gente tem absoluta certeza que vai chegar são e salvo ao final. Não, estou falando de montanha russa raiz, de madeira, tipo Parque Shangai, localizado na divisa entre a Mooca e o Glicério, na década de 60. O carrinho de ferro carcomido pela ferrugem,  pintado em cores vibrantes e espalhafatosas, com rodas ensaboadas de banha animal suja e mau cheirosa, voando a não-sei-quantos por hora sobre os trilhos trepidandes e mal fixados por pregos e parafusos muito gastos, a milímetros de se soltarem. Quem andou, sabe…

Genaro e Alfa Berto, Mané e Zé, Tanaka e Ruby, estavam todos na casa de Baruch, ao mesmo tempo,  sem que cada grupo soubesse da presença do outro. Espalharam-se como ratos pela mansão labiríntica escurecida pela noite tempestuosa. A entrada principal tinha um amplo saguão com piso em mármore, onde nascia uma larga escada, toda em carvalho americano, subindo para o andar superior num enorme arco que se abria para ambos os lados num corredor circular, o qual dava acesso a vários aposentos.

O companheiro Zé começava a sentir os fortes efeitos da feijoada, com macarrão e moqueca da hora do almoço, e deu prioridade, na sua busca, ao encontro de um banheiro, com total urgência. Genaro atravessou a sala principal em direção à biblioteca, certo que encontraria o cofre secreto entre as estantes, onde estariam guardados os bens mais preciosos. Ruby foi até a cozinha para vasculhar a despensa e alguma passagem secreta de um porão no subsolo, enquanto Alfa Berto subiu a escada principal e começou a examinar cada um dos quartos com muito cuidado. Mané e Tanaka encontraram uma outra escada, de ferro fundido, em caracol, que acessava uma segunda ala de dormitórios, mais ao fundo do casarão. Subiram silenciosamente, tateando no escuro os degraus com os bicos dos pés.

Genaro nunca tinha visto tantos livros em sua vida! As estantes iam do chão ao teto alto, muito alto, provavelmente com mais de 4 metros. Era uma infinidade de lombadas coloridas, pardas no lusco-fusco da penumbra, de várias espessuras e texturas. Será que o patrão havia lido todos aqueles livros? Idade ele tinha, pensou. Estranhamente, era o lugar da casa que menos cheirava a mofo, podridão e ruína. Certamente se riqueza significava viver naquele ambiente, ele preferia o cheiro da luz do sol do seu humilde lar. Mas ele precisava de uma pequena parte do que Baruch possuía, tão pouco que o velho nem perceberia, mas o suficiente para realizar a operação do seu caçula. Não havia outro jeito, ele tinha que conseguir! Pôs-se a procurar ansiosamente, puxando cada um dos livros do lugar, buscando por algo que desconhecia. Até que tocou um livro diferente, duro, de madeira. Puxou-o e este fez um clique… O falso livro tinha o canto da base fixa na prateleira, com uma espécie de dobradiça, e quando ele girou completamente sobre esse eixo, abriu uma estreita porta de correr que dava acesso a um corredor escuro e gelado. Genaro acendeu seu isqueiro e avançou por uma rampa curva, muito íngreme.

O companheiro Alfa Berto já revistava o terceiro quarto e não havia encontrado nada nem ninguém. Estava cada vez mais desconfiado que a missão era uma armadilha ou um tipo de treinamento a que haviam sido submetidos pela organização. Não sabia o que procurar e o que fazer se encontrasse alguma coisa. Mas gostava da sensação de aventura, do risco e do perigo. Eram experiências que não podia viver sob o teto burguês da família, suas tradições e propriedades. Seus pais já eram muito ricos quando nasceram e ficaram milionários quando juntaram suas fortunas em matrimônio. Poderosos no ramo da construção, viviam recebendo em casa, para jantares e reuniões, membros do alto escalão do governo. Ele, por rebeldia juvenil, tímido e introspectivo, encontrou nas teorias revolucionárias a válvula de escape para suas frustrações. Tinha nessa dupla identidade, a realização de uma fantasia, brincando de agente secreto, de mocinho e bandido, na vida real.

