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O doutor Cláudio Ribeiro tinha os olhos fixos no copo d’água à sua frente. Não que estivesse interessado ou com sede. Seus pensamentos estavam longe dali, mais precisamente numa tarde quente em Ipanema, no Rio. Estava com dois amigos num táxi que contornava a lagoa Rodrigo de Freitas, em direção ao Mistura Fina para mais uma noitada de jazz. Naquela noite ele conheceria Lara, uma turista gaúcha passando férias na Cidade Maravilhosa. Depois de dois olhares já estavam conversando animadamente sobre tudo: o cotidiano em Poa, a falta de perspectiva durante o regime militar, o sotaque marcado, Deus ou a falta dele, a vida… Ela tinha uma energia tão boa, que parecia brilhar como seus cabelos loiros naquele ambiente à meia-luz! Num dado momento, ela o encarou pensativa e perguntou se ele achava possível viajar no tempo? Cláudio olhou para o copo com água com gás gelada sobre a mesa, observou atentamente as bolhas subindo lentamente, e transportou-se para o presente.

– Doutor Cláudio! Doutor Cláudio… É a sua vez.

Despertou do transe, ergueu-se e dirigiu-se à plateia que o aguardava ansiosamente. No auditório havia representantes dos maiores institutos de pesquisa do mundo, como a Academia Russa de Ciências, a Universidade Harvard, Universidade de Tóquio, a Universidade Johns Hopkins, a Universidade de Toronto no Canadá, o Centre National de la Recherche Scientifique na França e as Universidades de Osaka e de Kyoto, no Japão. Representantes da elite científica mundial das mais diversas áreas de pesquisa tecnológica de ponta, todos liderados pelos estudos do consórcio internacional que inclui a United States Department of Health and Human Services (EUA), a Fraunhofer Society (Alemanha), CEA (França), a Japan Science & Technology Agency (Japão), a Agency for Science Technology and Research (Cingapura) e a Universidade de São Paulo (Brasil), sobre o RGHO (Rastreamento Genético Humano Original). O silêncio era lunar. Cláudio começou sua explanação:

– Há algum tempo, uma notícia causou grande furor no mundo científico. Aparentemente, os pesquisadores do CERN (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear) conseguiram “encontrar” o chamado Bóson de Higgs – ou a “partícula de Deus”, que seria a origem de toda matéria existente no universo. O anúncio de tal descoberta esteve entre as principais notícias do mês, gerando polêmica e grande interesse de várias pessoas de diferentes países. Além do Bóson de Higgs, outras pesquisas científicas também ganharam notoriedade e admiração por apresentarem resultados surpreendentes. Entre elas está a possível descoberta de água líquida em Marte pela NASA, assim como a provável detecção da matéria escura – que é responsável pela gravidade que mantém as galáxias unidas, sendo um dos grandes mistérios da Física. 

Mas outras descobertas recentes que, apesar de não terem recebido um grande espaço na mídia, eram igualmente importantes, haviam estimulado a criação do consórcio internacional para os estudos do RGHO, entre elas:

  1. O DNA dos neandertais sobrevive em nossos genes

Um estudo genético comprovou que nossos ancestrais Homo sapiens cruzaram com neandertais e que, por isso, estes últimos sobrevivem até hoje no DNA dos humanos. Além disso, o estudo apresentou que não seriam apenas os neandertais a viverem em nós – também foram descobertos resquícios genéticos dos denisovans, os “primos” dos neandertais. Tal descoberta também foi importante por nos mostrar que o Homo sapiens não seria o produto de uma linhagem pura e longa, mas uma mistura hominídea. 

  1. Desvendando a “matéria escura” do nosso corpo

O RNA era visto como uma “matéria escura” do DNA, pois a complexidade de seu papel como “mensageiro” em levar, na forma de genes, as instruções necessárias para a produção de proteínas ainda era um mistério para a ciência. No entanto, aparentemente, uma “luz” caiu sobre essa questão – já que os cientistas acreditam terem compreendido melhor o papel do RNA como uma peça com grande influência na forma que os genomas operam em nosso organismo.

