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São Pneu

Quando mudamos da rua Dom Bosco, na Mooca baixa, para a Professor Elias Vita, no Parque da Mooca, foi como soltar um sagui da gaiola na floresta. Saímos de uma casa a pouco mais de 1 quilômetro do marco zero da Praça da Sé, à época o verdadeiro centro comercial de São Paulo, para uma fazenda de sol e luz! A Dom Bosco era um lugar cinza, escuro, o sol não fazia questão nenhuma de dar as caras por lá. Nossa casa ficava a um quarteirão de distância do Rio Tamanduateí, que vira e mexe se esparramava até nossa calçada, com suas águas escuras e fétidas. Certa vez choveu tanto, mas tanto, que o nível do rio subiu muito além do normal, chegando até ao oitavo degrau da escadaria do nosso prédio! Ficamos ilhados por mais de três dias, sem condições de sair de casa para nada, nem para comprar comida. Quando a chuva diminuía eu saía no balcão e ficava observando a água marrom, repleta de manchas de óleo, passando vagarosamente pela rua. Não podíamos nos queixar. Muitas famílias moravam em porões, a água chegando até o teto, destruindo tudo do pouco que tinham.

Nós nos mudamos para um sobrado geminado com três quartos, sala, cozinha, três banheiros, quintal e lavanderia! Era uma tremenda evolução no padrão, confirmada pelo cheiro fresco de tinta nova. Na rua, além do sobrado ao lado, havia mais cinco ou seis casas, além da construção inacabada do futuro hospital São Rafael, que nunca foi concluído. E mamona, muita mamona. Meu Deus do céu, quem teria plantado tanta mamona assim? Tinha mato e pé de mamona desde a rua Juatindiba, futura rua Juventus e única asfaltada além da minha, até os tanques da Esso, que para mim, aos 12 anos, pareciam estar a centenas de quilômetros. A rua terminava num morro alto, muito mais alto do que um sobrado de dois andares, cortando a terra dos dois lados, formando paredões verticais muito íngremes. Sobre ele estava plantada uma das torres de transmissão de eletricidade, estilo Eiffel, magras, elegantes, altíssimas. Lançavam umas para as outras fios pretos longos como cabelos lisos e esticados.

Tudo era novidade, assim como a família de seis filhos que morava numa das casas. Uma das crianças era um menino um ano mais novo que eu, gordinho e muito simpático. Ficamos amigos imediatamente e protagonizamos uma série de aventuras típicas da pré-adolescência. Certa manhã, resolvemos experimentar aquilo que tanto interessava aos adultos e era proibido para as crianças. Resolvemos fumar cigarros! Roubamos um maço pela metade da sua irmã mais velha, uma caixa de fósforos, e, discretamente, fomos para o campo do Democrático. A caixa d’água ficava no ponto mais alto do bairro, para que a gravidade fizesse seu trabalho. Ela ficava do lado norte da Avenida Paes de Barros, a mais importante e larga da região. De frente para ela, ao sul, estendia-se um declive, em princípio bem acentuado, até o bairro do Ipiranga, do outro lado do rio.

Do outro lado da avenida havia uma construção enorme, de um prédio de apartamentos de mais de 15 andares. O fundo dessa construção dava para um arco enorme, inclinado como um auditório gigante. Nas duas extremidades havia escadas muito altas, com quase 300 degraus. No centro, um platô liso formava um campo de futebol de várzea, com uma das traves no pé do morro, abaixo da construção, e a outra no lado oposto, de costas para uma rua de barro que descia atravessando a Juatindiba, passando ao lado do hospital João XXIII, seguia ao largo da cerca dos fundos do clube do Juventus e continuava até chegar na Esso.

Nesse campo imenso resolvemos, eu e meu amigo gordinho, experimentar essa autêntica delícia adulta de tabaco. Fumamos um cigarro inteiro cada um e eu, ao final, senti o mundo girando, o estômago revirando e minha boca vomitando… Nunca mais fumei. Mas aquilo me deixou com uma sensação de frustração intensa, daquelas que precisam ser recompensada de qualquer jeito. Olhei para o pé da trave e vi encostado um velho pneu. Uma ideia brilhante surgiu no momento. Uma competição entre nós para espantar o baixo astral! Faríamos o pneu rolar ladeira abaixo e quem o fizesse chegar mais longe, seria o vencedor da disputa.

Peguei o pneu despretensiosamente, aprumei e soltei. Ele começou a corrida titubeante, balançando como um bêbado de um lado pro outro, foi ganhando força, velocidade, quicando cada vez mais forte, mais rápido… nessas alturas já estava no meio do quarteirão, nós dois olhando um para o outro, olhando para o pneu, cada vez mais veloz… Aí meu Deus, que burrada! O besta do pneu não parava, já voava como carro de corrida o miserável e, finalmente, atravessou o farol vermelho da rua como se tivesse vida própria!

Nisso ouvimos um barulho assustador de um carro brecando bruscamente, mas sem chance de evitar o impacto. O motorista teve tempo de piscar os olhos antes de atingir o pneu que saiu voando alto, muito alto mesmo, como se fosse normal pneu voar. Não que nós estivéssemos ficado lá pra ver. Na velocidade da luz subimos uma das escadarias, chegando na avenida em menos de três respiradas. Descemos até a rua da Mooca e só voltamos para casa muitas horas depois.