Quando abriu a porta do sexto dormitório, percebeu uma luz fraca e bruxuleante vinda através de uma porta com molduras envidraçadas. Aproximou-se cuidadosamente e olhou para dentro do que parecia ser uma pequena câmara, em cujo centro havia uma pequena mesa de madeira. Sobre a mesa uma pequena lamparina a óleo iluminava pobremente o ambiente e, sentado diante dela, olhando fixamente para uma moeda dourada à sua frente, estava um homem muito velho, com ralos cabelos brancos caindo sobre os ombros. Do outro lado do aposento, viu uma porta igual a que ele estava e, por trás dela, a figura de um homem forte e rude, olhando para ele espantado. Ambos tiveram a mesma reação, abrindo a porta rapidamente, correndo em direção ao velho homem e pegando em seus braços. Genaro pela direita e Alfa Berto pela esquerda.

Teve início uma intensa disputa onde o velho Baruch era puxado de um lado para o outro, feito um fantoche de pano. Os dois oponentes reconheceram-se imediatamente adversários ideológicos e se puseram a trocar ofensas que começaram com um “Porco Fascista” daqui, um “Comunista Ladrão” de lá, descambando para uma cantilena interminável de palavras de ordem e chavões políticos. O infeliz judeu, enjoado com os chacoalhões e irritado com o discurso dos dois lados da mesma moeda em suas orelhas, juntou as mirradas forças que lhe restavam e gritou um “Basta”, cheio de ira. Os dois inimigos, surpreendidos, olharam para o ancião, prestando atenção no que ele dizia: 

– Vocês chegaram atrasados, seus idiotas! Se estão atrás do meu dinheiro, saibam que não existe mais tesouro algum nesta casa. Tudo, absolutamente tudo, agora está em mãos seguras, sendo administrado por organismos internacionais especializados em gestão de entidades assistenciais, sem fins lucrativos.

Os dois olharam-se embasbacados, enquanto Baruch contava sua história, desde o princípio:

– Nasci numa família muito rica, descendente direta da comunidade asquenaze, desde o século V, sobrevivente do massacre de Tréveris, cidade histórica da Alemanha e também a mais antiga, localizada no estado da Renânia-Palatinado. Com negócios diversificados em alimentos, tecidos, ouro, ferrovia e siderurgia, tínhamos escritórios por toda a Alemanha e sede em Berlim. Financiamos, durante a Primeira Grande Guerra, a participação de judeus-alemães, onde foram mortos mais de 12.000 soldados judeus. Lucramos sobre a morte de cada um deles. Chegamos aos primórdios nazistas como uma das maiores fortunas alemãs e do planeta. Em nosso castelo recebíamos toda cúpula do futuro governo, em conchavos regados a champanhe e caviar, da futura máquina de guerra do III Reich. Goebbels, Mengele, Pohl… o Führer em pessoa bebericou licores em nossa sala de jantar! Quando as armas se voltaram definitivamente contra nosso povo, somente os muito abastados, e bem relacionados, conseguiram deixar o solo alemão em busca de segurança nas Américas. Uma parte de nossa família fugiu, outra parte foi assassinada, e alguns, entre eles eu, ficou para auxiliar os oficiais de alta patente e ministros alemães, a compreenderem os mecanismos de gestão de nossas empresas. Quando não tínhamos mais utilidade, nos despachavam para os campos de concentração. Cheguei em Sobibor com 68 anos, e fui talvez o único em idade tão avançada, a sair com vida de um campo. Em parte por conta dos meus contatos com a elite alemã, em parte porque a fortuna escondida que me aguardava lá fora valia qualquer sacrifício. Dirigentes do campo de concentração me deram a função de espião, levando para eles informações sobre qualquer tentativa de insubordinação de prisioneiros. São centenas de inocentes dos quais tenho responsabilidade sobre suas mortes… Não tenho peso na consciência. Fiz o que me cabia ter feito. Recentemente, duas semanas atrás, tive minha sentença de morte declarada por um médico especialista e, a partir de então, tive uma espécie de revelação…