  1. Desafiando as leis de Newton

Materiais com bizarras propriedades ópticas e que possuem características que não são encontradas em elementos da natureza. Os chamados metamateriais – tecnologia utilizada por físicos e engenheiros para a manipulação e orientação da luz, criando lentes que superam os limites de outras lentes comuns. Com os metamateriais, os cientistas pretendem utilizar as propriedades ópticas não convencionais (que desafiam também as leis da física) para criar objetos incríveis.

  1. Células “reprogramadas” poderão criar tecidos e órgãos

Um dos grandes avanços na área da saúde está na “reprogramação” de células adultas. Com esta conquista, os cientistas conseguiram transformar células de pele ou sangue nas chamadas “células pluripotentes” – que possuem o potencial de se tornar qualquer tipo de célula existente no organismo. Tal descoberta é um grande passo para o tratamento de doenças raras, pois os cientistas já estão utilizando a técnica na produção de linhas de células voltadas a determinados pacientes.

  1. 9 a cada 10 células do nosso corpo são de micróbios

Há alguns anos, os cientistas vêm aprofundando as análises quanto à interação entre os micróbios e os nossos corpos. Aparentemente, criou-se a teoria de que eles, por fim, fazem realmente parte de nós – já que nove a cada dez células que possuímos são células microbianas. E isso não é algo ruim, acredite. Pelo que foi estudado até o momento, apenas poucos micróbios realmente nos deixam doentes, já que a maioria utiliza nosso corpo como “casa” e poderia ser classificada como “bons inquilinos”.

Com base nessas descobertas, integrando-as e fundindo-as num só projeto, a equipe do doutor Cláudio Ribeiro pôde concluir o rastreamento do código genético humano até o momento original, primeiro, o salto da irracionalidade animal para a razão humana. Haviam identificado o primeiro Ser pensante, conhecedor da sua condição diante do Universo que o cercava. A partir dele, todos foram gerados, sendo iguais em todos os sentidos, fisicamente e mentalmente, fazendo com que cada descendente que pense e organize uma linguagem através de quaisquer símbolos, supere todas as diferenças biológicas, culturais, étnicas, ideológicas, religiosas, etc. Isto significa que somos um e somente um corpo vivo. O sucesso da humanidade é o sucesso de todos e o seu fracasso é o fracasso de cada um.

Havia uma luz no ambiente clara como sol a pino, mas o ar estava gelado como nos pólos. Alguns dos presentes haviam esquecido de respirar por alguns momentos, tamanha era a expectativa e concentração. Cláudio limpou a garganta e prosseguiu seu discurso:

– Certa vez uma jovem bonita e radiante me perguntou se era possível viajarmos no tempo? Confesso que naquele momento nada pude responder, porque então era inimaginável tamanha aventura. Mas hoje, temos comprovada a seguinte possibilidade: ainda que não tenhamos como avançar para o futuro e lá encontrar nossa herança, podemos sim retroceder com segurança ao passado e encontrar respostas sobre nossa origem. Por meio das mais avançadas tecnologias científicas à nossa disposição, pudemos retroagir através de um caminho genético contínuo até o primeiro indivíduo dito humano e reconstituir a imagem desse ser humano original, gerador de toda a espécie, como quem refaz o caminho de um rio ao inverso, da sua foz desaguando no mar, até sua nascente gotejante no alto de uma montanha. Esse ser, aparentemente submetido a uma dieta a base de determinados cipós e folhas, foi acometido de um surto alucinógeno de profundidade espiritual indescritível, que o levou a ver a beleza que o cercava, nas cores das flores, no sabor dos frutos, no calor do sol e no brilho das estrelas da noite infinita, e até mesmo nos seus semelhantes. A partir daí, um fluxo ininterrupto de pensamentos e emoções tem percorrido cada descendente seu na face da Terra. Hoje podemos afirmar, com 100% de certeza, que esse primeiro hominídeo era uma mulher, a Mãe de todos nós.

CaMaSa

Photo by mharrsch on Foter.com / CC BY-NC-SA | Fonte: Tecmundo