Quando voltamos pra casa soubemos do “acidente”… Ninguém sabia dizer como aconteceu, mas parece que um pneu desceu ladeira abaixo e foi atingido por um Chevroletão antigo, com para-choques de metal, que vinha em grande velocidade. O pneu foi lançado com violência sobre uma viatura que vinha no sentido contrário. Voltou quicando na outra direção e bateu de raspão na cabeça de uma menina que estava engasgada com um bala presa na garganta. A bala voou longe enquanto a mãe, chorando desesperada, caia de joelhos no chão agradecendo a Deus nosso senhor! No carro havia dois homens e uma mulher. Sob o banco traseiro, camuflado e muito bem disfarçado, havia um pacote enorme com quilos de pasta de cocaína que seria usada para produzir muita droga. Os ocupantes do veículo foram levados à delegacia para averiguações e, ao que parece, não sairiam de lá tão cedo. 

Todos na vizinhança comentavam o fato e acrescentavam um pouco mais de drama e fantasia à medida que o tempo passava, de tal forma que já atribuíam à intervenção divina o surgimento milagroso do santo pneu. De fato, chegaram a fazer uma pequena coluna de concreto na esquina do ocorrido e fixaram o pneu com grapas de ferro, de tal modo que através dele se podia ver o exato local onde ele havia atingido a cabeça da menina. Começaram a colocar flores e laços de fita, pedidos de ajuda em pedaços de papel. Sua fama foi crescendo a cada dia, atribuindo ao agora Círculo Látex Divino da Amazônia as curas mais diversas, de caxumba a tendinite, espinhela caída a impotência! Colocavam a cabeça, os braços, as pernas no vão do pneu para receber as graças. Tiravam fotos com o aro formando uma moldura preta. Trouxeram um padre e água benta, um pastor com a Bíblia e um pai de santo. Quando chegou o rabino virou o maior encontro ecumênico da região em muitos anos. 

Uma noite, já hora avançada, enquanto todos dormiam e o pneu descansava de um dia de intensa romaria, forrado até a tampa de papel e flores secas, dois moleques arteiros atearam fogo à papelada e ficaram horas assistindo a fogueira ardendo e gemendo, com uma fumaça escura que ia da calçada na terra até o infinito do céu. Na manhã seguinte o pneu havia sumido… sem deixar marcas.

CaMaSa

Beijos

O primeiro beijo a gente nunca esquece, claro, mas as circunstâncias do fato podem torná-lo épico, dramático ou absolutamente embaraçoso. Aos 9 anos eu acompanhava a cena musical brasileira através dos olhos e ouvidos da irmã mais nova. Os festivais de música popular brasileira (MPB), com seus artistas cabeludos, esquisitos e vestidos de uma forma estranha, de um lado, e a Jovem Guarda, com seus artistas cabeludos, esquisitos e vestidos de uma forma estranha, do outro. Para mim era tudo absolutamente visual e cenas como a de um cantor quebrando o violão no chão e jogando o instrumento todo arrebentado sobre o público que o vaiava incessantemente, ou a de senhoras, já avós, jogando pétalas de rosas no monitor da TV, em preto e branco, para alguém que as mandava para o inferno, eram bem marcantes.

Na época eu achava que ambos movimentos defendiam posições distintas, com a turma da MPB defendendo uma arte musical própria, nacional, de raiz, falando sobre as necessidades do povo e suas aspirações, propondo uma revolução cultural através da liberdade e da igualdade, e o pessoal da Jovem Guarda buscando na internacionalização da música e do jeito de ser, falar e se vestir, um estilo de vida que se queria alcançar através de um atalho, copiando o que já era sucesso comprovado. Com o tempo percebi que estavam do mesmo lado, que através de qualquer expressão artística, só é possível alcançar o próprio sucesso, gigantesco e duradouro para alguns, muito pequeno e curto, em termos de sustento, para outros. Que não é dessa forma que se conduz uma nação e seu povo a um patamar mais elevado, ainda que alguns ainda creiam sinceramente nisso.

Mas era uma época de ídolos dourados, como hoje, e fãs alucinados, como hoje. Eu gostava de todos. As músicas eram muito boas e divertidas e alegravam um povo sofrido e com poucas perspectivas. Mas a verdade era que enquanto o pessoal da MPB fazia cabeças e agitava o público universitário, mais politizado, a turma da Jovem Guarda causava um furor apaixonado nas adolescentes de 8 a 80 anos. Certa vez o Príncipe da juventude faria uma apresentação no colégio Firmino de Proença, perto de casa. Não sei se eram os olhos verdes ou os cabelos longos jogados sensualmente para o lado, mas suas músicas românticas e melosas provocaram um verdadeiro tumulto, sendo necessário a intervenção da polícia militar para conter a multidão. Eu acompanhava tudo na segurança da cozinha/ateliê de costura de casa, recebendo notícias picotadas através da rede de informações das minhas irmãs e suas amigas. Se com um Príncipe a coisa já tinha sido tão intensa, imagina o que seria um show do Rei!