– Esse menino, esse nazareno que vocês tanto veneram… somente agora compreendi o seu significado. Ele não tinha intenção de destruir os romanos, a Lei de Moisés, a Torah… Nem muito menos queria fundar uma nova religião para vender passagens para o Paraíso. Não queria ser chefe, mestre, ídolo ou deus de coisa nenhuma. Ele só compreendeu o significado, encontrou as respostas para as perguntas não feitas, a Paz, dentro, e tentou ensinar aos homens como alcançá-la, sem pedir nada em troca. Simples, verdadeiro e real. Só esse é meu arrependimento. Não ter experimentado, a cada dia, uma e outra vez, esse infinito interior da existência, pois nos tornamos excelentes naquilo que mais praticamos.

– Quando compreendi isso, doei tudo que tinha para instituições que farão o bem aos mais necessitados, crianças e inválidos, doentes e velhos sem recursos. Com esse mesmo dinheiro que usei para comprar políticos e administradores corruptos do erário público, ou financiei a oposição a governos que não quiseram dobrar seus joelhos aos meus interesses, armando patifes sem alma para criar confusão e instabilidade, com essa mesma riqueza, farei aquilo que jamais tive intenção de fazer. Ajudar o próximo!

O velho judeu respirava com dificuldade e pesava bem as palavras antes de dizê-las, como se fizesse um testamento oral. Prosseguiu:

– A pequena fabriqueta de sapatos que usei como disfarce para fugir de perseguidores implacáveis, caçadores de recompensas, deixei para você Genaro, para o Mané e o Tanaka. Divirta-se administrando uma empresa no Brasil, com as inúmeras dificuldades e entraves burocráticos. É minha vingança pelas horas de trabalho roubadas, pelas matérias-primas descartadas sem necessidade e pelos produtos extraviados. Quero que você sinta na carne o que é ser patrão e tentar não se tornar pior do que eu.

Calou-se, pegou a moeda sobre a mesa com sua mão direita e cerrou-a firmemente. Havia reconhecido um Messias, mas, por garantia, era melhor ter alguma coisa para barganhar do lado de lá do umbral. Apoiou a mão esquerda sobre a mesa, deslizou lentamente para a frente apoiado nela e tombou a cabeça sobre a mesa, num baque surdo, já sem respirar.

CaMaSa

Os Assaltos – Parte 2

A célula ficava num lugar tão secreto, mas tão secreto, que ninguém, além dos três, sabia onde ficava. Alberto, codinome Alfa Berto, fumava um cigarro após outro enquanto andava aos círculos pela sala estreita. Estava com ele o companheiro José Teodósio, codinome Zé mesmo, legítimo representante da classe operária oprimida e explorada pelo capitalismo selvagem, ainda que ele não tivesse a menor ideia do que o outro falava. Esperavam a companheira Rúbia, codinome Ruby, que havia saído ao encontro de um superior para receber as instruções para a missão. Alberto tinha antipatia por ela. Achava que ela era bonita demais, muito arrumada, sem buço e de sovacos raspados. Muito burguesa para seu gosto.

Ruby era argentina, havia participado do movimento estudantil em Buenos Aires, no conturbado início dos anos 60, tendo testemunhado a Noche de los Bastones Largos, quando a Diretoria Geral de Ordem Urbana da Polícia Federal Argentina invadiu e expulsou de cinco faculdades da Universidade de Buenos Aires (UBA), na Argentina, os estudantes, professores e funcionários que haviam ocupado os locais em oposição à decisão do tenente general Juan Carlos Onganía de intervir nas universidades e anular o regime governamental. Ela estava na Faculdade de Ciências Exatas, e viu quando Rolando García, o reitor da época, foi ao encontro dos policiais, dizendo ao oficial que estava executando a operação:

– Como ele ousava cometer esse ultraje? Eu ainda sou o reitor desta casa de estudos.

Um guarda enorme e corpulento golpeou-lhe a cabeça com o cassetete. O reitor levantou-se com sangue no rosto e repetiu suas palavras: o grandalhão repetiu o golpe em resposta.