O Rei, e sua corte, não ia a colégios. Suas apresentações só aconteciam em horário e local definidos, num padrão único que seguia um ritual planejado com mão de ferro. O sonho de toda jovem era participar desse conto de fadas televisivo ao vivo e a cores, já que as transmissões ainda eram em tons de cinza. Naquele ano mudara-se para nosso prédio uma encantadora família carioca, com seu jeito diferente e divertido de falar e viver a vida. O pai viera a trabalho e trouxera a tiracolo a mulher, dois filhos mais velhos, e duas filhas Sony e Quinha. Sony era a mais nova, rosto rechonchudo e cabelos crespos, com um jeito de falar choramingado que provocava um humor involuntário em qualquer situação. Quinha era um pouco mais velha, morena jambo, muito bonita, com formas acariocadas perfeitas que provocavam devaneios nos meninos por onde passava. Eu, que de uma maneira inocente sempre gostei de meninas, fiquei completa e platonicamente apaixonado por aquela beleza exótica. Como as duas eram alucinadas pelo Rei, criaram um vínculo imediato com minha irmã e eu, por motivos óbvios, passei a me interessar cada vez mais pelo assunto, demonstrando até saber muito mais do que realmente sabia. Eu fazia parte desse minúsculo fã clube de três garotas sonhadoras, que passavam os dias trocando informações sobre cada detalhe dos cabelos, das roupas, das músicas, de tudo enfim que dizia respeito aos reis do iê-iê-iê. O grande objetivo do clube era participar do programa num domingo de sonho. E sonhavam a valer, planejando minuciosamente como atingiriam essa realização, como comprar os ingressos, como chegariam até lá, com que roupas iriam, etc. Eu estava fora dos planos, mas sonhava com a mesma intensidade com o dia que a Quinha declararia sua paixão por mim, pegaria minha mão e passearia comigo pela rua, para grande espanto e admiração dos meus amigos.

Quem sonha com os pés no chão conquista e, de tanto insistirem e lutarem por isso, chegou o dia em que finalmente iriam ao show, conhecer de perto a Jovem Guarda. Haviam conseguido os três ingressos através de um amigo de um amigo do seu pai, e a alegria das meninas era tão intensa que mal se reparava na minha tristeza infinita. A semana, que para elas custava a passar, para mim se arrastou lentamente, fazendo de cada minuto um eterno calvário de sofrimento infanto-juvenil. Era duro demais! Não que eu quisesse conhecer pessoalmente esses ídolos, gritar suas músicas ou me descabelar. Eu só queria estar junto da Quinha, ouvir a sua voz e rir com sua risada. Mas, seja porque meu sonho era mais intenso, ou porque catapora era real e atacava crianças indiscriminadamente, Sony amanheceu o domingo com febre alta e com a pele toda pipocada. Sorte de uns, azar de outros, o ingresso caiu no meu colo, para minha felicidade. De uma hora pra outra saí de um inferno de dor para um paraíso de possibilidades. Banho rápido, roupas de festa, até um perfuminho! Embarcamos num ônibus até um lugar, descemos e pegamos outro que nos deixou em frente ao teatro. Um enorme aglomeração de jovens formava-se diante da porta, concluindo uma fila enorme que dava voltas no quarteirão. Eu ficava entre minha irmã e Quinha, que seguravam firmemente minhas mãos, recomendação muito específica de minha mãe. Eu suportava tudo com um leve sorriso de satisfação no rosto, aproveitando ao máximo o meu momento. Duas horas depois entramos no local.

It’s been a hard day’s night, eu me sentia como um dog! Perdidaço… Que zoeira, quanta gritaria! Como era possível alcançarem tantos decibéis? E, à medida que a coisa ia se aproximando do final, ao invés do som diminuir, aumentava cada vez mais, numa espiral crescente e ensurdecedora. Pelos meus cálculos, já haviam passado barões, condes e viscondes pela corte e chegava a hora de que os reais representantes do reino fariam suas apresentações. O Amigo do Rei, a Princesa e, finalmente, o próprio Rei, cantaram o que tinham pra cantar, deixando o público em estado de êxtase indescritível. Chorados e alucinados bis foram concedidos economicamente e, enfim, as pesadas cortinas de veludo juntaram-se no meio do palco encerrando aquela tarde inacreditável. 

O teatro esvaziava muito rapidamente mas minha irmã preferiu ficar sentada aguardando que as coisas acalmassem. A grande maioria ia para a porta na esperança de encontrar o Rei saindo de carro. Era impossível, claro, havia uma saída secreta para essas situações, livres de qualquer possível assédio. Aproveitei esse momento de espera para ir até o palco e ver aquilo de perto. Não era muito alto, cerca de 1,10 mts de altura, e, num gesto impulsivo, saltei para cima e atravessei a abertura das cortinas. Foi como passar por um portal mágico que me conduziu para um reino mágico e encantado… mas, de verdade, era bem normal para qualquer um que tivesse alguns anos a mais que eu. Os instrumentos estavam lá, alguns músicos, técnicos e produtores. Vi um pequeno grupinho com três pessoas e me aproximei. Nele estavam o diretor do programa, um tal de Melão que eu já tinha visto em algum programa de entrevistas, o amigo do Rei e a Princesa. O diretor olhava para mim e o Amigo percebendo minha presença disse:

– Ei, você é o Batman? Que bom te ver por aqui!

Eu achei aquilo muito legal e deu pra entender porque o Rei gostava dele e o chamava de Meu Amigo. A Princesa Léa apontou seus enormes olhos verdes em minha direção, aproximou seu rosto lindo do meu para me beijar. Nesse instante, eu, por reflexo, virei o rosto para o lado direito e os seus lábio macios estalaram um beijo de bochecha na minha boca! Ela riu gostosamente e disse:

– Que gracinha você é! Está sozinho? Não é melhor voltar para sua mãe?

Ela me virou na direção da abertura da cortina e eu segui como um robô, voltando para as garotas que me esperavam ansiosas. Queriam saber onde eu havia me metido, onde estava e com quem? Mas eu não tinha nada pra dizer, havia vivido um momento muito especial, só meu, tinha tido uma lição e compreendido uma coisa muito importante que moldaria meu comportamento para sempre. Na minha simples infantilidade, havia percebido que aquelas pessoas eram pessoas comuns em papéis extraordinários. Que desempenhavam suas funções em resposta a milhares de pessoas que assim os viam e, assim, os faziam existir. E isso valia para artistas, políticos e líderes de qualquer espécie. Sem querer, humildemente, ali eu havia superado toda a idolatria, com o selo de um beijo.

CaMaSa

Filmes

A vida seguia de mansinho naqueles dias, com muito sol no rosto e canelas finas de fora. Tinha quem me trocava de roupa, dava banho e me alimentava, de amor e comida. O mundo ia pouco a pouco se ampliando, com os amigos próximos sendo cuidadosamente separados dos mais distantes. Formavam-se vínculos eternos que seriam rompidos na primeira desavença. Ter 6 anos de idade tem suas recompensas e prejuízos, igualzinho ao mundo dos adultos, mas numa escala reduzida. Então, a cada dia há uma imensa carga de felicidade, trazida pelas coisas simples de um pega-pega, um esconde-esconde, uma corda que se pulava… Tac… Tac… Tac… batendo no chão.

Mas o crescimento é irreversível e, chega uma hora, os adultos já não aguentam mais você pulando e brincando pela casa e acabam procurando uma escola para te ocupar. No meu tempo chamava-se Jardim da Infância, hoje deve ser Maternal ou algo assim. Só sei que consegui ser expulso do tal jardim, e não sei se mais alguém conseguiu tal proeza? O motivo banal, incompreensível para mim na época, era que eu corria atrás das meninas da classe para beijar. Não era normal? Ver uma coisa, achar bonita e beijar! Seja quais fossem os critérios pedagógicos da época, fui convidado a me retirar do colégio. Minha mãe foi chamada e explicaram que eu, talvez, fosse muito imaturo para estar ali. Voltamos para casa ambos muito tristes. Ela porque estava preocupada com as entregas dos vestidos encomendados que tinha para terminar e eu porque não entendia o que tinha feito.

As tardes ficaram mais aborrecidas porque os amigos todos iam para o Jardim e eu ficava sozinho, vagando pela calçada da Vila Alvarenga próxima, fazendo buracos com palitos nos vãos dos paralelepípedos de granito que calçavam a rua. Para me ocupar, minha mãe um dia teve a ideia de me levar até a quadra de futebol do Colégio Dom Bosco, ao lado da capela do mesmo nome. Dom Bosco (1815-1888) foi um sacerdote católico italiano, fundador da Congregação Salesiana. Atuante em assuntos sobre educação foi considerado grande protetor da juventude. Foi canonizado pelo Papa Pio XI. João Melchior Bosco nasceu em Becchi, próximo a Turim, na Itália, no dia 16 de agosto de 1815. Por ser italiano, isso tinha grande significado para minha mãe. Segundo ela, Dom Bosco tinha inventado o futebol, amava as crianças e o Palestra (!!!), e era um legítimo representante de nosso senhor Jesus Cristo, o filho de Deus e o homem mais bondoso que já havia pisado nesta terra. Tudo eu escutava de ouvidos e olhos bem abertos, e boca bem fechada, pois ali estavam sendo dados avisos muito claros de que eu deveria seguir os bons exemplos e me afastar de tudo que fosse ruim.

Antes da quadra de futebol, tinha a passagem obrigatória pela capela. Como outras a quem eu fora gentilmente arrastado, era escura e fantasmagórica, com suas imagens assustadoras de gente sofrida e vestida de uma forma estranha. Me levou pela nave central até o altar onde, no alto, se via a imagem de um senhor de idade, um velhinho de cabelos esbranquiçados, vestido com uma túnica escura que descia até os pés, roupa de padre, ladeado por dois garotos e com um leve sorriso amistoso no rosto. Tive a impressão de que havia uma bola nos pés, mas achei que estava imaginando coisas. Saímos pela porta lateral à esquerda, mas antes paramos diante de uma estátua clara e colorida, de um homem bonito, alto, com os cabelos bem compridos espalhados pelos ombros. Tinha uma expressão serena que contrastava totalmente com um coração vermelho sangue saltando no centro do peito, envolto em espinhos e labaredas de fogo. Aquele era Jesus, disse minha mãe! E eu saí de lá mais desentendido do que entrei.

Quando chegamos na quadra, lotada de garotos muito maiores que eu jogando futebol, tive uma vontade tão grande de jogar e chutar a bola que larguei a mão da minha mãe e corri em direção ao centro campo. Não era de grama, era de cimento, pedra e areia, duro e perigoso. Mal toquei o chão, escorreguei, caí de lado e arranhei a perna! Minha mãe gritava enquanto o jogo era paralisado para compreender do que se tratava. Visto que era só um pequeno fedelho caído no chão, retomou o ritmo acelerado e cheio de gritos. O juiz da partida, um padre jovem e simpático, vestido com uma batina bege, veio em nossa direção para prestar algum tipo de socorro. Minha mãe explicou os motivos da minha presença ali e o padre assumiu a responsabilidade pela minha estadia, dizendo a ela que eu participaria das atividades normais do dia, e que ela voltasse às 5 horas da tarde para me buscar.