Um total de 400 pessoas foram presas e laboratórios e bibliotecas universitárias destruídas. Ruby, que já tinha uma participação efetiva nos movimentos reformistas, aderiu cada vez mais às atividades contra o governo, perdendo aos poucos sua identidade civil e integrando os quadros revolucionários latino-americanos. Esteve em Cuba, Colômbia, Peru e Bolívia. Participou de diversas atividades até que numa delas sofreu uma emboscada e foi gravemente ferida na cabeça. Perdeu um dos belíssimos olhos azuis, substituído posteriormente por um brilhante e sem vida olho de vidro. Foi transferida pela F.I.P.U.L. – Frente Internacional Planetária Unida Livre –, para uma região mais tranquila. Veio para o Brasil.

Ruby chegou ao local combinado, a igreja São Rafael, na Mooca, logo após a hora do almoço. A igreja tem um estilo único, Art Decó, caracterizado pelo uso de formas geométricas ou estilizadas em detrimento das formas orgânicas que eram frequentes no estilo Art Nouveau. Diferente desse estilo, o Art Déco prezava pela simplicidade da forma, sendo comum o uso da figura feminina e da figura de animais. Este estilo teve influências dos princípios do Cubismo. Ruby estava sentada no terceiro banco de madeira, do lado direito da nave, conforme as instruções que havia recebido por telefone, muito admirada pelo estilo retilíneo e elegante da igreja. Ela seria contatada pela companheira Doutora, apelidada DR, que lhe daria as orientações verbalmente. O local estava completamente vazio quando ela percebeu uma lenta aproximação. Uma mulher jovem sentou-se no banco atrás dela e imediatamente começou a falar frases desconexas que a princípio pareciam ser um código desconhecido:

– Não olhe pra trás! Ordenou. – Se hoje é o Dia das Crianças, ontem eu disse que criança… o dia da criança é dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é algo muito importante. Primeiro, eu queria te dizer que eu tenho muito respeito pelo ET de Varginha. E eu sei que aqui, quem não viu conhece alguém que viu, ou tem alguém na família que viu, mas de qualquer jeito eu começo dizendo que esse respeito pelo ET de Varginha está garantido. Então, para mim, essa bola é o símbolo da nossa evolução. Quando nós criamos uma bola dessas, nós nos transformamos em homo sapiens ou mulheres sapiens.

Terminou de falar, levantou-se e saiu lentamente, enquanto Ruby aguardava por mais instruções, pelo menos alguma que fizesse algum sentido. Depois de alguns minutos de tensão e espera, virou-se e viu que estava novamente só, sem entender absolutamente nada do que havia acontecido. Percorreu toda a igreja com os olhos e percebeu um pedaço de papel dobrado sobre o banco onde DR havia sentado. Pegou o bilhete e saiu de lá rapidamente. Pegou um táxi e voltou para o esconderijo, onde os companheiros a aguardavam ansiosos.

Mais cedo, naquela manhã, o padre Valentino tinha recebido a visita do padre Péricles, diácono da diocese de Santo Amaro, para uma visita amigável. Circularam por toda paróquia e, depois de tomarem um café quentinho e saboroso, sentaram-se num dos bancos da igreja para conversar sobre as dificuldades atuais enfrentadas pelos católicos em todo mundo e, mais importante, os próprios problemas. Valentino expôs os problemas de sua paróquia, de ordem material e espiritual, não deixando claro qual era a ordem de prioridade entre elas. A igreja necessitava de reformas, havia infiltrações e paredes precisando de tinta, até Santo Antônio das Paredes estava com o nariz descascado, como quem tinha tomado muito sol sem passar hipoglós! Mas as contribuições eram mínimas, mal davam para o custeio das despesas regulares. Recentemente, no entanto, um dos paroquianos, cumprindo uma promessa ao santo, trouxe uma moeda de ouro, aparentemente valiosa! Mas nosso bom Valentino não sabia como conseguir o maior valor por ela.