Ele só não explicou que as atividades seriam ficar sentado à beira do campo, assistindo ao jogo sem participar, assistir a missa e depois um filme antigo, em preto e branco, na pequena sala de projeção da escola. Sem jogar, assistindo missa em latim, a perspectiva de um filme antigo não era das melhores para mudar meu humor. De fato, o filme pulava e repicava, de vez em quando parava e a turma na sala, fedendo a suor de partida de futebol, gritava e assobiava até que o padre conseguisse fazer a geringonça andar de novo. Era uma estória confusa, havia muita discussão e confusão, até que de uma hora pra outra tornou-se violenta, com um homem sendo preso e maltratado. Enquanto era encaminhado a um senhor de saias que nada mais fez do que lavar as próprias mãos, as pessoas gritavam, atiravam pedras e cuspiam nele. O homem de saias, que parecia ser muito poderoso e mandar na coisa toda, mandou o pobre homem embora dali, para ser julgado por pessoas que não tinham a menor consideração por ele. Eu acompanhava tudo apreensivo, cada vez mais preocupado com o desenrolar daquilo, enquanto a molecada ao redor urrava e aplaudia cada cena de castigo. No julgamento, que era uma espécie de eleição, pediram para a multidão, que acompanhava a tudo rindo e caçoando, para escolher entre ele e um outro homem, que tinha uma cara de mau, tipo o homem do saco, mas o povaréu escolheu aquele franzino e desamparado, com os cabelos até os ombros…

Nesse momento um clarão de entendimento fez um clique na minha cabeça, associei o pobre coitado à estátua na capela e entendi que aquele era o tal de Jesus que minha mãe sempre falava. Senti uma dor no peito enorme, controlei o máximo que pude os meus sentimentos, tanto quanto pode uma criança de 6 ou 7 anos fazer isso, mas, quando o chicotearam até sangrar e colocaram uma coroa de espinhos em sua cabeça, um rio de lágrimas já escoava dos meus olhos. Eu sabia que não seria nada conveniente soluçar naquela hora e local, no meio daquela turma de moleques, e abafei o som por todo o calvário, com a cruz nas costas, os pregos nas palmas das mãos, até o último suspiro.

Quando minha mãe chegou eu já estava seco, de olhos e alma, havia feito um pacto com seja lá o que fosse para ser bom, respeitar os outros e encontrar as respostas para os mistérios desta vida, em vida. Descobri que as lições deixadas pelos grandes mestres, não as escritas, interpretadas e reinterpretadas, mas as experimentadas e respiradas, são para serem realizadas e vividas. Que elas fluem como água limpa e pura de jarro em jarro, de Mestre em Mestre, e que há sempre alunos dispostos a beber dessa água, encontrar a paz, dentro, bem fundo, onde ela nasceu para ser sentida.

CaMaSa

A Dios

Juan era um jovem e impetuoso espanhol de Lanjarón, pequena vila situada entre Granada e Motril, na Andaluzia. É conhecida pelo seu castelo, e por ser uma das mais típicas aldeias de montanha das Alpujarras, na vertente meridional da Sierra Nevada. Também produz água mineral que é distribuída por toda a Espanha, o que acaba atraindo muitos turistas para a região. O clima quente arrefece nas montanhas e os hotéis e pousadas oferecem acomodações agradáveis, além dos bares e cafés com música e dança ao vivo.

O povo espanhol é latino radical, elevando à terceira potência as características de drama, sensualidade e paixão, expressas através da dança, música e da arte. Juan desde muito cedo mostrou ter habilidade musical, aprendendo a tocar de ouvido vários instrumentos, mas sua paixão era o saxofone. Logo ele estava integrando conjuntos da cidade e percorrendo as montanhas para tocar nas cidades próximas. Mas eram tempos difíceis para a música, para as artes e para todos. Estima-se que, entre 1884 e 1959, mais de 680 mil espanhóis imigraram para o Brasil. Apenas os portugueses e italianos chegaram em maior número. A Guerra Civil Espanhola formou um novo fluxo de imigrantes que fugiram para o Brasil. Franco comandava o país com mão de ferro, limitando as manifestações. O período entreguerras deixou a economia em frangalhos e eram poucas as oportunidades de emprego. Até que chegou o momento em que o espírito aventureiro, aliado às dificuldades e falta de esperança, empurraram-no, como tantos e tantos outros, para o mar, em busca de terras distantes e cheias de promessas.

Por relatos de parentes e amigos, ouvir dizer e estórias pouco prováveis, Juan veio provar os costumes e sabores do Brasil, mais precisamente na São Paulo progressista da metade do século, mais especificamente no bairro do Brás, reduto de imigrantes espanhóis, assim como, posteriormente a Mooca e o Tatuapé. Como a grande maioria, instalou-se nos cortiços da região, conhecendo além dos conterrâneos, italianos e portugueses que por ali também se encontravam. Encontrou uma cidade carente de tudo, de profissionais da construção civil, a profissionais liberais, artistas e músicos. Pôde assim, exercitar seu dom e ganhar um bom dinheiro, o suficiente para juntar um capital e investir em um ramo mais financeiramente sólido, o comércio madeireiro. Na região do Gasômetro, formou-se um centro atacadista de matéria prima para a construção civil, especializada em todo tipo de produtos para os marceneiros e construtores.

Em meio à sua jornada insana de trabalho, cuidando dos negócios durante o dia e tocando em bares e restaurantes do centro à noite, encontrou tempo para conhecer e namorar a bela Paloma, que “tenía su sangre, su gusto“. Jovem imigrante como ele, criada para respeitar e servir seu marido, em pouco tempo casaram-se e tiveram uma linda menina, Isabel, a razão de suas existências. Toda sua força e coragem para o trabalho, para superar as dificuldades encontradas, tinham agora uma perfeita justificativa. E assim, como quem pisca os olhos e ao abrir encontra-se num outro local, o fruto de todo trabalho e esforço do casal levou-os à uma situação boa e confortável, capaz de atender aos anseios de sua menina. Mas a sorte, madrasta, lhes pregaria uma peça terrível.