O rechonchudo, prestativo e bondoso padre Péricles, vindo de paróquia mais abonada, frequentada por cidadãos da mais alta estirpe, conhecedores profundos do mundo das finanças, e do submundo também, contou que estes haviam lhe mencionado certos mercadores de ouro, bons negociantes, sempre prontos para adquirir o vil metal. Sabia de um, inclusive, interessadíssimo especialmente em moedas. Era um velho judeu, bem sovina, mas que aceitava pagar acima do valor de mercado quando negociava certos tipos de moedas douradas. Tirou do bolso da batina um pequeno caderninho, anotou nome e endereço, e entregou ao padre Valentino. Este ficou tão agradecido que nem lembrou, quando colocou o papel dobrado em seu bolso, que este estava furado. Quando se levantou para acompanhar o visitante até a saída da igreja, não percebeu que o bilhete havia caído sobre o banco de madeira.

O companheiro Alfa Berto tentava explicar pela décima vez ao companheiro Zé o significado da mais-valia, quando ouviram três toques, seguidos de mais um, seguidos de mais dois toques na porta. Era a companheira Ruby que retornava finalmente! Ela estava com os cabelos lisos e negros levemente desalinhados, formando uma moldura perfeita naquele rosto fino, de pele clara e sedosa, contrastando lindamente com os olhos azuis, da cor do céu, limpo e sem nuvens, enfeitados por uma boca de lábios macios e vermelhos, naquele momento entreabertos e exibindo os dentes brancos e brilhantes como porcelana. Alfa Berto pensava seriamente em comunicar aos seus superiores que a aparência, e o jeito excessivamente sensual da companheira, não eram adequados aos interesses revolucionários da F.I.P.U.L., mas sempre reconsiderava quando ela começava a falar com aquela voz melodiosa, cheia de sotaque portenho, envolvente e desconcertante.

Ruby relatou aos companheiros tudo o que havia acontecido, em todos os pormenores, para que eles pudessem ajudá-la a compreender a mensagem verbal que havia recebido da companheira Doutora, DR, pois ela mesma não fazia a menor ideia do que poderia significar. Alberto ouvia atentamente enquanto Zé fazia cara de quem compreendia toda aquela mensagem cifrada, chegando muito próximo da expressão facial de um sábio matemático, pronto para gritar Eureka! Depois de horas debruçados sobre o problema, exaustos e a ponto de desistir, ela lembrou-se do papel deixado sobre o banco da igreja e exibiu-o aos outros dois. Abriu-o cuidadosamente sobre a mesa de fórmica verde água e os três leram apreensivamente o que nele estava escrito:

BARUCH – AVENIDA PAULISTA, 1412

CaMaSa

Os Assaltos – Parte 1

Tudo estava milimetricamente calculado. Haviam passado meses estudando mapas, horários e possibilidades. Avaliaram todas as variáveis, antecipando movimentos como num jogo de xadrez. Exatamente para que não fossem parar no xadrez! Genaro, Mané e Tanaka sabiam que não tinham alternativa e que o dinheiro do patrão, o judeu Baruch, aguardava-os de braços abertos. Os três trabalhavam na fábrica de sapatos da Rua Dom Bosco, que ficava embaixo da fábrica de celuloides para relógio de pulso. Era um armazém pequeno, de dois andares, com 10 metros de frente por 40 de profundidade. O couro dos sapatos chegava em rolos, era liso de um lado e acamurçado do outro. Era aberto sobre bancadas de madeira e funcionários treinados marcavam a giz os defeitos, que eram recortados cuidadosamente com estiletes afiados como bisturi. A menor imperfeição, um furo feito em cerca de arame farpado ou a marca de um berne, era sumariamente extirpada. Depois, a peça de couro era posicionado em bancadas lisas, de madeira macia, e eram cortados habilmente com o auxílio de moldes pré-determinados, de acordo com o modelo de sapato. A peça era aproveitada ao máximo, restando somente pequenas tiras da matéria-prima, que eram acumuladas em tambores para descarte. Os moldes recortados eram furados, pespontados e costurados, esticados sobre modelos de madeira, compostos de duas partes unidas por um sistema de parafusos que, depois de um certo tempo, eram reaproximadas e retiradas do interior da peça de couro. Esta era colada à palmilha e posteriormente fixado ao solado de couro grosso para finalmente ser dado o acabamento.