Numa manhã qualquer, ao se levantar da cama para se preparar para a escola, Isabel sentiu uma leve tontura e suas vistas escureceram, fazendo-a sentar-se novamente em sua cama. Ela já tinha 15 anos, estava acostumada às alterações de humor das meninas, identificou logo que algo não estava bem. Deitou-se novamente e só acordou quando a mãe ao seu lado, chamava seu nome. Isabel ardia de febre e sentia dores por todo o corpo, principalmente na nuca. Paloma chamou Juan que pegou a menina nos braços e correu com ela para o carro, disparando com este para o primeiro pronto socorro. Ali identificaram uma dúzia de possíveis causas, mas por segurança seria melhor que a levassem para o Hospital das Clínicas, onde poderia ser feita uma avaliação mais completa. Na época muito se comentava sobre a epidemia de meningite que eclodiu em 1971, e atingiu seu ápice em 1974. Essa epidemia surge na época em que o Brasil vivia sob o regime ditatorial e se encontrava no pior período, conhecido como “anos de chumbo” (1968- 1972). 

Chumbo… Chumbo derretido descendo pela boca e garganta, invadindo o estômago, dilacerando as tripas! Há tanta dor no mundo, mas nada se compara a perder um filho. A isso ninguém dá um nome, a isso ninguém deseja ao seu inimigo. Foram dias de angústia e desespero, promessas e orações, entre idas e vindas, dúvidas e internações. Numa noite, já no hospital Emílio Ribas, com a filha em coma e os médicos e enfermeiros entreolhando-se sem fé, Juan teve que sair para cumprir seus compromissos com o conjunto, não podia deixar os companheiros na mão. As notas do seu sax naquela noite foram tristes e lamentosas, não importando a música e o ritmo que tocassem. Eram acordes de um coração de aço, viril, mas sangrando de dor. Quando voltou pra casa, implorou a Deus, apesar de não ser um homem religioso, que salvasse sua menina.

Enquanto isso, Paloma, sua mulher, viu-se só e abandonada, acompanhando a filha ao seu destino ingrato, segurando sua mão na esperança de transmitir alguma força, algum sopro de vida. Era já muito tarde, os corredores já não mais tinham murmúrios de visitantes, nem passos apressados de enfermeiros, quando entrou de supetão um médico. Paloma pulou da cadeira em que cochilava, assustada com aquela irrupção, e olhou para o homem assustada, um olhar de indagação. Ele calmamente foi até sua filha, colocou o dorso da mão em sua testa e olhou para a mãe. Disse que era para ela não se preocupar pois ele trazia medicamentos que curariam sua filha, que confiasse, pois não havia outra solução. E pôs-se a fazer uma série de procedimentos que a ela pareciam ser os de um médico muito qualificado e ciente do que fazia. E, após um certo tempo que lhe pareceu ter levado alguns minutos, acomodou-a na cadeira, apertou sua mão e lhe disse que pela manhã outros médicos viriam, para completar o seu trabalho.

Quando acordou pela manhã, Isabel estava sentada em sua cama, sorridente e perguntando para a mãe o que estavam fazendo ali? Paloma sentiu uma alegria imensa, abraçou a filha e teve a certeza que a filha estava salva. Quando os enfermeiros do turno da manhã entraram no quarto, viram mãe e filha abraçadas, como se fosse a coisa mais normal do mundo alguém, naquele estado, estar naquela situação. Chamaram com urgência o médico de plantão, que chamou outros médicos, a enfermeira chefe e até o diretor do hospital. Nenhum deles conhecia o tal médico de acordo com a descrição de Paloma, havia visto alguém passar pelo corredor e entrar no quarto, ou ao menos sabia como e porque a menina estava curada…

Isabel teve uma leve sequela. Passou a ouvir um pouco baixo e, por consequência, falar muito alto. Isso não a impediu de conhecer um belo rapaz, descendente de espanhóis, para acalmar os ânimos de seu pai Juan. Pablo era chamado de Pablito, porque era magro como um palito! Quando o conheceu Juan disse a Paloma: 

Dale de comer que se está muriendo de hambre.

Juan teve a oportunidade de conhecer duas netas, ver o casamento da mais velha com a bisneta no colo, e honrou sua terra natal, que jamais voltou a ver,  com dignidade, respeito e honestidade. Abatido em sua saúde por uma crise renal que o levava a fazer hemodiálise uma vez por semana, deixava-se acompanhar pela filha Isabel, sabendo que esta assim se sentia feliz e recompensada. Numa das sessões, pediu que a filha prometesse uma coisa. Que ela iria conhecer sua terra natal, respiraria o ar puro das montanhas, beberia a água fresca, sentiria o sabor dos frutos e escutaria a música de ritmo quente e pulsante como um coração cheio de fúria e vigor. Nessa hora teve um vislumbre da bisneta Lupita dançando flamenco sobre um tablado de madeira no chão, fechou os olhos e nunca mais os abriu.

CaMaSa

O Broche

Meu pai era um excelente marceneiro, muito requisitado. Trabalhava com instalações comerciais e residenciais, tendo uma clientela muito bem posicionada. Entre seus clientes havia muitos estrangeiros que aqui tinham chegado e constituído verdadeiras fortunas. Portugueses, italianos, espanhóis, árabes, judeus, alemães… Atendia a todos com grande respeito e qualidade, sempre deixando uma boa lembrança e sendo tratado com muito carinho. Muitas vezes ele era convidado para passar um fim de semana, junto com a família, numa casa de praia ou campo, e lá íamos nós, minha mãe, minhas duas irmãs, conhecer um pouco mais deste imensamente belo e natural país, do qual eu conhecia apenas alguns quarteirões do bairro da Mooca. É claro que meu pai não ia somente pra se divertir, aproveitava para fazer um ou outro pequeno serviço ou reparo e, desta forma uma mão lavava a outra.