Genaro emigrara da Itália nas primeiras levas da década de quarenta, e trouxera de lá a técnica dos “scarparos” apreendida do pai e do avô. A falta de oportunidades no país natal, trouxera ao Brasil um jovem idealista, beirando o anarquismo, cheio de fome e ambição. Imaginou que viria para uma terra de sonhos e dinheiro fácil, mas só encontrou dificuldades e condições de trabalho precárias. Conheceu a esposa mineira numa viagem de bonde, seduziu-a com seu bigodinho fino à Clark Gable e, rapidamente, colocaram mais quatro bocas famintas no mundo.

Mané era o intelectual do grupo. Viera de Rabaça, distrito da Guarda, província de Beira Alta, aos 17 anos, fugido de um pai enraivecido de uma menina linda, com os primeiros pelos do buço surgindo e o ventre cada vez mais volumoso. Ele penteara o buço, a boca, o pescoço e tudo mais que o desejo lhe dizia, com seu farto bigode preto e brilhante como piche. Pé rapado, sem eira nem beira, lançou-se ao mar em direção ao distante Brasil, onde tinha um tio-avô que nem conhecia, de quem dizia-se ser rico e influente no negócio de pães e farinha. Quando o encontrou, velho e maltrapilho, descobriu que o tio era faxineiro na padaria, e o seu negócio com farinha era varrê-la do chão!

O Tanaka era o mais jovem, tinha 20 e poucos anos, bonito e com o corpo bem delineado, imberbe, não tinha bigode. Era nissei de primeira geração e do Japão tinha somente um olho puxado. O outro havia perdido num acidente doméstico e, por conta disso, usava um de vidro que dava ao olho um formato mais arredondado, ocidentalizado. Seja por causa do trauma do acidente na infância, tinha 3 anos de idade, seja por questões genéticas, ou porque o Criador assim quisera, o japa tinha uma leve defasagem entre a idade biológica e a mental, que o mantinha razoavelmente mais sorridente que o normal, além de muita dificuldade para compreender a realidade que o cercava. Era extremamente tímido, nunca havia namorado e, talvez, nunca tinha conversado com alguma garota.

Genaro porque precisava, Mané porque ainda amava a mãe do filho que não conhecera e Tanaka, porque não entendia muito bem o que fariam, cada um com sua razão, juntaram-se no objetivo comum de tomar do velho Baruch uma parte do dinheiro que lhes cabia. O judeu passou mal bocados na vida! Era um dos poucos anciãos que haviam estado em campos de concentração nazista e saiu vivo de lá para esquecer. Usou de muita astúcia e malícia para sobreviver. Comeu unhas, ratos e insetos. Negociou, fingiu, lambeu botas, traiu e delatou. Não tinha amigos e parentes quando lá chegou e ganhou inimigos de ambos os lados quando saiu. Mas sobreviveu. E ainda saiu de lá com um tesouro! Uma moeda de ouro, que surrupiou de um sargento alemão e acusou um companheiro de cela pelo roubo. Este pagou com a vida, mas a morte já o esperava de qualquer maneira, Baruch só antecipou o encontro algumas semanas.