Numa dessas vezes, fomos convidados por um senhor alemão, chamado Fritz, que possuía uma bela propriedade às margens da represa Billings. Não me lembro como chegávamos nos locais nessas pequenas viagens, que para mim pareciam ser infinitas. Mas lá estava eu, cercado de mato, água limpa e luz solar, espantado como um passarinho recém saído da gaiola. Havia uma bela e ampla casa, muito grande mesmo para um garoto de 8 anos que morava num quarto, sala e cozinha. A propriedade era muito bem cuidada, parecia uma pintura de folhas e frutos, intensamente brilhante e absurdamente colorida. Havia uma sinfonia de insetos formando o backing vocal perfeito para o canto dos pássaros que pipocavam aqui e acolá num ritmo constante e suave. Era quase um sonho… que viraria um pesadelo.

O senhor Fritz era um homem de estatura mediana, por volta de 1,75m, e magro, os cabelos eram castanhos mas o prateado já havia avançado fartamente. Destacavam-se mesmo os olhos, de um azul-cinza de expressão intrigante, que contrastavam muito com a aparência bonachona do restante do rosto. Tinha uma forma de se movimentar calculada, herança de um possível passado militar. Via-se que era acostumado ao comando, mas este já havia lhe escapado das mãos há muito tempo. Sobrou-lhe a esposa, Helga, de rosto encovado e bochechas salientes, a quem era possível tão somente os comandos básicos de uma relação a dois, dentro dos limites matrimoniais. Dona Helga, muito mais que ele, ficava feliz com visitas, raras ou quase inexistentes, nesta terra estranha e selvagem, tão longe do seu torrão bávaro. Nunca havia aceitado o modo como as coisas se deram, sair às pressas, no meio da noite, como criminosos. De lá, somente as notícias dos jornais, escritas para agradar quem pagasse melhor. Mas, pelo pouco que viu do trajeto de sua casa até o aeroporto e o que pôde ver pela janela do avião, a guerra havia destruído sua Alemanha querida.

Os dois homens trataram de resolver seus assuntos, enquanto minha mãe e minhas irmãs acompanharam dona Helga até a cozinha, que preparava uma receita de Pato com Laranja. Eu, que nunca tinha visto um pato pessoalmente, muito menos comido um, comecei a explorar o terreno, caçando coisas mais interessantes para uma criança fazer. Logo encontrei meu pai junto ao senhor Fritz, diante de um enorme anexo do lado direito da casa onde, imaginava eu, eram guardados carros, máquinas e equipamentos. Eles entram por uma porta larga e eu fui atrás. Havia bancadas de madeira sim, como numa oficina, mas o local mais parecia um biblioteca ou museu. Era extremamente limpo e organizado, com inúmeras estantes nas paredes, com muitos livros e caixas de diversos tamanhos, acabamentos e cores. Centenas de quadros de vidro com desenhos coloridos dos mais variados insetos, borboletas e mariposas. Havia gaveteiros enormes, onde diversos besouros mortos e espetados em alfinetes, flutuavam com as perninhas balançando no ar, numa espécie de dança imóvel e sem fim. A iluminação era propositalmente fraca, para proteger os tesouros que ali estavam da força destruidora da luz do sol. 

Aparentemente havia um ou outro reparo a ser feito numa estante, numa mesa ou num gaveteiro, e era por isso que os dois homens ali estavam e aquele não era o local nem a hora certa para um menino curioso estar. Meu pai me sugeriu com um olhar, duas palavras e um leve empurrão, que eu saísse para brincar, mas tomasse cuidado com a água, sendo proibido de me aproximar a menos de 5 metros da represa. Contrariado, de orgulho ferido, zanzei a esmo até reparar que havia alguns pequenos montes de terra, de diversos tamanhos, como se fossem baldes malfeitos emborcados ao chão. Imaginei que eram duro e rígidos e fui logo metendo o pé sobre um dos menores, para me elevar acima do chão. Para minha surpresa, a terra cedeu e meu pé afundou sobre um formigueiro repleto de formigas minúsculas e, agora, ensandecidas. Senti a primeira picada quando já estava com a canela repleta delas e saí correndo em direção a água berrando como um louco. Todos vieram em meu socorro que, naquele momento, já tinha a água no meu umbigo e não sabia se chorava de dor ou de medo de me afogar. Meu pai me agarrou pelo braço, me colocando em terra firme. Passado o susto, todos se puseram a rir, menos eu, que estava emburrado e envergonhado com a situação.