Quando chegou ao Brasil, o velho judeu encontrou um mundo de oportunidades de negócios numa terra de gente indolente e lasciva, mais interessada no que fazer nos fins de semana do que ter lucro na compra e venda de mercadorias. Em pouco tempo descobriu os melhores fornecedores, conseguiu maiores prazos e as condições mais favoráveis para juntar um pequeno capital. Não gastava, só acumulava. Pouco comia, estava habituado a passar fome, não bebia, não tinha luxos. As roupas puídas e manchadas disfarçavam um personagem que enriquecia rapidamente na cena paulistana do pós-guerra. Pelo contrário, faziam dele um comerciante que a concorrência acreditava ser fácil de enganar, mas na realidade era uma aranha que pacientemente tecia sua teia de empréstimos a juros exorbitantes, à espera das moscas, de roupas finas e nomes pomposos, que seriam devoradas sem misericórdia. Quebrava-os tomando suas fortunas, seus bens, seus imóveis e sua honra. Em pouco tempo estava milionário, bilionário, mas mantinha a mesma rotina miserável. Morava sozinho numa mansão de 36 aposentos na Avenida Paulista, quase em frente à dos Matarazzo, na época em que a avenida ainda não havia sido completamente tomada pelos arranha-céus do império financeiro. Seu único prazer era passar a noite polindo, com uma velha flanela, as moedas de ouro que havia acumulado, à luz fraca e baça de uma lâmpada a óleo que tremeluzia na escuridão da mansão fantasmagórica.

Naquela noite amaldiçoada, Genaro, Mané e Tanaka saíram, cada um de sua casa, em direção à Avenida Paulista, na altura do número 1400, para um encontro marcado à meia-noite. Genaro estava tenso e irritado, nervoso e preocupado que algo pudesse dar errado e eles saíssem da casa sem o dinheiro. Mané estava frio e tranquilo, havia feito todos os cálculos e projeções matemáticas, apesar de que, em sua terrinha natal, havia aprendido somente três operações, não sabia dividir… Tanaka trazia no rosto um sorriso de superioridade oriental, reforçado pela imobilidade vítrea, escura e fria do olho artificial. A chuva fina apertara bastante e os primeiros raios começavam a estourar no céu escuro de nuvens carregadas. Cumprimentaram-se rapidamente e repassaram os próximos passos. Construída em 1896, a residência foi projetada pelo escritório de Ramos de Azevedo a pedido de Luiz Anhaia. Por alguma razão Anhaia não ficou no casarão e em 1911 o imóvel foi vendido ao industrial e banqueiro de origem italiana, Alexandre Siciliano. O imóvel ficava localizado no número 1412 da Avenida Paulista. Tratava-se de uma enorme construção de quatro andares, no meio de uma grande área verde. Tinha vários cômodos muito amplos, sala de leitura, sala de jantar, salão de jogos e dependências externas para acomodação de empregados, além da garagem. O imóvel passou por várias mãos, até chegar a Baruch como pagamento de uma dívida do então proprietário.

A mansão era ladeada por outras duas amplas residências e a construção principal era cercada de alamedas arborizadas. Nos fundos, de frente para as garagens, havia uma pequena escada que dava acesso a uma porta de ferro, fechada por um único cadeado apodrecido, conforme Mané havia observado numa das vezes em que viera à casa do patrão para entregar documentos da empresa. A ronda noturna cobria apenas dois dos imensos quarteirões, dando uma volta completa a cada 18 minutos. Tanaka e Mané entrariam pelo muro lateral da casa à esquerda, desocupada há alguns meses, enquanto Genaro seguiria o guarda noturno por toda a ronda, para se certificar que ele completaria o percurso no tempo estimado. Nesse período, os dois teriam o tempo necessário para serrar o cadeado com o mínimo de ruído possível, entrar pela porta de serviço, atravessar toda mansão no escuro e abrir a porta principal para o Genaro, que deveria ultrapassar o vigia a tempo de chegar e desligar, pelo lado de fora, o sistema de alarme que acendia uma lâmpada vermelha quando a porta era aberta pelo lado de dentro. 

Tudo havia funcionado com a precisão de um relógio suíço, os três amigos já estavam no interior da mansão, o velho Baruch polia silenciosamente suas moedas em seu quarto e a ronda noturna havia passado pela calçada sem perceber nada de anormal. A chuva torrencial e os raios prateados afastavam qualquer possibilidade de intromissão. Genaro estava quase calmo, mas havia somente um pequeno detalhe que poderia pôr abaixo tudo o que tinha sido tão bem planejado. A mansão havia sido invadida por outros três assaltantes naquele exato momento!

CaMaSa