Logo após o almoço, enquanto as mulheres cuidavam da louça e os homens saboreavam um café, voltei ao local do incidente, disposto a verificar a extensão do estrago no formigueiro. Para minha surpresa ele estava vazio! Suas moradoras pelo jeito tinham desistido de continuar por lá, deixando as entranhas da construção expostas ao vento. Não me dei por vencido e, com todo cuidado e temor que a situação exigia, peguei uma vara comprida como um cabo de vassoura e me pus a cutucar e cavucar o formigueiro em busca de formigas remanescentes. Nada. Vazio. De repente, uma estocada bateu em algo mais duro, com um som de toque diferente. Mexi e arrastei um pouco a terra de um lado para o outro e vi brotar um objeto amarelado, pontudo. Cheguei bem perto para olhar e, esquecendo por um instante a dor das picadas, cavei rapidamente com as mãos até que tirei de dentro da terra um objeto semelhante a um broche, num formato estranho para mim, como se fosse uma ave de asas abertas, carregando um círculo pelas patas. Levei o meu tesouro até a água e, assim que comecei a lavar e retirar o barro firmemente grudado, seu brilho intenso, dourado, surgiu instantaneamente. Enxuguei e poli na minha camiseta branca e quando me voltei para correr na direção da casa e contar a novidade para todos, dei de cara com o senhor Fritz que, com seus olhos azuis-cinza, agora mortos e impessoais, me olhava mortalmente. Fiquei petrificado com aquele olhar carregado de ódio, de quem representava 6 milhões de mortes brutais e sem sentido. Senti um frio que me gelou os ossos, me atravessou a alma e me manteve sob controle. Lentamente dei três passos em sua direção e entreguei o broche em suas mãos. Ele guardou o objeto no bolso de sua calça, virou-se e me deixou lá, boquiaberto e mudo.

Ainda hoje, mais de 5 décadas depois, sinto ânsia ao lembrar daqueles olhos, e me culpo, por não reagir como devia, por ter aceitado passivamente suas ordens, por compactuar, seja lá de que forma, com todos seus possíveis crimes, representados por um broche.

CaMaSa

2020

Eram 10 horas da noite de uma quarta-feira qualquer. Eu voltava pra casa e resolvi parar numa velha padaria conhecida do bairro pra comer alguma coisa. Não se passaram nem 5 minutos e entrou pela porta, vindo em minha direção, meu amigo Tampa, que eu não via há mais de 20 anos. Seu nome era Carlos Coutinho, mas ganhou o apelido desde muito novo, porque abria as garrafas de refrigerantes, Guaraná, Crush, Grapette, com os dentes! Sempre foi muito engraçado e tinha um jeito especial de contar estórias que prendiam a atenção imediatamente. Eu fui logo cumprimentando:

– Ô pai, preciso conversar com você…

– É problema de sexo, filho? Ele me respondeu, recordando sua história particular, contada há mais de 40 anos.

Caímos na gargalhada e ele engasgou, tossindo forte e fazendo voar pelos ares o pivô dos dois dentes da frente, que saíram quicando pelo chão como uma bola de pingue-pongue, com o Tampa correndo atrás rindo desesperado. Quando conseguimos voltar a respirar normalmente, falamos um pouco sobre a vida, o que cada um vinha fazendo, até que ele apontou para sua mesa, onde uma mulher o esperava. Nos despedimos com as promessas de sempre, manter contato e coisa e tal.

Quando me voltei para o meu lanche no balcão, notei uma jovem me encarando, que logo em seguida perguntou:

– Você conhece o Tampa?

– Sim, respondi, há mais de 40 anos e…

– Ele é um grande sacana. É meu pai.

Num segundo toda minha dispersão e alegria voltou-se para o olhos daquela bela moça, tristes e amargurados, quase revoltados, em busca de respostas que não lhe dera a vida. Refleti sobre nossa criação, a maneira como fomos despreparados para a vida, nossos pais totalmente atarefados, buscando o sustento da família com suor, muito suor… A sexualidade era tabu e sua educação era conseguida nas ruas, nos relatos dos garotos mais velhos e nos livrinhos de catecismo. Crescíamos poderosos, cheios de vontade e testosterona, inconsequentes e sem nenhuma responsabilidade sobre os sentimentos alheios, gravidez interrompida ou vidas que vingassem. Avaliei o que teria sido minha vida se eu tivesse tirado a sorte grande, ganhasse um bebê indesejado, parido pela dona qualquer de um desejo meu. Senti alívio, senti compaixão. Tentei explicar para aquela moça quanta beleza existe nesta vida, que é um presente, que seja qual for nosso histórico, a qualquer momento podemos tomar a decisão de tomar as rédeas em nossa mãos e conduzir nosso destino em direção à realização e à felicidade. Esta é simples, inerente, está dentro de nós e cabe a cada um torná-la verdadeira.

Ela me olhou como quem diz, você está falando isso porque quer defender seu amigo, virou-se e saiu para a noite quente e mal iluminada. Seguirá seu próprio caminho, único entre mais de 7 bilhões de seres humanos na face da Terra, e nada, a não ser ela mesma, poderá compreender o significado desta passagem, a gloriosa experiência de ser uma parte, infinitamente pequena deste todo, infinitamente grande, inteligente e bom. Que é através dos olhos dela que ele se vê, cria e se admira, fazendo criador e criatura um só, indivisível.

Paguei e saí do local, acenando à distância para meu amigo, que retribuiu o aceno com um sorriso largo, destacado pelo vão dos dois dentes da frente que ele ainda não havia recolocado no lugar. Provavelmente sem saber que era dele mais uma filha deste mundo, porque nunca quis saber ou não teve a chance. Eram os anos 60/70, cheios de pouca informação, sexo, drogas e roquenrol.

Hoje seria diferente. Os pais conversam com seus filhos sobre todos os assuntos, preparando-os para viverem em sociedade com respeito e amor ao próximo. As escolas, desde o ensino fundamental, possuem em seus currículos disciplinas que tratam de aspectos fundamentais para a compreensão da nossa sexualidade e desenvolvimento com habilidade e capacidade pedagógica, preparando os futuros adolescentes para os momentos de transformação da puberdade. O resultado é que nossos jovens chegam às universidades conscientes e bem informados, capacitados para tomar as decisões que moldaram suas carreiras profissionais e as escolhas afetivas para a formação de núcleos familiares harmoniosos.

Benditos anos 2020!

CaMaSa